===== Yama ===== //LE SAUX, Henri. Initiation à la spiritualité des Upanishads: vers l’autre rive. Sisteron: Éditions Présence, 1979.// O problema da Morte, que causa a angústia fundamental do homem, é assim resolvido pela própria negação dos dados do problema, como o próprio Yama ensina ao jovem Naciketas, que corajosamente ousa perguntar-lhe diretamente o segredo da morte e, na verdade, o que acontece, o que existe, além da grande passagem. Não é um fato notável que somente a Morte seja capaz de ensinar o segredo da morte e, portanto, também da vida? Somente o confronto com a Morte revela sua vacuidade. Na teologia cristã, o próprio Jesus teve de enfrentar a morte. O Vivente é ao mesmo tempo “o primogênito de toda a criação” e “o primogênito dentre os mortos” (Col. 1,15-19). Sem dúvida, os ritos e os atos virtuosos proporcionam ao homem uma certa imortalidade no mundo do além, a própria não-morte dos devas, que consiste exatamente no fato de que eles não estão sujeitos às condições de evolução e degeneração deste mundo. Essa imortalidade é apenas uma simples negação da morte atual, uma não-morte que preenche o intervalo entre a morte e o renascimento. O estado essencial do ser, do âtman, do Brahman, do Purusha, do brahmavid (daquele que sabe) é um estado em que os próprios termos de morte e não-morte perderam seu sentido de oposição. Pois esses termos só se aplicam onde há passagem, movimento, ato. Onde não se descobre mais do que o mistério do Ser em sua infinitude, seu sarvatvam, o que é a morte? O que é a não-morte? Como diz o Hino 10.129 do Rig Veda: “Nem a morte, nem a não-morte existiam quando o Um surgiu no Ser”. O nível em que o homem morre, em que é atingido pela velhice, pela doença, pela amargura, pela insatisfação de seus desejos, não passa de um nível superficial de seu ser. Quando ele se descobre no resplendor do Ser supremo — do âtman —, nada pode abalar sua alegria total e plena; ou melhor, sim, nas camadas superficiais de seu ser ele pode sofrer, mas, no mais profundo de sua consciência, há espaço apenas para a alegria, infinita, inalterável, ânanda, um oceano de alegria, sem limites nem margens, pois é a própria alegria do Ser que assim se realiza e se alcança. O Ser, sat, âtman, Brahman, Purusha não são nada do que o homem possa expressar. A felicidade pura (ânanda) é a camada suprema (kosha) na qual esse Ser se manifesta à consciência, no próprio limite desta. Por fim, não é a morte que constitui o evento mais importante da vida do homem, pois ela não pode nem constrangê-lo nem libertá-lo. Sobre aqueles que por ela passaram, o Upanishad diz: > “aqueles que partiram” (pretya, pra.-i.-). Mas a “passagem” para a qual o tema da morte serve de suporte ao pensamento, de sinal, de parábola, é bem outra. A verdadeira morte, a morte purificadora e libertadora, é aquela que corta “os nós do coração” (91 92), os nós que fazem o homem se identificar com os diversos níveis através dos quais ele compreende toda a manifestação, sejam eles os mais elevados, sejam aqueles nos quais o homem experimenta Yânanda, a bem-aventurança. É essa a verdadeira libertação do corpo de que fala o Chândogya Up. no Livro 8 e que, no capítulo 13, ele compara ao “cavalo que sacode a crina e à lua que se liberta da boca de Râhu”. Somente isso é a “Grande e Verdadeira Morte”, a verdadeira e última Passagem (cf. târaka). Esse mergulho até o mais profundo de si mesmo pode ser lento, imperceptível; pode ser brutal. E quando é brutal, ninguém pode dizer se o corpo terá forças para resistir, pois o homem se identificou tanto com suas concepções e seus desejos que, quando estes lhe são arrancados, ele pode não ser mais capaz de permanecer. Ele é, então, apenas Luz, um oceano infinito de Glória. Quando o homem retorna dessa morte, ou melhor, permanece em seu corpo após essa morte, ele é ele mesmo, mas também é diferente do que era. Pois onde quer que vá, em tudo o que faz, há essa profundidade sem fundo da experiência do além, do âtman-brahman que está presente. Os “três quartos dele” que pertencem ao mundo superior estão agora integrados à sua existência concreta. As discussões acadêmicas sobre a possibilidade dessa “libertação nesta vida”, desse jîvanmukti, deixam-no bem indiferente. Para ele, sabe que vive e que já ultrapassou a morte, para-mrita... {{tag>Saux atman}}