===== 1 O Absoluto como criador e governante ===== //ALSTON, Anthony John. **Śaṅkara on the Creation**. London: Shanti Sadan, 1980. (A Śaṅkara Source-Book, v. 2).// **1. O Absoluto como criador e governante do mundo** 1. A doutrina da criação depende inicialmente da revelação, pois a razão, limitada à causalidade observada no mundo fenomênico, não pode alcançar por si mesma a relação entre o universo e o Absoluto sem transformar a matéria em uma realidade eterna que o condicionaria; acolhido o ensinamento de um Ser onisciente e onipotente que projeta o mundo, a reflexão pode aprofundar seu significado e encontrar na experiência analogias que sustentem a compreensão da verdade revelada. 2. A perspectiva da verdade suprema exclui a pluralidade, o mundo e o Criador como realidades distintas, mas a experiência submetida à ignorância exige reconhecer um Senhor consciente que sustenta e governa a manifestação, em vez de atribuí-la a forças cegas; as funções de causa material, causa eficiente e governante interior pertencem a um ensinamento provisório que será posteriormente ultrapassado pelo procedimento de atribuição seguido de negação. 3. O Senhor corresponde ao Absoluto associado ao condicionamento externo de nome e forma produzido pela ignorância, pois sua natureza verdadeira não comporta outro ser sobre o qual exercer domínio; entretanto, a ordem e a complexidade da manifestação tornam insuficientes as explicações baseadas na alma individual, nos efeitos desorientados das ações ou no acaso, fazendo da concepção de um Criador onisciente, onipotente e compassivo a forma de aproximação espiritual mais acessível à maioria. 4. O ensinamento segundo o qual o Si mesmo projeta os elementos e ingressa neles para desenvolver nome e forma preserva a consciência da origem divina do mundo e da alma, mas não admite uma separação literal e definitiva entre essas manifestações e o Absoluto; os condicionamentos externos (upadhi) fazem parecer que sua natureza recebe propriedades e limitações que, na realidade, não a modificam. 5. Assim como os recipientes parecem dividir o espaço e transportá-lo com seus movimentos, embora não produzam qualquer divisão ou deslocamento real nele, as formas finitas fazem o Absoluto parecer individualizado, limitado e atuante; a necessidade de explicar a ordem do universo legitima provisoriamente sua compreensão como Criador e governante, cuja importância espiritual permanece enquanto subsiste a ignorância. 6. A criação do universo pertence ao Absoluto, concebido como onisciente e onipotente, e não à alma individual, cuja limitação exige reconhecer uma realidade superior que sustenta e governa o mundo; essa diferença é aparente, como a distinção entre o espaço universal e o espaço supostamente encerrado em um recipiente, mas conserva sua validade até a realização intuitiva da identidade com o Si mesmo supremo, enquanto a variedade dos seres manifesta a diferenciação no interior da unidade. 7. A alma individual não possui capacidade independente para organizar o cosmos, e as divindades que exercem poderes criadores recebem-nos do Senhor; mesmo que se admitisse uma atividade criadora da alma, ela pertenceria em última instância ao Si mesmo supremo, pois a individualidade é apenas sua manifestação condicionada. 8. As formas finitas são aparências estabelecidas pela ignorância, indetermináveis como idênticas ao Absoluto ou como diferentes dele, enquanto sua natureza transcende todas essas determinações; aquele que realizou a não dualidade pode continuar ensinando no mundo empírico até o fim da existência corporal, reconhecendo os objetos como inseparáveis do Absoluto sem atribuir-lhes realidade própria nem confundir sua aparência com a natureza transcendente que os sustenta. **2. O Absoluto como Senhor** 1. “Senhor” (Isvara) e “Senhor supremo” (Paramesvara) são designações praticamente equivalentes que geralmente coincidem com o Absoluto, cuja única caracterização positiva propriamente admitida é a Consciência; a Bem-aventurança recebe menor destaque e não estabelece uma identificação do Senhor com o envoltório de bem-aventurança, como ocorreria em formulações posteriores da tradição. 