===== LAVASTINE: TRI-VARGA ===== //[[http://lesvoies.free.fr/spip/article.php?id_article=910|TEXTO ORIGINAL]]// * Os termos Dharma, Artha e Kama, que constituem o Tri-Varga, não possuem correspondentes exatos nas línguas europeias, pois no Ocidente a virtude é concebida como oposta à busca das riquezas e do prazer, e não como obrigação de persegui-los harmoniosamente. * Dharma corresponde aproximadamente à Virtude, Artha às Riquezas e Kama ao Prazer * No Ocidente, a virtude de um homem é estimada pela sua capacidade de exorcizar as duas últimas em favor do Espiritual * O ponto de vista védico era contrário ao ocidental, pois estimava que os três interesses humanos — Dharma, Artha e Kama — deviam ser reunidos, e não opostos, para que se pudesse desde já saborear a Liberdade espiritual. * Os três valores são chamados Purushártha — os fins ou interesses do ser humano * O Mahabharata, o Ramayana e as Leis de Manu mencionam apenas essas três valores, e as Leis de Manu enunciam expressamente que a reunião dos três constitui o Soberano Bem. * Nas Leis de Manu, lê-se: "Alguns dizem que o Soberano Bem consiste na virtude e na riqueza; outros, no prazer e na riqueza; outros ainda, na virtude somente ou na riqueza somente; mas é a reunião dos três que constitui o Soberano Bem — eis a decisão correta" (II, 224) * Em época posterior, concebeu-se um quarto valor supremo, desligado dos três anteriores, chamado Moksha, ou Libertação, dando origem aos Quatro Purushárthas, mas essa concepção, embora tornada "tradicional", não é a visão védica original. * Alain Danielou escreveu um livro intitulado Os Quatro Sentidos da Vida, com o subtítulo A India Tradicional * A ideia de quatro "sentidos da vida", como há quatro castas e quatro estações, não é védica * Os antigos Arianos concebiam apenas três castas, três estações e três Vedas, e não falavam senão da busca harmoniosa de três Purushárthas, o que não era sem razão. * A palavra sânscrita purusha designa o homem imortal, o Eu ou Si-mesmo, e artha significa "meio", donde a melhor tradução de Purushártha seria "os três meios do homem imortal". * Dharma, Artha e Kama devem ser considerados meios, ao passo que conceber Moksha — a Libertação do Imortal — como um meio contradiz os próprios Vedas, que o proclamam como o fim. * Não existe um quarto Purushártha, pois a ideia de uma busca específica do Si-mesmo é errônea — pode-se e deve-se buscar os meios que permitam ao verdadeiro Si-mesmo manifestar-se através de nós, mas a ideia de ver o Vidente ou conhecer o Conhecedor é uma loucura, conforme atesta a Brihadaranyaka Upanishad. * O Si-mesmo está presente desde já numa família unida ou numa nação não dividida, mas, se as condições necessárias à sua manifestação não forem produzidas, Ele não pode manifestar-se, pois o homem tem o poder de fazer existir essas condições — os artha — mas não outro poder além desse. * "Fazer existir" é a tradução exata do sânscrito Bhavana, geralmente traduzido pelo vocábulo ambíguo de "meditação" * Em seu uso original, Bhavana designava o ato de fazer existir a "Grande Pessoa" de uma família (Brihadaranyaka Upanishad, I, 4, 17) ou de uma tribo (Rig Veda, X, 90, 12) * A analogia proposta: quando um aparelho de rádio está em mau estado, não pode captar as ondas — é preciso repará-lo, não meditar sobre as ondas * O homem isolado não tem o poder de fazer existir essas condições; o mundo e a sociedade são o aparelho receptor da Voz interior * O recolhimento absoluto do mundo equivaleria ao recolhimento absoluto de Deus, pois Sua Voz não pode se fazer ouvir em outro lugar * O ponto de que o homem é um ser social, enquanto não estiver em estado de pecado mortal, é capital, pois o monge