====== CAMINHO E PODER ====== //The way and its power: a study of the Tao Tê Ching and its place in Chinese thought. Fifteenth printing ed. New York: Grove Press INC., 1977// A conquista Chou sobre os Shang provavelmente ocorreu no início do século X a.C., mas a narrativa apresentada é um tema ritual de substituição do rei-vítima, não pertencendo a um período ou caso específico. * A história sobre um irmão que se oferece no lugar do rei é um tema ritual, mencionado por Frazer em “O Ramo de Ouro” e também presente na “História Secreta dos Mongóis”. * O nome pessoal do rei era um tabu na época. A passagem do “Livro da História” representa a fase pré-moral da sociedade, onde conceitos como virtude e retidão tinham significados distintos dos atuais. * A fase pré-moral é caracterizada como “augural-sacrificial”, centrada em augúrio e sacrifício para manter a comunicação entre Céu e Terra. * “Céu” refere-se aos ancestrais (ti) governados pelo “ancestral supremo” (shang ti), que conhecem o passado e o futuro da tribo. * Nessa visão, não existe a noção de ações boas em si mesmas; “bondade” significava obter presságios favoráveis e manter os sacrifícios, conforme a “maneira do Céu”. * A noção de que o “homem é naturalmente bom”, defendida por Mêncio no século III a.C., seria incompreensível para as pessoas do século X a.C. O texto contrasta a passagem do “Livro da História” com uma passagem de Mêncio sobre a Montanha do Touro, que perdeu suas belas árvores devido ao corte incessante. * Mêncio usa a montanha desmatada como metáfora para a perda da bondade natural do coração humano, que é sufocada por desejos e maus hábitos diários. * Confúcio é citado, falando sobre algo que se mantém ou se perde, cujas idas e vindas são incontroláveis, sugerindo tratar-se dos sentimentos inatos. O objetivo da introdução é mostrar o confronto entre duas atitudes opostas perante a vida, culminando na vitória gradual da segunda sobre a primeira. * A primeira atitude é a fase pré-moral ou augural-sacrificial, focada em rituais e sacrifícios para os ancestrais. * A segunda atitude, que emerge por volta de 400 a.C., questiona o valor de sacrifícios e adivinhação, priorizando o bem-estar dos vivos. A partir de cerca de 400 a.C., uma nova atitude em relação ao sacrifício e à adivinhação começa a surgir, argumentando que o objetivo do sacrifício é provar prosperidade aos ancestrais. * Trechos no “Tso Chuan” sugerem que o homem deve vir primeiro e os espíritos depois, refletindo uma mudança nos sentimentos. * Os ritualistas da escola confuciana, por volta de 300 a.C., vão além, afirmando no “Li Chi” que o sacrifício nasce nos sentimentos internos e não vem de fora. * Hsün Tzu, citando um documento anterior, reforça que, se o povo vive virtuosamente, nenhum desastre ocorrerá. Han Fei Tzu, em sua litania sobre as causas da decadência de um estado, afirma que a crença em presságios, espíritos e adivinhações leva à ruína. * Acreditar em dias de sorte e azar, servir fantasmas e espíritos, confiar na adivinhação e amar sacrifícios são sinais de que um reino certamente decairá. O “shih” (corpse), ou médium, era uma figura regular no ritual chinês, representando o ancestral a quem o sacrifício era oferecido ou o morto no funeral. * O médium aparece em livros rituais e também no “Livro dos Odes”, atestando a antiguidade do costume. * A existência desse tipo de médium não parece fazer parte do padrão ritual de outras civilizações antigas ligadas ao sacrifício. Outra palavra que se aproxima do significado de “alma” é “ch’i” (sopro vital), originalmente o vapor que se levanta de qualquer coisa, como o vapor do cozimento de grãos. * O clima é o “ch’i” do céu; as essências de ervas e drogas são seu “ch’i”; o homem recebe uma porção de “ch’i” ao nascer, que é seu sopro vital. * “Hun” é outra palavra traduzida como alma, a “nuvem” que sai da boca em manhãs geladas, tornando-se a alma masculina que sobe ao céu após a morte. * “P’o”, que originalmente significava sêmen, torna-se a alma feminina que permanece no túmulo. * “Shen” (alma), originado de uma raiz que significa “esticar”, tornou-se a palavra mais comum para alma a partir da era cristã. Ao estudar a história do pensamento hebraico, seria necessário investigar o significado real de palavras como “alma” e “espírito”, e o mesmo deve ser feito em relação ao chinês. * A palavra “tao” significa estrada, caminho, método, doutrina, e para os taoistas passou a significar “o modo como o universo funciona”. * Todas as extensões de significado da palavra “tao” no chinês têm paralelos exatos em outra língua que o autor conhece. A palavra “tê” (poder, virtude) está etimologicamente ligada aos conceitos de “erguer, levantar” e “olhar reto, fitar”. * “Tê” originalmente significava o poder pessoal, a força interior que permite a um homem influenciar outros, uma “virtude” inerente a algo. * Somente após a doutrina confuciana se tornar ortodoxia estatal, “tê” passou a significar conduta bela e admirável por si mesma, independentemente de consequências. A palavra “i” (moralidade) significa o que é certo, apropriado, adequado, o que se espera, o que está “em ordem” sob as circunstâncias. * A pergunta feita por volta de 300 a.C. era se a conduta chamada de “i” (moral) é meramente o comportamento que se espera de alguém por causa de sua posição e circunstâncias. * O autor da pergunta é desconhecido, mas a citação é de um texto atribuído a um dos filhos do Duque de Chou. No período centrado em torno de 300 a.C., questionou-se se a conduta moral “i” é apenas o comportamento esperado de alguém devido à sua posição e circunstâncias. * O autor da passagem, um dos filhos do Duque de Chou, exemplifica que um guerreiro ferido não deve morrer lutando, pois a moral (i) o obrigaria a aproveitar a vida para cuidar dos pais. O homem na terra, em vez de uma pálida sombra dos Ancestrais, possui dentro de si todos os atributos que antes tornavam o culto dos Reis Antigos o fim supremo. * Cada homem deve a si mesmo a veneração que antes era concedida ao Céu, como possuidor de “celestialidade”, “espírito” e o sentido misterioso “i” para discernir o certo do errado. * A transferência do culto dos Ancestros para o indivíduo limitou a esfera de ação do Estado, reduzindo-a a quase nada segundo uma escola de pensamento. Os homens do passado não dariam um único fio de cabelo de seus corpos para ajudar o Estado. * Apenas quando cada indivíduo no Estado é completo e perfeito, até o último cabelo, e para de pensar em beneficiar o Estado, é que o Estado se torna saudável. * As faculdades divinas do homem mantêm uma existência precária; a alma (shen) é como um grande senhor em viagem, que não fica se a pousada não for bem administrada. A experiência tradicional sobre o comportamento de “shen” (divindades) sugeria que o primeiro requisito era a abstinência e o jejum. * No antigo ritual sacrificial, esperar que os Convidados Reais (reis mortos) descessem em forma espiritual era inútil sem que o sacrificador se preparasse com três dias de abstinência e jejum. * O termo “chai” (abstinência e jejum) implicava a contenção de todas as atividades sensoriais e físicas, consideradas ameaças potenciais à alma. * O uso incorreto dos sentidos é deletério de forma sutil, e o governo consistirá na presença de “pessoas melhores” (hsien) que instruem sobre satisfações benéficas ou perigosas para a “vida interior”. Os seguidores de Hsü Hsing, que se vestiam com pano grosso e sandálias de cânhamo, apoiando-se no artesanato de tear, foram repreendidos por Mêncio com a máxima sobre os que trabalham com a mente e os que trabalham com o corpo. * Mêncio afirmou que aqueles que trabalham com a mente governam, e aqueles que trabalham com o corpo são governados, sendo esta uma noção de senso comum. * Naturalmente, seitas que tentavam governar usando técnicas de “quietude” atraíam duras críticas de estadistas como Shen Pu-hai e Shang Tzu. A história de Ch’en Chung ilustra os escrúpulos extremos de um asceta que se recusava a viver de ganhos considerados ilegítimos. * Ch’en Chung deixou a casa de seu irmão, que recebia uma grande renda de uma nomeação, para viver remotamente, fazendo sandálias de cânhamo com sua esposa. * Após passar fome a ponto de perder a visão e a audição, comeu uma ameixa com vermes de uma árvore para se recuperar. * Vomitou ao descobrir que havia comido carne de um ganso presenteado ao irmão, pois considerava o ganso parte dos ganhos ilegítimos do irmão. A transferência da atenção dos mortos para os vivos também se deveu à dúvida sobre se os mortos estavam cientes do que acontecia na terra. * Mo Tzú dedicou um capítulo à confutação daqueles que acreditam que os mortos não “existem” e que sacrifícios são