2. A natureza do Senhor como Consciência implica sua onipresença e sua evidência eterna, sem que sua presença nos corpos o submeta às limitações da corporeidade, à ação, ao sofrimento ou à transmigração; sem forma, suporte ou mudança, ele não pode ser conhecido pelos meios comuns de investigação e constitui o sentido último da revelação védica, sendo essencialmente idêntico ao Absoluto. 3. A distinção entre o Senhor e a alma individual decorre da ignorância e dos condicionamentos externos associados ao corpo, que ocultam sua identidade essencial e fazem o princípio supremo parecer múltiplo; a diferença conserva validade apenas na experiência equivocada, enquanto a natureza verdadeira da alma permanece idêntica ao Senhor, ao Si mesmo supremo e ao Absoluto. 4. A alma individual é apenas como se fosse uma parte do Senhor, pois a não dualidade impede qualquer fragmentação real do princípio supremo; embora sua natureza verdadeira seja o Senhor e sua realização possa ser descrita como reconhecimento das perfeições divinas, as limitações da alma encarnada não podem ser atribuídas ao Senhor, que permanece seu Si mesmo real e transcende sua condição corporal. 5. A Consciência é o único predicado correspondente à natureza verdadeira do Senhor, enquanto suas funções de criador, agente, causa e governante onisciente e onipotente dependem de sua consideração em relação ao mundo, à alma ou à meditação; ele constitui a essência de todas as coisas e preside à manifestação, enquanto as divindades subordinadas representam o mesmo princípio considerado sob diferentes condicionamentos externos. 6. As designações de Senhor e Absoluto permanecem geralmente intercambiáveis no ensinamento sobre a criação, permitindo atribuir a ambos as funções de projetar, produzir e causar o universo; entretanto, apenas o senhorio é ilusório por depender de uma relação com a manifestação, ao passo que a natureza do Absoluto enquanto Absoluto não pode ser considerada ilusória. 7. A condição de Senhor e a forma individualizada da alma possuem aspectos aparentes, mas os termos que designam a alma individual sempre pressupõem sua consideração sob limitações ilusórias, enquanto “Senhor” pode designar diretamente o Absoluto sem implicá-las; por isso, a equivalência entre Senhor e Absoluto não se reproduz entre alma individual e Si mesmo supremo, pois a própria individualidade pertence à perspectiva da ignorância. **3. O Absoluto como causa material e eficiente do mundo** 1. A atribuição ao Absoluto das funções de causa material e eficiente explica provisoriamente a manifestação dos objetos e das representações mentais como uma projeção que dispensa qualquer agente exterior, mas a transformação pertence à matéria primordial e não à sua natureza imutável; o ensinamento causal adapta-se à compreensão daqueles que percebem causas e efeitos em toda parte, conduzindo ao conhecimento da existência do Absoluto, e não de sua suposta atividade criadora, pois somente esse reconhecimento produz o fruto da imortalidade. 2. Os poderes criadores atribuídos ao Absoluto pertencem à perspectiva da ignorância, e a criação, aproximadamente comparável a um jogo, não constitui um acontecimento histórico descrito literalmente pelos textos sagrados; a inconsciência dos efeitos não exige uma causa inconsciente, pois os efeitos dependem de sua causa sem esgotá-la, e sua manifestação ou dissolução não compromete a unidade e a pureza do fundamento, assim como ondas e bolhas permanecem distintas entre si sem serem diferentes da água. **4. O Absoluto como governante interior** 1. A autoridade do Veda e da tradição, juntamente com a experiência de si e do mundo, fundamenta o reconhecimento de uma ordem moral cuja realização exige um Senhor onisciente responsável por supervisionar e governar a correspondência entre as ações dos seres e seus resultados. 2. A distribuição dos frutos das ações pressupõe uma direção divina consciente, contrariando a concepção de que os ritos possuem eficácia soberana e automática; a divergência com a tradição Purva Mimamsa envolve, assim, não apenas a existência de uma divindade, mas sua participação efetiva na ordem das consequências, cuja rejeição favoreceu o afastamento de Isvara em favor da autonomia do ritual. 