que se retira do mundo de forma permanente torna-se um homem de pecado que propaga essa condição. * Os "monges no mundo" admitiam essa realidade; os que a negavam eram alvo da crítica de São Basílio * São Basílio afirmava: "O homem não é um animal monástico. Ele é feito de modo a não poder dispensar o socorro de seus semelhantes... A vida solitária, ao dobrar cada indivíduo sobre si mesmo, mutila a natureza... A vida dos anacoretas resulta no mais monstruoso egoísmo." (Regulae fusius tractatae, VII) * A solução para o enigma do surgimento do monaquismo — fenômeno totalmente desconhecido dos tempos védicos e bíblicos, onde se encontravam patriarcas — está numa deturpação da noção de "meditação". * Segundo Meillet, meditatio significa "preparação, prática, exercício" — muito mais do que "reflexão, meditação" * Meditor é um iterativo de medeor, "dar seus cuidados a", donde as palavras med-icus e re-medium * A raiz de "meditação" está profundamente ligada à raiz das palavras mediação e meio — e a melhor tradução de artha era justamente "meio" * Quem quer o fim quer os Artha, os meios — mas a avareza humana leva a querer o fim sem os meios, inclusive no plano mais elevado da Mística. * O fim do Veda (Vedanta) era libertar o Poder divino (Shakti-Shabdabrahman) cativo entre os homens, enquanto eles não tivessem sido "preparados, trabalhados, exercitados" — meditati * Um falso Vedanta proclamou haver um caminho para o fim que não passava mais pelo mundo, alcançável pelo intelecto (Buddhi) apenas, desprezando os domínios dos sentimentos (manas) e do corpo (deha) * Esse apelo proclamava: "Abandonai mulheres e filhos! Ide para a floresta! Meditai o Objetivo supremo!" — e essa loucura de meditação transformou a India inteira num deserto * Os diversos Vedantas e Budismos da espiritualidade "clássica" cometiam o erro de rejeitar os únicos meios que conduzem efetivamente ao Fim — Dharma, Artha e Kama —, enquanto os marxismos e freudismos, entusiastas de Artha e Kama, conservavam esses meios mas rejeitavam o Fim, além de excluir o primeiro deles, o Dharma. * Os marxismos e freudismos não percebem a existência de um Além, do Grande Negro que a India chama Krishna * Krishna diz de si mesmo: "Sou Kama, que não tenho conflito com o Dharma" * O Eros de Krishna anuncia a Libertação; sua Bem-amada Radha (= Branca) abandona-se a Ele como a noite ao dia * Este mundo é um chiaroscuro que pode ser apreendido de duas formas: como conflito incessante entre Devas e Asuras, ou como união amorosa entre eles quando a relação se inverte — o Divino compreendido como Trevas (Krishna) e o mundo como a luz de Radha. * No primeiro caso, é Indra que mata o Asura Vritra, Miguel que mata o Dragão * No segundo, é o amor de Krishna e Radha ou, num plano não erótico, o de Krishna e Arjuna — Arjuna também significa Branco * A grande enigma que fascinava os poetas védicos era o vínculo necessário entre os dois mundos da claridade — o cosmos ordenado dos Devas — e o ambiente obscuro da floresta, dominado pelo Asura. * À medida que penetravam na floresta com o fogo de Agni, criavam clareiras para Radha, mas o perigo era apenas afastado * Pressentiam na Noite não apenas trevas demoníacas, mas também uma Noite divina * A imagem da clareira, onde vivem os homens do Dharma e do Artha, permite situar na Floresta as forças opostas — Kama e Moksha —, que têm em comum serem forças de Dissolução. * Krishna, o Amante que conduziu sua bem-amada à noite, anuncia a Libertação com seu Eros — e é nessa direção que deve ser buscada a solução do problema de Ahura Mazda, o Oculto-Resplendente do Irã. * Enquanto a India especializava o Asura como trevas demoníacas e o Deva como luz divina, o Irã procedia