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LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985

Yuan-men pergunta: “O homem ordinário possui um corpo; vê, ouve, sente e conhece. O Homem Santo possui um corpo; vê, ouve, sente e conhece. Em que diferem então?

— O homem ordinário vê com seus olhos, ouve com seus ouvidos, sente com seu corpo e conhece com sua consciência empírica. Não é assim para o Homem Santo, que não vê com seus olhos, não ouve com seus ouvidos, não sente com seu corpo, não conhece com sua consciência empírica. Por quê? Porque ele está além das avaliações sensoriais.

— Por que então se diz nos sutras que o Homem Santo não vê, não ouve, não sente, não conhece?

— O Homem Santo não vê, não ouve, não sente, não conhece da mesma maneira que o homem ordinário. Isso não significa que o Homem Santo não possua percepções, mas simplesmente que ele não se apega às noções de existência e inexistência, e que está liberado de toda diferenciação.

— As percepções do homem ordinário possuem existência real?

— Em realidade, não; no estado ilusório, sim. Tudo é desde sempre a grande extinção. É unicamente porque o homem ordinário se apega às ilusões que faz nascer uma visão invertida.

— Não compreendo como, no Homem Santo, a visão não é a do olho, nem o conhecimento o da consciência empírica.

— A natureza real é difícil de ver. Um exemplo ajudará a compreender. Quando a luz insondável e sutil reflete os objetos, existe aquilo que reflete e aquilo que é refletido, mas não existe olho para olhar. Do mesmo modo, quando o Yin e o Yang ritmam o aparecimento dos objetos, existe aquilo que conhece e aquilo que é conhecido, mas não existe consciência para conhecer.”


Yuan-men levantou-se e perguntou: “Como se pode caminhar, permanecer de pé, sentado ou deitado, sem conservar a noção de um corpo?

— Basta-vos caminhar, permanecer de pé, sentado ou deitado; por que estabelecer a noção de um corpo?

— Mas como se pode refletir sobre o justo princípio sem estabelecer essa noção?

— Enquanto se permanece apegado à existência de um espírito, este último existe mesmo na ausência de reflexões. Mas, se se compreende o que é o desprendimento do espírito, existe desprendimento do espírito mesmo quando as reflexões aparecem. Por quê? Porque ocorre o mesmo que com o mestre de dhyana sentado na quietude e deixando os pensamentos aparecerem, ou com o vento violento soprando de todas as direções sem um espírito.”