3. O governante interior é o conhecedor desconhecido presente em todos os seres e, embora não possua corpo ou órgãos próprios, pode ser considerado detentor das capacidades do universo por constituir a causa material de suas forças; sua onisciência assegura a distribuição dos frutos das ações, enquanto sua atuação respeita os atos das criaturas e, por isso, não deve ser interpretada como crueldade. **5. O Absoluto como Senhor de Maya** 1. Maya possui usos comuns ligados ao engano e à desonestidade, mas seu significado mais relevante é o de magia, associado à crença de que certos ilusionistas poderiam produzir visões compartilhadas por numerosas pessoas; essa concepção de uma aparência coletiva induzida fornece uma imagem da possibilidade de muitos observadores perceberem como real uma mesma manifestação ilusória. 2. A magia adquire função filosófica quando permite compreender que a manifestação ilusória não altera a realidade de seu fundamento, assim como o mágico permanece distinto da imagem fictícia que parece executar seus prodígios; a analogia esclarece tanto a diferença entre o Senhor e a alma individual quanto a ausência de esforço e de transformação real no princípio que sustenta a aparência. 3. A compreensão de Maya como ilusão antecede Sankara e apresenta afinidades com formulações budistas que descrevem a experiência como fluxo momentâneo, embora o reconhecimento de um Absoluto eterno e imutável distinga radicalmente o Advaita do dinamismo universal do Mahayana; enquanto certas imagens budistas explicam a continuidade aparente como construção que preenche intervalos, a ignorância, no Advaita, produz divisões aparentes em uma realidade plena, ainda que o emprego de imagens de transitoriedade tenha favorecido interpretações fenomenistas posteriores. 4. Maya também designa um poder religioso de manifestação, desenvolvido a partir das antigas concepções védicas até representar a projeção do único Absoluto em formas finitas segundo as impressões deixadas pelas ações e pelos pensamentos dos seres; sua identificação com a Natureza (prakrti), composta pelos três constituintes (gunas), permite compreendê-la como poder de Visnu, também chamado Narayana ou Vasudeva e reconhecido como o Absoluto das Upanishads. 5. A preservação de uma diferença real entre Deus e alma permitiria conceber a libertação como transformação efetiva produzida pela compaixão e pela graça, mas nenhum estado originado por mudança pode ser permanente; a transcendência não dual confere à herança religiosa uma fundamentação na qual a submissão da alma a um poder superior constitui uma etapa espiritual necessária, embora insuficiente para a liberdade absoluta, pois a permanência da dualidade conserva a possibilidade do medo. 6. O poder de Maya permite conceber a manifestação da multiplicidade sem comprometer a unidade do Senhor, cuja natureza de Consciência infinita parece ocultar-se sob formas finitas sem sofrer atividade ou alteração; essas formas possuem a condição de aparências ilusórias e não subsistem como realidades independentes na perspectiva da verdade suprema. 7. Maya, identificada com nome e forma, não pode ser determinada como idêntica ao Absoluto nem como diferente dele, pois depende inteiramente de sua existência, mas aparece diante da Consciência como objeto; a Testemunha dessa aparência não se confunde com os organismos psicofísicos, já que acompanha imutavelmente suas modificações e, sem fundamento para qualquer diferenciação interna, deve ser reconhecida como a mesma Consciência em todos os corpos. 8. A aparência do mundo não possui existência independente da Consciência, assim como a serpente ilusória não existe separadamente da corda confundida com ela, mas a Consciência não é apenas seu suporte passivo, pois também a ilumina, reflete-se nela e testemunha esse reflexo; a diversidade das mentes faz a Consciência refletida parecer dividida em unidades distintas, enquanto a Consciência pura permanece una, inalterada e livre das diferenças pertencentes aos meios que a refletem. 