===== 3 A perspectiva acósmica ===== //ALSTON, Anthony John. **Śaṅkara on the Creation**. London: Shanti Sadan, 1980. (A Śaṅkara Source-Book, v. 2).// **1. Os textos sobre a criação como recurso para ensinar a não dualidade** 1. A defesa provisória da interpretação literal dos textos sobre a criação atende àqueles que se consideram seres corporificados e necessitam de uma concepção coerente do mundo para permanecer no caminho ritual e ético do Veda, mas não estabelece a realidade última do universo; se a criação e a sujeição fossem efetivamente reais, a libertação seria impossível, de modo que a investigação da aparência só se justifica pelo reconhecimento da realidade, comunicado mediante atribuições provisórias posteriormente negadas. 2. Todo ensinamento védico deve contribuir para o bem humano, mas o conhecimento dos processos remotos da criação não possui um resultado benéfico próprio expressamente declarado; sua utilidade deve, portanto, ser compreendida como indireta, na medida em que prepara a compreensão de ensinamentos capazes de produzir efetivamente um benefício espiritual. 3. O reconhecimento da identidade entre o indivíduo e o Absoluto possui primazia porque conduz à intuição imediata da verdade, à imortalidade e à liberdade definitiva do medo, constituindo um conhecimento que não admite acréscimo ou correção; as divergências entre os relatos da criação confirmam seu caráter subordinado, enquanto suas analogias causais visam mostrar a inseparabilidade dos efeitos em relação ao fundamento, permitindo integrar todos os ensinamentos como auxiliares da realização expressa em “Tu és Isso”. 4. As narrativas em que a fala deseja alimento ou o alimento foge não descrevem acontecimentos objetivos, mas empregam imagens que favorecem etapas da compreensão da identidade entre a alma individual e o Si mesmo supremo; embora possam ser justificadas pela onipotência divina, sua função é mais adequadamente compreendida como um recurso pedagógico que adapta o ensinamento último à capacidade de assimilação do discípulo. 5. A entrada do Absoluto no mundo por ele criado não constitui um acontecimento histórico, mas uma representação de sua presença como única realidade da manifestação; tanto a criação quanto essa entrada integram o procedimento de atribuição provisória e posterior negação pelo qual o discípulo é conduzido ao reconhecimento de sua própria natureza verdadeira. 6. A compreensão dos ensinamentos sobre a criação converge, assim, para sua função preparatória na realização da não dualidade, articulando a interpretação das narrativas cosmológicas ao reconhecimento do Si mesmo como realidade suprema. **2. Nada pode vir a existir** 1. A perspectiva acósmica compreende o mundo exterior como oscilação da mente e aproxima vigília e sonho ao reconhecer que ambos apresentam distinções entre sujeito e objeto, interior e exterior, realidade e irrealidade; a semelhança estrutural entre essas experiências permite questionar a realidade atribuída à vigília e recusar que o sonho seja simplesmente um efeito ilusório de uma causa desperta real, pois ambos pertencem ao jogo de representações decorrente da ignorância da natureza do Si mesmo. 2. A crítica radical da causalidade e o recurso ao sonho como demonstração da irrealidade da vigília aparecem sobretudo nos ensinamentos associados a Gaudapada, cuja influência reúne elementos do Advaita e do pensamento budista Mahayana; sua presença mais restrita em outras obras pode corresponder à adequação desse ensinamento a determinados discípulos, sem eliminar a reverência mantida por Sankara e Suresvara por essa linhagem espiritual. 3. A não dualidade não começa quando o mundo desaparece, pois o mundo jamais adquiriu existência real, assim como a serpente erroneamente percebida na corda não nasce nem deixa de existir como entidade efetiva; a ausência de partes no Absoluto impede qualquer transformação verdadeira, permitindo compreender suas aparentes modificações como Maya, entendida nesse contexto como ilusão e relacionada às cognições falsas pelas quais a alma individual percebe a multiplicidade. 4. A crítica dialética da causalidade e os argumentos que recusam o surgimento de algo novo sustentam a transcendência do Si mesmo, ao qual não se aplicam os estados de transformação próprios dos seres que parecem nascer e desaparecer; por ser puramente espiritual, ele não mantém relações constitutivas, não age e não sofre modificações, de modo que não nasce como mundo nem é destruído quando a manifestação se retrai. **3. O argumento a partir do sonho** 1. O sonho é reconhecido como irreal após o despertar, embora reproduza as características pelas quais a experiência desperta é considerada verdadeira, permitindo compreender que a vigília também pode ser superada por um reconhecimento mais profundo; a realização da natureza do Si mesmo revela a irrealidade do mundo desperto, assim como a passagem à vigília desfaz a realidade anteriormente atribuída ao universo onírico. 2. A divisão entre sujeito e objeto decorre do desconhecimento da natureza da mente como Consciência pura, e sua continuidade produz as experiências designadas como vigília e sonho; embora a perspectiva desperta considere o sonho subjetivo e ilusório, o próprio sonho comporta uma distinção interna entre subjetividade e objetividade, mostrando que ambos pertencem fundamentalmente ao mesmo domínio de aparência e que sua relação não pode ser reduzida sem dificuldades a uma dependência causal unilateral. 3. Os objetos do sonho pertencem ao sistema temporal de cada experiência onírica, enquanto os objetos da vigília se articulam a diferentes sistemas temporais individuais, mas essa coordenação não lhes confere realidade independente; a aparência de um mundo público pode ser compreendida como convergência das imaginações das almas, cuja unidade de organização decorre de serem elas próprias manifestações imaginadas pelo Senhor, o único Si mesmo. 4. A compreensão do mundo como pensamento do Senhor permite aproximar a interpretação que reduz os objetos a oscilações mentais daquela que os explica pela atuação de divindades e poderes cósmicos, admitindo provisoriamente que as impressões da vigília produzam os sonhos; todas as coisas são reais enquanto sua natureza é o Absoluto, mas suas formas conservam apenas a validade própria de seu domínio de experiência, de modo que o mundo desperto permanece aceito como real até a iluminação, assim como o sonho até o despertar. {{tag>Sankara Alston criação não-dualidade existência sonho}}