desperdício. * Mo Tzú argumenta que mesmo que não existam espíritos, o sacrifício não é desperdício porque a família e os amigos compartilham a comida, servindo como vínculo social. Há relatos sobre julgamentos de pessoas que acreditavam na inconsciência dos mortos ao lado de outros que ainda defendiam o velho ideal de resignação ao destino. * Uma passagem no “Chan Kuo Ts’e” mostra que a ideia era que tais pessoas deveriam ou ser ignoradas ou punidas com a exposição de seus cadáveres. Os hedonistas, cuja doutrina era chamada “yang-sheng” (nutrir os vivos), argumentavam que o que mais nutre a vida é a felicidade, alcançada pela liberdade de satisfazer os desejos. * Para os hedonistas, homens como Shun, o Grande Yü, o Duque de Chou e Confúcio levaram vidas miseráveis acreditando em beneficiar a humanidade sem proveito próprio. * Reis “maus” como Chieh e Chou, embora condenados, pelo menos aproveitaram a vida ao máximo, construindo palácios e festejando sem escrúpulos. * O dever do governante é dar rédea solta a todos os desejos do corpo e da mente, permitindo que cada sentido busque o que anseia. Os hedonistas são criticados com veemência por aqueles que argumentam que tal doutrina levaria à situação do mundo antes do surgimento dos grandes sábios e à promiscuidade generalizada. * A vida em comum sem governo teria sido uma época em que pais e filhos viviam promiscuamente, como animais. * Permitir que cada um seguisse seu desejo (yü) sem restrições seria regredir a essa condição bestial, abolindo a separação dos sexos. Houve uma seita de Quietistas que pregava o afastamento da multidão e a doutrina do Quietismo em termos confusos e misteriosos. * Han Fei Tzü argumenta que essa Quietude não tem valor prático e é uma doutrina falsa que pode desencaminhar o povo. * O dever do homem é servir seu príncipe e nutrir seus pais, o que não pode ser feito pela Quietude. * A doutrina dos Quietistas surgiu da virada interior do pensamento chinês para o eu e da ideia de purificar o coração para abrigar a alma. O processo de Quietismo consistia em uma viagem de volta através das camadas sucessivas da consciência até alcançar a Consciência Pura. * A técnica principal era a manipulação da respiração, que devia ser macia e leve como a de um bebê, e havia também exercícios de alongamento. * Ao retornar à fonte da percepção, atinge-se um estado de “alegria absoluta” que transcende qualquer alegria terrena e concede “tê”, um poder sobre o mundo externo. * A resposta do Quietista ao desafio do mundo era: “Tente e descubra por si mesmo”. A Escola de Ch’i, cuja doutrina chamava-se “Hsin shu” (A Arte da Mente), concebia uma “mente dentro da mente” que é o santuário do espírito. * Essa “mente interior” armazena o sopro vital (ling-ch’i), que dá força aos membros e articulações, permitindo explorar o Céu e a Terra. * As perturbações que causam a perda dessa “mente interior” são tristeza, alegria, deleite, raiva, desejo e ganância. * Se todas essas emoções forem afastadas, a mente (coração) retornará à sua pureza, e a harmonia virá sem ser procurada. O ramo do Confucianismo fundado por Mêncio foi profundamente influenciado pelo Taoísmo do país de Ch’i, focado na Arte da Mente e no cultivo do Sopro Vital. * Mêncio aprendeu a arte de manter uma “mente inabalada” aos quarenta anos, quando chegou ao país de Ch’i. * Mêncio afirma ter cultivado a arte de usar seu “espírito-sopro como uma inundação”, referindo-se ao sistema descrito em “Kuan Tzŭ”. * Para Mêncio, o “espírito como inundação” é produzido cumulativamente pelo exercício constante do senso moral (i), não podendo ter seu crescimento auxiliado por disciplina especial. No sistema de Quietismo da Escola de Ch’i, o conceito central é a “mente dentro da mente”, o santuário do espírito, e “Tao” é a realidade última e unificadora. * Tao é pesado como uma pedra e leve como uma pluma, é aquilo pelo qual se vive e se morre, e tudo que é feito sem ele falha. * Os Quietistas que desenvolveram essa ideia de Tao como unidade subjacente e impulso vital foram chamados Taoístas. * O primeiro grande princípio do Taoísmo é a relatividade de todos os atributos, como comprimento e altura, que são definidos por comparação com um padrão relativo. Para o Taoísta, debates sobre as pretensões rivais da vida e da morte ou sobre ancestrais versus vivos são sem sentido. * Quando visto