===== 2.4 Nesciencia e conhecimento ===== //ALSTON, Anthony John. **Śaṅkara on the Absolute**. London: Shanti Sadan, 1980. (A Śaṅkara Source-Book, v. 1).// **CAPÍTULO II** **A DOUTRINA DA NESCIENCIA** **4. O Ponto de Vista da Nesciencia e o Ponto de Vista do Conhecimento** 1. A distinção entre dois pontos de vista, o da nesciencia e o da verdade última, vale, como qualquer outra doutrina ou distinção, apenas do ponto de vista da nesciencia, mas é nele que se encontra o discípulo a quem se dirigem os textos dos Upanishads, sem o que nem sequer poderia ouvi-los, e seu propósito ao ouvi-los é despertar para um novo ponto de vista, o do conhecimento, distinção implícita nos próprios textos upanishádicos, como na palavra de Yājñavalkya na Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad segundo a qual, onde há a aparência de algo distinto do Si, um Si que é uma entidade pode parecer ver um objeto que é outro, mas, quando tudo se tornou o próprio Si, nada há que ver nem com que ver, o que mostra que essa distinção repousa não apenas ou principalmente na necessidade de harmonizar os textos que negam a pluralidade com os que a implicam, mas na experiência real dos homens iluminados que alcançaram a discriminação entre o Si e o não-Si, os quais desfrutam da experiência empírica implicadora de pluralidade tal como o ignorante, sem jamais se iludirem acreditando em sua realidade. 2. A distinção entre o ponto de vista da nesciencia e o do conhecimento não coincide com a distinção entre graus de realidade (prātibhāsika, vyāvahārika, pāramārthika) estabelecida pelos seguidores posteriores de Śaṅkara, pois tudo o que se experimenta no estado de nesciencia, seja na vigília, no sonho ou na ilusão sensorial, é sobreposição ao Absoluto e não possui realidade alguma senão como o Absoluto, já que não há percepção sem percebedor e o próprio percebedor resulta da sobreposição mútua errônea do Si e do não-Si, o que implica que a parte mais elevada da mensagem upanishádica não pode ser conhecida pela mera autoridade da revelação, exigindo realização na experiência efetiva, visto que ninguém pode pretender saber-se Espírito imortal distinto do corpo apenas pela autoridade dos textos, uma vez que toda aceitação de autoridade depende, em última instância, da falsa identificação com o corpo, os sentidos e a mente perecíveis para apreender o enunciado autorizado, embora até a iluminação final se devam aceitar os resultados da percepção, da inferência e da revelação védica em suas respectivas esferas, sem a tentativa, presente em Maṇḍana Miśra e mesmo em Sureśvara, de dissolver a realidade do mundo por dialética negativa, pois a experiência comum do mundo, solidamente estabelecida pela percepção e pelos demais meios de conhecimento, não pode ser anulada por mera dialética sem a elevação à apreensão direta de um princípio superior, já que, não se podendo apontar exceções, as regras estabelecidas prevalecem. 3. Na comparação entre a experiência de vigília e a de sonho, o que interessa no sonho não é seu caráter mental, mas sua sujeição ao cancelamento pelo despertar para um novo ponto de vista, valendo, porém, dentro do ponto de vista do sonho, a percepção e a inferência oníricas, assim como antes da iluminação toda cognição é válida em sua própria esfera, sendo o conhecimento obtido pelos meios reconhecidos de cognição válida determinado pela forma de seu objeto e inteiramente diverso da mera imaginação subjetiva, cujos objetos são puramente mentais e podem ser conscientemente modificados ou suprimidos à vontade do pensador. 4. Enquanto se permanece no reino da nesciencia, sentindo-se agente e experimentador individual, está-se no domínio em que os meios reconhecidos de conhecimento incidem sobre objetos externos, domínio da pluralidade cuja ordem e harmonia só se explicam pelo recurso ao princípio de um Governante Interior, força divina que supervisiona o desdobramento das sementes de experiência futura deixadas pelos atos das criaturas vivas, mas aquilo que no estado de nesciencia se concebe como o Senhor (Īśvara) ou o Governante Interior (antaryāmin) é apenas o Absoluto tal como aparece ao indivíduo afligido pela nesciencia, que não percebe ser o Absoluto nada além de seu próprio Si verdadeiro, de modo que do ponto de vista da iluminação e da verdade final o Senhor perde sua qualidade de Senhorio e se manifesta simplesmente como o Si em sua verdadeira natureza, e os textos upanishádicos que negam ao Si em sua forma verdadeira toda qualidade finita não conflitam com os que lhe atribuem características finitas ou o chamam Senhor, pois o pequeno grupo fala do ponto de vista do conhecimento e o grupo maior do ponto de vista da nesciencia. {{tag>Sankara Alston Absoluto nesciencia conhecimento}}