ao inverso: Ahura tornava-se Mazda (Luz) e os devas tornavam-se demônios * A doutrina esotérica conservada em ambas as tradições afirma que luz e noite, forças de Coesão (Dharma e Artha) e forças de Dissolução (Kama e Moksha) são igualmente necessárias à vida do mundo * Krishna foi identificado pelos gregos de Alexandre a Heracles; Ahura Mazda aproxima-se de Amon-Ra egípcio, o Oculto-Resplendente * Na tradição cristã, remete à Trevas hiperluminosa de São Dionísio; na tradição muçulmana, ao Aswad nurani — o Negro luminoso, ao mesmo tempo Trevas e Luz: Trevas porque não pode ser visto, Luz porque faz ver * O Islã identifica o Negro luminoso ao Cristo * Se um homem é de natureza ascética e renuncia a Artha e Kama, seu Dever (Dharma) em relação aos que ama — que não partilham dessa natureza — é precisamente procurar-lhes esses bens, ao passo que o Monge saído do mundo escolhe censurar-lhes essa busca. * A essa censura aplica-se a palavra de Nietzsche: "A quem chamas mau? — Àquele que quer sempre fazer vergonha." * As línguas germânicas designam a Santidade pelos termos Heiligkeit ou Holiness, derivados de Heil ou Whole — Totalidade —, e nas línguas semíticas o salvo exprime-se por Shalom ou Salam, que significam "Sê inteiro!", ao passo que o latim salvus vem do sânscrito sarvam, a Totalidade. * Um homem é salvo quando se torna completo, inteiro * Tanto na India como no Ocidente, o homem é concebido como a integração num Si-mesmo de três partes constitutivas: Buddhi (Spiritus), Manas (Anima) e Deha (Corpus). * Não basta ter um corpo, por mais belo que seja, para merecer o nome de homem * Não basta ter uma alma, por mais delicada que seja — os animais também a têm * Não basta ter um intelecto aguçado — os animais frequentemente superam o homem nesse aspecto * O homem só merece esse nome se seu espírito, sua alma e seu corpo forem informados por um Si-mesmo (Atman), que é naturalmente brahman — palavra que designa a capacidade de informar, segundo Paul Thieme: Formung * O Atman-brahman não é um fim a ser atingido ao termo de um Caminho — é por Ele que se têm pensamentos, sentimentos e sensações, e não o contrário, como diz a Kenopanishad * O Espiritualismo comumente atribuído à India mais antiga pertence na verdade a uma India tardia e decadente, em que o Hindu individualista não queria mais realizar a Voz, mas apenas Conhecer e Ser Aquele que falava. * O Si-mesmo é o Envelope social a partir do qual as partes que nos compõem se desenvolveram * Sob o nome de brahman, o Si-mesmo não cessa de informar — ele é uma matriz; em sânscrito, garbha tem o duplo significado de matriz e embrião * Os "vedantistas" hindus insistiam em meditar essa união: Atmanam viddhi — Conhece o Atman; mas isso não significa que se possa ser inteiro fazendo abstração das partes * Uma certa India — a mesma que rejeitou a doutrina do tri-varga — cometeu o erro contra o qual o Buda possivelmente protestou com a palavra ANATTA: não há Atman. * Anatta, em páli, pode significar: esse Atman que vocês concebem como substância autônoma não existe * O Buda parecia negar a existência autônoma e satisfeita de um quarto termo que não fosse o englobante ou formador (brahman) dos três primeiros * Na querela que opõe Hinduísmo e Budismo há 2.500 anos, tudo indica que um retorno às noções védicas — expressamente rejeitadas pelo Budismo e obscurecidas pelo Vedantismo — poderia trazer clareza * Ao acrescentar à série primordial Dharma, Artha e Kama um quarto termo específico designando o Salvo (Moksha), a India deu um passo fatal, pois isso levou ao raciocínio de que não haveria necessidade de desenvolver e harmonizar os três valores se o objetivo último era deles se libertar. * O texto