de nenhum lugar, o mundo é um todo uniforme e imutável, onde todos os opostos se fundem, inclusive vida e morte. * A história de Chuang Tzŭ cantando e tamborilando após a morte de sua esposa exemplifica essa aceitação da morte como uma evolução natural, parte das estações do ser. A atitude em relação à natureza no Taoísmo não é apenas de resignação, mas de aceitação lírica e quase extática. * Duvidar do direito da natureza de fazer e desfazer é prejudicar a tranquilidade do “espírito”. * Essa aceitação se estende também ao mundo social do homem e à importância do “inconspícuo e imperfeito”. O Taoísmo desenvolveu a ideia de que o orgulho convida à queda, e o machado cai primeiro sobre a árvore mais alta, usando os “imperfeitos” como símbolos da Matéria Primal. * A água, que “ocupa o terreno baixo”, torna-se imagem favorita do não-assertivo no Taoísmo, em contraste com a visão confucionista do “terreno baixo” como lugar de iniquidade. * O “espírito do vale” ou “espírito da água”, que nunca morre, é a base da qual Céu e Terra surgiram e está dentro de nós. * O Quietismo consiste no cultivo da “quietude”, da qual existem inúmeros estágios, e o conhecimento intuitivo e passivo é superior ao conhecimento resultante da atividade mental. O controle sobre o mundo exterior obtido pelo Quietista é resultado de uma identificação com seu ambiente natural através da transmutação espiritual. * Esta identificação habilita o artesão a fazer seu trabalho sem esforço, não através de habilidade técnica, mas do parentesco fundamental da Matéria Primal. * Cada “arte” é, em última análise, incomunicável, e palavras são irrelevantes para a experiência mais profunda do Tao, a “doutrina sem palavras”. Durante o século IV a.C., os chineses começaram a perceber que as palavras se movem em um mundo próprio, fracamente conectado ao mundo da realidade. * Palavras como “infinito” pertencem ao domínio da linguagem, não ao dos fatos, pois sentenças que as contêm não podem ser verdadeiras no mundo real. * Muitas palavras podem ser usadas para formar sentenças com sentido gramatical, mas sem significado real, como empilhar a palavra “elefante” em vez dos animais. A construção do vocabulário chinês por extensão de significado de poucas raízes, sem empréstimos significativos de outras línguas, fez com que a mesma palavra significasse muitas coisas diferentes. * Exemplos como “hsiang” (elefante, marfim, símbolo, imagem, como) e “ssŭ” (tomar em mãos, tribunal, templo budista) ilustram essa polissemia. * Para distinguir os diferentes significados, os escribas usavam “determinativos” ao lado dos caracteres (como “mão” ou “coração”), mas essa prática era irregular e inadequada até o século III a.C. A ausência na língua chinesa de algo equivalente ao verbo “ser” e de marcações de número plural e tempo verbal causou dificuldades lógicas. * A sentença padrão chinesa “X Y yeh” pode expressar identidade, pertencimento a uma classe ou posse de uma qualidade, confundindo a correspondência entre linguagem e realidade. * A mesma fórmula “Yao sage yeh” refere-se ao passado, enquanto “Orphan, child minus-parent yeh” deveria significar que um órfão nunca teve pais. * Os “discriminadores” (pien) não queriam provar absurdos, mas mostrar o perigo do abismo entre linguagem e realidade, crucial para a filosofia prática chinesa. A controvérsia sobre “palavras e realidades” vagou para um novo terreno, tornando-se uma discussão sobre o ajuste de palavras (definição de crimes) a “formações” (punições apropriadas). * A dificuldade com palavras “morais” como “i” (moralidade) era que os confucionistas insistiam que era algo interior, uma percepção especial, enquanto outras escolas discordavam. * O público em geral achava a reivindicação de um “senso” especial tão irritante quanto a reivindicação estética moderna por um senso estético. A China do período consistia em pequenos reinos em constante conflito, apesar de tratados e pactos renovados por reis desesperados. * Um acordo entre os Estados de Chao e Ch’in, prometendo assistência mútua em todas as ações, foi imediatamente quebrado quando Ch’in atacou Wei. * Quando o rei de Ch’in protestou, perguntando em que se baseava Chao para ajudar Wei, o governante de Chao argumentou que a ação de Ch’in não era o que Chao “desejava” fazer. No quarto e terceiro séculos, a velha visão augural-sacrificial