9. As almas individuais são unidades de Consciência refletida cujos poderes de conhecimento e atividade variam desde os seres vegetais até os animais, os humanos, as divindades e a alma do mundo, designada como Prajapati, Hiranyagarbha ou Brahma; todas essas capacidades pertencem à manifestação fenomênica e dependem da luz da Testemunha, que não constitui propriamente um poder atuante, mas permanece eterna e real por não sofrer movimento ou mudança. 10. A Consciência refletida manifesta poderes de conhecimento e ação, e, na alma do mundo, esses poderes permitem projetar o universo a partir das sementes constituídas pelas impressões das ações e dos pensamentos de períodos cósmicos anteriores; como essa capacidade depende do Senhor enquanto Consciência pura, pode ser designada como seu poder cósmico de Maya, entendido como princípio da manifestação e repositório das impressões dos seres. 11. A atribuição de Maya ou Natureza ao Senhor emprega uma linguagem acessível à consciência ainda submetida à ignorância e explica o vínculo da alma com novas experiências e renascimentos pela atuação dos três constituintes; embora a dinâmica desses constituintes possa ser reconhecida, nenhum poder modificador pertence à natureza suprema do Si mesmo, e o ensinamento religioso admite formulações provisórias quando elas favorecem a compreensão da unidade subjacente à diversidade. 12. A concepção de um Senhor que manipula ativamente Maya favorece o desenvolvimento religioso, mas sua aceitação como verdade última o transformaria em agente sujeito à mudança e, portanto, em ser fenomênico; a distinção rigorosa reserva as funções cósmicas à alma do mundo e reconhece Isvara como Consciência pura e Testemunha imóvel, cuja presença ilumina e ordena a atividade dos seres sem exigir ação própria, à maneira de um ímã ou de um rei que suscitam movimentos dirigidos por sua simples presença. 13. As formas da manifestação podem conduzir tanto à sujeição quanto à libertação, pois a aparência, assim como a serpente ilusória que favorece a descoberta da corda, pode orientar ao reconhecimento de seu fundamento; a graça torna-se compreensível porque o Senhor permanece livre e transcendente, e sua luz imutável sustenta tanto a continuidade das experiências da alma ignorante quanto o conhecimento pelo qual ela supera a identificação com seus instrumentos de ação e percepção. 14. Toda aparência ilusória oculta a realidade e simultaneamente a revela em algum grau, permitindo que as práticas religiosas enfraqueçam o apego às formas mais grosseiras mediante a contemplação de manifestações mais profundas; embora essas manifestações continuem pertencendo ao domínio do que é percebido e permaneçam, por isso, provisórias, sua contemplação prepara a rejeição final de todas as formas como realidades independentes, consumada pela disciplina própria do Advaita. 15. As manifestações de glória e poder oferecem formas adequadas à contemplação do Senhor, incluindo divindades, elementos do ritual védico, a sílaba sagrada OM e as encarnações de Visnu como Rama e Krsna; em sentido amplo, qualquer expressão eminente da manifestação pode tornar-se um foco de meditação sobre o Absoluto e favorecer o aprofundamento da vida espiritual. 16. Maya pode ser compreendida como a Natureza constituída pelos três constituintes que formam os corpos e os órgãos dos seres, vinculando a alma a novas experiências quando ela se identifica com seus movimentos e age por motivações egoístas; pensamento e ação pertencem aos constituintes, enquanto a alma em sua natureza verdadeira permanece como Senhor e Testemunha imutável, devendo os termos associados a essa doutrina ser interpretados conforme seus contextos específicos. 17. A manifestação do Uno na multiplicidade não exige perda de unidade, transformação ou atividade real, podendo ser comparada à produção de visões ilusórias por um mágico; as explicações especulativas do universo conservam, assim, um caráter provisório, e a causalidade permanece restrita à esfera da aparência. 18. A benevolência do Senhor manifesta-se não apenas na distribuição dos resultados das ações, mas também na assunção de formas que preservam o caminho do bem-estar mundano e da libertação; essas manifestações atendem especialmente àqueles que necessitam de um objeto concreto de devoção e ainda não podem contemplá-lo em sua natureza abstrata e desprovida de qualidades. {{tag>Sankara Alston criação Absoluto governante criador}}