de Manu é expresso: "Quando os três são reunidos, é o Supremo" * A tradição verdadeira, porém, não pereceu; Shankaracharya (século IX), em seus Comentários à Bhagavad Gita, II, 55, afirma: "A obtenção do verdadeiro objetivo da vida não significa nada mais do que o aperfeiçoamento dos meios que a ele conduzem" * Manu ensinava os três meios do Pravritti-Marga — a Via que passa pela vida no mundo; Shankara ensinava os meios do Nivritti-Marga — a via "monástica" que renuncia a toda vida no mundo * No Ocidente, Virtude, Riqueza e Eros são conhecidos, mas o Tri-Varga foi perdido junto com a memória de um Dharma que imporia como dever descer à terra para adquirir conscientemente riquezas a dar e um amor de que possam se beneficiar mulheres e filhos. * Se a virtude de um homem é estimada por sua capacidade de se elevar acima dessas coisas "inferiores", não é de admirar que a palavra Virtude esteja tão desvalorizada * Marx e Freud introduziram-se sem efração nos domínios de Artha e Kama porque a praça estava vazia — havia sido esquecido que o homem deve ter tantas riquezas quantas lhe bastem para cumprir sua função no ritual do Sacrifício social. * São Tomás de Aquino ainda conhecia essa doutrina * Blanc de Saint-Bonnet e Ananda Kentish Coomaraswamy escreveram sobre a economia medieval, fundada na noção de Despesa social ou ritual — e não no ganho individualista do capitalismo * A subordinação do domínio de Artha ao de Dharma oferecia a solução real para uma questão que Marx não resolve * A abolição da propriedade pelo comunismo situa-se nos antípodas do cumprimento da propriedade no Ritual de uma vida comunitária equilibrada * Marx ignorou os princípios da antiga Sociedade; progressista que era, não podia conceber uma Sociologia iluminada pela Cosmologia e pela Psicologia tradicionais * Freud nada sabe da relação secreta entre o Amor (Kama) e a morte no sentido em que a entendiam os mestres sufis, e fala em sublimar Eros — mas não se trata de sublimá-lo, e sim de consagrá-lo. * Jalal ad-Din Rumi afirmava: "E quando nasce o amor, morre o Eu, o sombrio déspota" * Muhyi-d-Din ibn Arabi escrevia: "A Essência divina (o amor) deve invadir o homem como faria a morte, como uma potência que dele se apodera; se assim não fosse, a Essência divina poderia também ser retirada do homem pela morte" * O problema do valor — se desejamos uma coisa porque ela tem valor ou se lhe atribuímos valor porque a desejamos — recebe da tradição religiosa uma resposta que não é ingênua, mas profundamente consciente da força do Desejo. * O Rig Veda diz: "Kama, que é o germe do pensamento" * A tradição religiosa adjurava a render culto a uma coisa quando se reconhecia seu valor, para que se pudesse chegar a desejá-la * Daí a origem dos cultos e do casamento — do qual o Profeta do Islã declarava que era "a metade da religião" —, pois uma jovem hindu disse a uma francesa: "No Ocidente, vocês casam com o homem que amam; na India, amamos o homem com quem casamos." * A India ainda impõe às jovens esposas o dever de render culto aos maridos para que possam amá-los * Esse culto permite a um casal hindu ver-se mutuamente como Deva (Deus) e Devi (deusa) * Sem esse culto, cai-se no nível moderno: valoriza-se a mulher que se deseja ao ponto de torná-la esposa, para depois degradá-la (Divórcio) quando se deseja outra * Uma cultura tradicional confere ao grupo humano que conservou valores a capacidade de exigir de seus membros o culto que lhes é devido para que possam ser desejados * Onde o legado foi rejeitado em nome de uma pretensa "liberação", não há mais grupo salvador — e o indivíduo rejeita toda lei ao sabor de seus livres desejos, numa liberdade de simagreia (si m'agrada!) * A