perdeu completamente seu domínio entre as classes dominantes, que se dividiram em múltiplas doutrinas conflitantes. * O Confucianismo estava dividido em oito escolas, cada uma reivindicando ser a única depositária do ensino do Mestre. * Todas as cortes da China eram infestadas por filósofos viajantes que pressionavam governantes confusos com as doutrinas rivais de Ativismo, Quietismo, moralidade, força, individualismo e supremacia estatal. Surgiu uma escola de Realistas que rejeitava princípios abstratos como moralidade e benevolência, alegando que os únicos princípios relevantes são inerentes à natureza da própria vida. * Como o homem precisa de comida, roupas e abrigo, falar de benevolência para quem carece dessas coisas essenciais é como “recitar o Livro dos Odes para um peixe fora d’água”. * Dever fundamental do Estado ou do governante é preservar o território (campos, pomares, pastagens), que é a própria vida do povo, e para isso a força é necessária. * O filósofo que propôs falar sobre guerra ao rei de Chao argumentou que, se o rei não se armasse, os reinos vizinhos fariam com ele o que quisessem. Hsün Tzŭ, escrevendo por ocasião da queda de Lu, inverteu a doutrina de Mêncio e afirmou que a natureza do homem é má. * O homem nasce ganancioso, ciumento e lascivo; a bondade deve ser imposta de fora, como a madeira é endireitada em uma prensa. * Os Realistas iam além, considerando os “moralmente superiores” (hsien) inúteis porque sua raridade não serve para governar centenas de pessoas e porque seus atributos são fáceis de falsificar. Os Realistas desconfiavam das emoções de curto prazo, como a piedade por indivíduos, que pode causar crueldade para com a comunidade em geral. * A metáfora do lavar a cabeça ilustra que uma política que não envolva dificuldades e sofrimento nunca existiu; a vida é dura por natureza. * Os Realistas propunham que o Estado deve ser governado por leis e decretos uniformes, e não pela bondade ou moralidade, porque os homens evitam punições e buscam recompensas. O sábio governante dos Realistas não trata um reino de 10.000 carruagens como uma aldeia onde todos são parentes, pois o governo “de carrinho de mão” é inadequado para um grande Estado. * A parte sacrificial e augural da vida pública deve ser completamente descartada, e servir fantasmas e espíritos é um presságio de destruição. * O Realista Han Fei Tzŭ lista a crença em presságios, espíritos e adivinhações entre os quarenta e sete presságios de decadência política, cada um culminando com a palavra “destruição”. Kung-sun Lung, um lógico e pacifista mohista, tentou converter o rei Hui de Chao à supressão das armas com base no amor universal. * O rei Hui de Chao admitiu que tentava suprimir as armas há dez anos, sem muito sucesso. * Kung-sun Lung argumentou que, para o rei que ainda odiava o reino ocidental de Ch’in, a política de supressão das armas não poderia ser realizada, pois exigia amor igual por todos sob o céu. Na doutrina dos Realistas, o primeiro essencial é que o Estado mantenha suas fronteiras intactas, e o segundo, que o povo tenha comida e roupa. * O soldado deve ter o status mais alto na vida corporativa, seguido pelo agricultor, e o governo deve conter o poder do comerciante, que se “recompensa a si mesmo”. * Um vasto sistema de punições e recompensas substitui qualquer apelo ao sentimento público, decência ou moralidade, pois o “amor ao lucro e à fama” são os motivos ativos da humanidade. * A “moralidade” separada da “legalidade” é um fator desnecessário e desintegrador, inconsistente com o princípio realista da unidade. O movimento de “codificação” na China estava ligado à tendência de unificação dos costumes e é refletido na tentativa dos ritualistas confucianos de construir um código de conduta uniforme para as classes altas. * O código penal mais antigo preservado, atribuído ao rei Mu da dinastia Chou, parece justificar multas como substituto para a mutilação corporal. * A mudança para multas é um avanço cultural e uma vitória para as classes proprietárias, abrindo uma nova fonte de receita para o Estado. Os expositores do Realismo, apesar de rejeitarem princípios abstratos, buscaram fundamentação no misticismo Taoísta, pois suas crenças básicas fatuais não constituem toda a verdade sobre o homem. * Os Realistas não investigaram a natureza e função das coisas que buscavam