===== 1 A alma, seus órgãos e corpos ===== //ALSTON, Anthony John. **Śaṅkara on the Soul**. London: Shanti Sadan, 1981. (A Śaṅkara Source-Book, v. 3).// **1. A alma como o Si mesmo considerado sob seus condicionamentos sobrepostos** 1. A compreensão da alma humana exige distinguir seus corpos, órgãos e estados de consciência do princípio divino que permanece acima das experiências sucessivas de vigília, sonho e sono sem sonhos, sem sofrer suas alterações; essa distinção prolonga a investigação da irrealidade do mundo exterior ao revelar, na própria experiência individual, um fundamento que não se confunde com suas manifestações transitórias. 2. A alma é a Consciência imutável considerada em associação com condicionamentos limitadores sobrepostos (upadhi), cuja presença aparente explica sua diferença em relação ao Senhor, embora a luz que se manifesta em ambos seja a mesma; essa Consciência persiste inclusive no sono sem sonhos, e sua ligação com os condicionamentos, produzida pela ignorância, dissolve-se pelo despertar ao conhecimento intuitivo da natureza verdadeira do Si mesmo. 3. Os condicionamentos que fazem o Si mesmo parecer dividido em múltiplas almas individuais possuem nome e forma como causa material e pertencem ao domínio do surgimento e do desaparecimento; o nascimento e a morte atingem esses condicionamentos, como o corpo físico, mas não a natureza do Si mesmo, que permanece não nascida e imutável. 4. A reflexão da Consciência na mente explica a diversidade privada das experiências sem comprometer a unidade do Si mesmo, enquanto a analogia do espaço aparentemente dividido por recipientes esclarece que a libertação consiste na identidade com o Absoluto, e não em uma associação entre realidades distintas; a purificação da mente favorece uma percepção mais clara dessa luz na vida cotidiana, e as descrições da alma como diminuta referem-se aos limites dos condicionamentos sobrepostos, sem determinar sua natureza verdadeira. **2. Os órgãos e corpos da alma** 1. O corpo físico origina-se do elemento terra, assimilado pelos pais mediante a alimentação e transformado nas contribuições materna e paterna das quais se desenvolve a criança; por constituir o último e mais denso estágio da emanação dos elementos, a terra reúne de maneira manifesta as qualidades dos cinco elementos, que também se encontram no alimento e na corporeidade dele derivada. 2. O corpo físico é um receptáculo transitório, enquanto a alma permanece associada a um corpo mais duradouro composto por dezessete componentes: cinco sentidos, cinco poderes de ação, cinco funções vitais e dois aspectos da mente; esse conjunto atravessa diferentes existências corporais, sustentado pelas impressões das ações e dos pensamentos anteriores, até que a discriminação espiritual dissolva sua vinculação, conforme uma doutrina desenvolvida pelo Samkhya e incorporada à tradição anterior a Sankara. 3. A experiência posterior à morte pode envolver a constituição de um corpo apropriado à permanência na lua, formado a partir dos materiais oferecidos nos sacrifícios rituais, mas esse revestimento também se esgota; o corpo mais íntimo subsiste e retorna à existência terrestre para novas experiências condicionadas pelas ações e pelos desejos anteriores. 4. O Linga Sarira é o corpo cuja existência se reconhece por inferência, sendo denominado sutil porque sua separação do corpo físico na morte não pode ser percebida pelos observadores; ele, e não o corpo causal, constitui o repositório individual e cósmico das impressões de ações, desejos e experiências, enquanto a referência excepcional ao corpo causal se aproxima da ignorância e a designação Prajna pode indicar a Consciência universal associada à sua totalidade ainda não manifesta. 5. Cada sentido é constituído pelo elemento que apreende, mas sua coordenação exige um órgão interior que assume modalidades designadas como intelecto, mente, pensamento e sentido de eu, sem que essas funções recebam uma diferenciação sistemática constante; a investigação da cognição concentra-se sobretudo na luz que ilumina seus instrumentos, e o intelecto (buddhi) abrange tanto a capacidade de conhecer quanto a vontade. 6. As energias vitais que animam o corpo não são forças exclusivamente individuais, mas modificações de uma potência cósmica única, cujas diferentes funções se encontram sob a presidência de divindades subordinadas. 7. A investigação dos cinco envoltórios desfaz sucessivamente a identificação do Si mesmo com o corpo físico, a energia vital, a mente, o conhecimento e a bem-aventurança, reconhecendo cada um desses níveis como instrumento de uma realidade transcendente; essa doutrina não afirma que o Si mesmo esteja efetivamente encerrado em camadas, mas orienta a rejeição de todos os componentes empiricamente cognoscíveis da personalidade como impermanentes e irreais, impedindo inclusive que o envoltório de bem-aventurança seja identificado com o Absoluto. 8. A distinção entre o Linga Sarira e a referência excepcional ao corpo causal integra uma compreensão na qual todas as associações do Si mesmo com poderes e faculdades dependem da ignorância, sem constituir propriedades de sua natureza verdadeira. **3. A luz que ilumina a alma** 1. A experiência individual pressupõe um princípio imutável e autoluminoso que testemunha a passagem dos estados de consciência, mas sua presença também permite compreender a unidade e a organização das funções psíquicas e físicas; essa luz torna possíveis a percepção e os demais atos cognitivos sem se reduzir aos processos que ilumina. 2. A constituição material da mente e dos sentidos exige o reconhecimento de uma luz autoluminosa que os torne conhecidos, enquanto o intelecto funciona como seu principal instrumento na experiência desperta de quem ainda não realizou a verdade; o Si mesmo deve, portanto, ser distinguido da mente e do sentido de eu que acompanha suas operações. 3. A explicação da visão como movimento da mente através do órgão sensorial até envolver o objeto distante exige revisão quanto ao mecanismo perceptivo, mas não elimina a possibilidade de compreender a Consciência como princípio imóvel que ilumina a mente; refletida nesse instrumento, sua luz torna cognoscíveis os órgãos e os objetos, sem que a atividade destes implique movimento ou transformação da própria Consciência. 4. O sonho e a memória pressupõem que a mente assuma a forma dos objetos percebidos, cuja imagem mental constitui o conteúdo imediatamente conhecido, enquanto o intelecto recebe a luz do Si mesmo e a transmite aos demais instrumentos da experiência; a identificação com o corpo, os sentidos ou o intelecto depende do grau de discriminação alcançado, e a ausência dessa discriminação faz o Si mesmo parecer semelhante às aparências que ilumina, embora permaneça luz pura, sem ação ou movimento real. **4. A alma e o Senhor não são distintos** 1. Os ensinamentos que distinguem a alma individual do Senhor e recomendam a devoção, a graça e a aproximação de seu mundo possuem validade no domínio da ignorância, mas não constituem a verdade definitiva, pois esta afirma a transcendência do único Si mesmo livre de dualidade e de características empíricas; sua função é preparar o discípulo para etapas superiores da disciplina, sem tornar inútil a revelação que culmina no reconhecimento da identidade. 2. A alma individual é o Senhor em sua natureza verdadeira, mas o Senhor não possui as limitações da individualidade nem se torna realmente sujeito à transmigração, que decorre apenas dos condicionamentos externos; a alma depende dele para agir e, sob a ignorância, concebe a identidade como uma meta a alcançar, enquanto o conhecimento a reconhece como um fato sempre existente, fazendo a sujeição ou a libertação depender da manutenção ou superação da crença na diferença. {{tag>Sankara Alston alma si Senhor luz corpo órgão}}