Sabedoria, concebida como a capacidade de ver os valores relativos das coisas e de se manter em estado de "boa-Vigilância", é o maior bem, pois permite evitar a tolice de trocar a moeda de ouro de um valor pela ficha falsa de um desejo. * O Profeta dizia: "Não insultes o século, pois ele é Alá" * Toda cultura tradicional oferece a seus membros o combate pelo qual se deve passar para obter a paz verdadeira * A civilização moderna é o mundo dos que estimaram mais simples ter a paz imediatamente, recusando o combate — o erro de Arjuna, que Krishna em pessoa precisou encarnar para corrigir * O mundo moderno comete, num certo sentido, o mesmo erro dos vedantistas — o de pretender conhecer uma via direta que não passa pelo mundo —, sendo impossível ser livre quando se está devorado pelo remorso, pela miséria ou pelo desprazer. * Mestre Eckhart afirmava: "Nossas boas pessoas imaginam poder levar as coisas ao ponto em que a presença sensível das coisas para os sentidos não exista mais! Que um barulho penoso seja tão agradável ao meu ouvido quanto uma harpa: nunca conseguirei isso!" * Os três termos do Tri-Varga são sempre enumerados começando pelo Dharma, que corresponde ao A do célebre Pranava A U M, e a palavra Dharma deve ser iluminada por suas duas analogias — cosmológica e sociológica: o Dharma é no homem o que o Sol é na natureza e o que o Trono é na sociedade. * As palavras Thronos e Dharma têm a mesma raiz Dhar — sustentar, segurar * O Dharma é a Lei que sustenta os seres em seu ser * Para traduzir interiormente o sentido desse princípio sem recorrer a palavras, basta lembrar-se de Si-mesmo * Os três valores humanos do Tri-Varga só podem ser compreendidos à luz de uma série de outras tríades que, com o "quarto" termo que as transcende, constituem os próprios quadros do pensamento hindu. * No homem: Buddhi, Manas, Deha (Spiritus, Anima, Corpus), integrados pelo Atman — o Espírito Santo ocidental * Os três guna ou qualidades naturais: Satva (Serenidade), Rajas (Paixão), Tamas (Inércia), com o Atiguna — a liberdade além dos guna * Os três estados de vigília, sonho e sono profundo, expressos pelas letras A U M, prolongados por uma ressonância nasal musical simbolizando o "quarto" estado — turiya — substrato eterno dos três * Os três Vedas: Rig, Yajur e Sama, correspondentes aos três estados da água — gelo, água líquida, vapor —, contidos por um quarto Veda, o Atharva, também chamado Somaveda (o Soma é a "Água da Vida", outro nome do Divino) * O raio de criação: Sol, Lua, Terra — árvore invertida com raízes fulgurantes além da abóbada celeste * Na ordem social: três castas — Rajánicas ou Kshatriyas, Vaishyas e Shudras —, englobadas pela quarta, a dos Brahmanas; na família: Pai, Mãe, Filhos e Patriarca * Os três ashramas ou etapas da vida: Estudante, Senhor da Casa, Eremita da Floresta — que se cumprem no Renunciamento * Em todos esses casos, é sempre uma descida (avatara) que se faz "do céu à terra" em três etapas, para uma subida além do céu; três realizações se unificam em uma "quarta" (Moksha) que, sob o nome de Dharma, é o ponto de partida de uma nova descida * O sistema é infinitamente flexível, e o princípio espiritual ou espiralado da encarnação (avatara) seguida da remontada a um ponto mais elevado da espiral deve ser apreendido em cada uma das inúmeras formas que pode assumir. * O princípio é o seguinte: num relâmpago, vislumbra-se o que deve ser o dever, o que dita a voz interior — e então, se se sabe ser dócil, empreende-se a "descida", a obra de fazer existir na realidade (terra) o que era apenas uma ideia (céu) — e, ao chegar à terra, inevitavelmente se ressalta a um nível "celeste" mais elevado. ** CONCLUSÃO ** * Tri-Varga