descartar, construindo um edifício coerente, mas incapaz de ser uma morada para o espírito humano. * Obras como “Han Fei Tzŭ” e “Kuan Tzŭ” tentam conciliar a posição realista com o Taoísmo, que se tornara a religião dominante na China do século III a.C. O governante do pequeno estado de Ch’in, que aplicou a doutrina realista de Shang Tzŭ, transformou seu reino em um foco de poder militar aterrorizante. * As instruções de Shang Tzŭ para comissários de fronteira em tempos de guerra previam que famílias com membros fugindo do combate seriam punidas com a escravidão de todos. * As mulheres instruídas a pressionar seus maridos para conquistar, sob pena de nunca mais serem vistas, ilustram a dureza do regime. O rei de Ch’in tornou-se o Primeiro Imperador de toda a China em 221 a.C., mas sua dinastia entrou em colapso cerca de dez anos depois, em 206 a.C. * O Estado baseado em “fatos” e não em “ilusões” sentimentais, como compaixão e moralidade, revelou não ser eterno. * Por volta de 240 a.C., um Quietista anônimo produziu o pequeno livro conhecido como “Tao Te Ching”, uma obra polêmica dirigida principalmente contra os Realistas. O autor do “Tao Te Ching” usa slogans realistas como “nada privado” (wu-ssŭ) e condena o governo pelos “moralmente superiores” (hsien) e a consciência individual (i). * O leitor desavisado poderia confundir a obra com um tratado realista diluído por misticismo Taoísta até encontrar a afirmação de que “reinam não podem ser fortalecidos pela força das armas”. * O autor mina o pilar da política doméstica realista ao declarar que a pena capital e as mutilações não agem como dissuasores do crime. O autor do “Tao Te Ching” combate a ideia realista de “bem público” e a pretensão de anexar um nome imutável a cada fato. * O Quietista sabe que a grande maioria dos fatos—aqueles percebidos quando os canais sensoriais comuns são fechados—não têm nomes e são em sua essência Sem Nome. * O conhecimento desses fatos sem nome concede “tê” (poder), capaz de dissolver as contradições da existência fenomênica. A controvérsia sobre a palavra “desejo” (yü), que não significa apenas desejo sexual, torna-se proeminente no “Tao Te Ching”. * Enquanto alguns acreditavam que os desejos são profundos e numerosos, outros, como Sung Tzŭ, argumentavam que são “rasos e poucos” e podem ser eliminados. * O livro usa “ausência de desejo” (wu-yü) e “redução de desejos” (kua-yü) como intercambiáveis, considerados essenciais para a prática do Quietismo. Os Taoístas não imaginavam uma sociedade inteira de ascetas; o “Tao Te Ching” descreve como o Sábio (shêng), através da prática do Tao, adquire o poder de governar sem ser conhecido. * O livro assume que existiu uma sociedade ideal no passado remoto, e a reforma significa um retorno a esse passado. * O Sábio do “Tao Te Ching” conquista a adesão de todos sob o céu pelo “tê” (poder mágico-moral), não pela guerra, pois acredita-se que a paz viria com a unificação através do poder cultural. Uma diferença importante entre o “Tao Te Ching” e outras obras taoístas é sua condenação específica da guerra, dedicando três capítulos ao tema. * O autor não pode apelar à moralidade como Mêncio, pois sua existência não era mais admitida, e o Quietismo rejeitava conceitos como moralidade e altruísmo. * Seguindo Mo Tzŭ, o livro condena a guerra ofensiva com argumentos de “azar” (ofender os espíritos e ancestrais), admitindo o direito da comunidade à autodefesa. O método literário do “Tao Te Ching” é essencialmente poético, intoxicando o leitor para fazê-lo atravessar precipícios lógicos com a temeridade de um bêbado. * O autor usa a manipulação de palavras sem contexto fixo, explorando a ambiguidade de palavras-pivô para “reinterpretar” máximas de cada escola filosófica e provérbios tradicionais. * O método é uma demonstração triunfante de “tê” (poder), reduzindo coisas complicadas ao seu estado alternativo de unidade e simplicidade (o “Bloco Não Talhado”). O nome do autor do “Tao Te Ching” é desconhecido, e por dois mil anos ele foi conectado ao nome de Lao Tan ou “Mestre Lao” (Lao Tzŭ). * O autor usa algumas passagens que aludem veladamente à técnica física do Taoísmo (controle da respiração e regime sexual) como um sinal maçônico para leitores iniciados. * O autor introduz uma passagem de alguma obra pacifista perdida da escola de Mo Tzŭ no capítulo 31 sobre a guerra.