LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985
Amigos esclarecidos, minha doutrina tem por fundamento absorção e sapiência. Vós todos, não cometais o erro de dizer que dhyana e sapiência podem ser separados um do outro. Dhyana e sapiência formam um só; não são dois. O dhyana é o corpo da sapiência e a sapiência é a função do dhyana. Quando a sapiência está presente, naquele mesmo instante o dhyana encontra-se nela; quando o dhyana está presente, naquele mesmo instante a sapiência encontra-se nele. Se se compreende o sentido disso, aborda-se conjuntamente o dhyana e a sapiência. Vós que estudais essa doutrina não digais que existe primeiro a absorção desenvolvendo em seguida a sapiência, nem que existe primeiro a sapiência engendrando depois a absorção, sendo uma diferente da outra. Forjar tal opinião é atribuir uma dualidade ao Dharma; é possuir palavras corretas na boca sem pensamento correto no coração; então absorção e sapiência são vãs porque não são iguais. Se a boca e o coração estão em conformidade, interior e exterior não formarão senão um na Ainseidade, e absorção e sapiência serão iguais.
A prática visando ao Despertar não se encontra nas discussões. As discussões sobre aquilo que vem antes e aquilo que vem depois pertencem aos ignorantes. Não se pode aí decidir entre vitória e derrota; isso fortalece o ego e as coisas, e não afasta dos quatro sinais distintivos.
Amigos esclarecidos, a que comparar absorção e sapiência? A uma lâmpada e sua luz: onde existe uma lâmpada, existe luz; sem lâmpada, há escuridão. A lâmpada é o corpo da luz; a luz é a função da lâmpada. Embora existam duas palavras para designá-las, seu fundamento é único. Tal é esse Dharma de absorção e sapiência.
O Mestre dirigiu-se à assembleia nestes termos:
Amigos esclarecidos, o samadhi de um único ato consiste, exatamente onde se está, quer se esteja caminhando, de pé, sentado ou deitado, em conservar sempre o coração reto. O Sutra Vimalakirti-Nirdesha diz: “O coração reto é a área do Despertar; o coração reto é a Terra pura”. Que vosso coração evite a adulação e a falsidade quando vossa boca fala de retidão. Não faleis do samadhi de um único ato sem praticar a retidão do coração.
Praticai a retidão e não vos apegueis a nenhum dharma. Os ignorantes se apegam aos sinais do Dharma; apropriam-se do samadhi de um único ato. Pretendem que é necessário permanecer sentado sem mover-se, esquecendo tudo e sem que nenhum pensamento se eleve no coração. Interpretar isso dessa maneira é suprimir toda sensação; essa é uma das causas de obstáculo sobre a Via.
Amigos esclarecidos, o Tao deve fluir livremente. Como poderia estar obstruído? Se o coração não estagna nos dharma, o Tao flui livremente. Se o coração estagna nos dharma, isso se chama ligar-se a si mesmo. Pretender que é correto permanecer continuamente sentado sem mover-se é apenas imitar Shariputra, que permanecia tranquilamente sentado no meio da floresta e foi ridicularizado por Vimalakirti.
Amigos esclarecidos, outros ensinam a permanecer sentado olhando o espírito e contemplando a pureza sem mover-se e sem que nenhum pensamento se eleve. Segundo eles, esse é o verdadeiro cumprimento. Os ignorantes nada compreendem disso; agarram-se a isso e enlouquecem. Tais casos são numerosos. Um ensinamento desse tipo é errôneo.
O Mestre dirigiu-se à assembleia nestes termos:
Amigos esclarecidos, fundamentalmente o ensinamento correto não é nem súbito nem gradual, mas a natureza humana é aguda em alguns e embotada em outros. O ignorante está preso numa démarche gradual; para o homem que desperta, trata-se de um acordo súbito. Com o conhecimento espontâneo do coração fundamental e a visão espontânea da natureza fundamental, não existe diferença; consequentemente, súbito e gradual não passam de palavras vãs.
Amigos esclarecidos, essa Porta do Dharma que ensino vem do mais alto. Ela comporta primeiro o não-pensamento como doutrina, depois a ausência de sinais distintivos como corpo e a não-permanência como fundamento.
A ausência de sinais é estar longe dos sinais permanecendo, contudo, entre eles.
O não-pensamento é estar sem pensamento no próprio pensamento.
A não-permanência é a natureza fundamental do homem.
Encontrando-se no mundo entre o bom e o mau, o belo e o feio, o amor e o ódio, quando se ouvem palavras insultuosas, ofensivas, mentirosas ou agressivas, é necessário tomar tudo como vazio sem pensar em retribuir o mal com o mal. A cada instante, é necessário não pensar, pois, se os pensamentos do passado, do presente e do futuro formam laksanas encadeados sem interrupção, isso é o que se chama fabricação de entraves. Se os pensamentos sucessivos não permanecem em nenhum dharma, então realmente não existe mais nenhum vínculo. É por isso que a não-permanência constitui o fundamento de todo o meu ensinamento.”