designava o agrupamento harmonioso de três valores naturalmente divergentes, destinados a se chocar e criar um Fogo — pois a sede excessiva de riquezas afasta da vida honesta e agradável, o fanatismo pela virtude pode aniquilar prosperidade e prazer, e o devasso inevitavelmente se arruína econômica e moralmente. * A resposta da India nunca variou em aparência: sem o Um, a reunião dos três é impossível — mas a concepção do Um modificou-se até tornar-se o contrário do que era primitivamente. * Continuou-se a afirmar que o homem tem em seu centro um Si-mesmo imutável e eterno, o atman-brahman * A primeira tradição queria que esse atman, sob o nome de brahman, englobasse os três mundos e fosse seu rei * Uma tradição posterior passou a ensinar que o Si-mesmo não tinha outro dever para consigo mesmo senão o de fundir-se no brahman * A reunião de Dharma, Artha e Kama só é possível por um atman que os integre — e não por um atman que deles se afaste sob o pretexto de que a única realidade é o brahman. * Quando esse erro invadiu os espíritos, o Vedantismo creu cumprir a tradição védica ao adicionar um quarto valor supremo — Moksha, a Libertação — mas esse acréscimo era um contrassenso, pois passou-se a crer que era preciso se libertar dos três para atingir o Supremo. * O Vedanta magnânimo tolerava que espíritos medíocres se obstinassem nos três fins de vida "inferiores", esperando que a luz viesse a iluminar suas trevas * Shankaracharya, em seus Comentários à Bhagavad Gita, II, 55, afirmava: "A obtenção do verdadeiro objetivo da vida não significa nada mais do que o aperfeiçoamento dos meios que a ele conduzem" — confirmando a doutrina de Manu * Uma tradição "vedantica" substituiu assim a tradição védica — e o termo Vedanta (veda + anta, fim) pode significar tanto cumprimento quanto abolição do Veda. * A destruição operou-se gradualmente: ninguém negou a autoridade do Veda, mas o acento foi deslocado — Moksha tornou-se o único necessário, e os três meios foram desconsiderados. * A única chama iluminativa era reputada valer por si mesma, e as três lenhas que deveriam ser postas no altar para obtê-la foram pouco a pouco esquecidas * Sem lenha oferecida em sacrifício, não se pode conceber uma chama — de que se alimentaria ela? * A India cometeu a grande errância ao pensar separadamente um quarto termo; o mesmo desvio ocorreu no Ocidente quando se imaginou que Deus queria ser amado tal como é em si mesmo e não em sua criação — o contemptus mundi de numerosos santos. * A tradição antiga era o oposto, como proclama este verso do Rig Veda: Ekam va idam vibhabhuva sarvam — "É esse Um (ekam) que se tornou o Todo (sarvam)" * O Vedantismo não se cansou de ensinar que o Todo é ilusório e que apenas o Um é real * É verdade que só o Um pode nos salvar — mas, justamente por isso (e a própria linguagem o diz, pois o latim salvus é o sânscrito sarvam), o Um, único real, é constituído pela reunião e redenção das três partes discordantes do ser. * Não são os que dizem "Senhor! Senhor!" que o realizam, mas os que O fazem existir, tornando-se eles mesmos Senhores * A India autêntica repetia: Na devo devam arcayet — "Somente o Deus pode render culto ao Deus" * O Vedantismo recusou reconhecer deuses; sua filosofia ilusionista declarava que os três mundos de Dharma, Artha e Kama não existem — mas é justamente o ato de rejeitá-los na ilusão que constitui a ilusão * O salvo (Moksha) não é uma libertação do humano como se fosse um veneno do qual se deve escapar, mas a libertação do humano que reencontra enfim sua Unidade — e, para concluir, nada melhor do que recordar a palavra de Gerloh, contemporâneo de Mestre Eckhart: "Se queres vislumbrar Deus, não olhes acima de ti."