LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985
Q. — O que se entende por percepção verdadeira?
R. — Perceber que não há nada a perceber, eis a percepção verdadeira.
Q. — Como se pode dizer que não há nada a perceber?
R. — Isso significa que, no momento em que se percebem formas [fenômenos], não se é manchado por elas e que nenhum pensamento de amor ou de aversão se eleva no espírito. Alcançar esse estado é obter a visão de Buda, que não pode ser outra senão ela mesma. Ao contrário, se o espetáculo das formas variadas [os fenômenos] produz amor ou aversão, isso significa que se as percebe como se possuíssem uma existência objetiva. É assim que elas aparecem à visão do comum dos homens. O mesmo se dá com os outros órgãos de percepção.
Q. — Como alcançar a iluminação súbita? Qual é seu fim, sua natureza e por quais meios pode ser obtida?
R. — Seu fim é deter o fluxo dos pensamentos e não se deixar perturbar por quaisquer ilusões. Sua natureza é pureza, e é a sabedoria (prajna) que permite sua realização.
Q. — No que diz respeito ao fim, isto é, deter o fluxo dos pensamentos, o que isso significa? e de que se deve abster?
R. — Deve-se abster do pensamento errôneo, mas não do pensamento justo.
Q. — O que é o pensamento errôneo e o pensamento justo?
R. — Pensar em termos de existência e de não-existência é chamado pensamento errôneo. Ao passo que abster-se de pensar dessa maneira é chamado pensamento justo. Apegar-se ao bem e ao mal é errôneo. Não se apegar a essas ideias é justo. Do mesmo modo, apegar-se à tristeza ou à alegria, ao nascimento ou à morte, à aceitação ou à rejeição, ao prazer e ao desprazer, à aversão e ao amor, tudo isso deve ser considerado pensamento errôneo. Não se apegar a essas ideias é justo.
Q. — Poder-se-ia definir mais claramente o pensamento justo?
R. — Pensar justamente é pensar apenas na iluminação (Bodhi).
Q. — A iluminação pode ser adquirida?
R. — Não.
Q. — Se não pode ser adquirida, como se pode dizer: pensar apenas na iluminação?
R. — A iluminação (Bodhi) possui apenas um valor relativo. Na verdade, nunca foi nem jamais será alcançada. Uma vez que não há nada a alcançar, não é matéria de pensamento. De modo que a Bodhi não é algo ao qual o pensamento possa aplicar-se, pois, em seu fundamento, o espírito não permanece em parte alguma. A expressão “não ser matéria de pensamento” corresponde a todas essas falsas noções já mencionadas, que não passam de nomes, úteis apenas em certas circunstâncias. Todas elas emanam da substância única na qual residem as diferenças e as diversidades. Tornar-se consciente do próprio espírito sem se apegar a nenhum pensamento: a libertação segue-se naturalmente!