NAGARJUNA
NHAT HANH, Thich. Cracking the walnut: understanding the dialectics of Nagarjuna. Tradução de Sister Annabel Laity. Palm Leaves Press, 2023.
Assim como o intelecto excepcional de Einstein se destacou na física, o coração de
Nagarjuna se destacou na compreensão dos ensinamentos do Buda, pois tanto o intelecto quanto o coração são capazes de ver e compreender, embora o coração possa ir mais longe que o intelecto em virtude de sua maior intuição.
Nagarjuna nasceu em um momento em que as portas do Mahayana — o Grande Veículo do Budismo — começavam a se abrir, e por essa fresta foi capaz de acessar as joias ocultas nos sutras budistas originais, compreendendo a essência dos ensinamentos budistas ao abandonar as visões dualistas e tocar a realidade.
A ciência luta atualmente para transcender o dualismo, que se manifesta em pares de noções como nascimento/morte, ser/não-ser, produção/destruição, vir/ir, dentro/fora, objeto/sujeito.
Shakyamuni Buda ensinou: “Existe um não-nascido, um não-tornado, um não-feito, um não-composto. Se não houvesse o não-nascido, o não-tornado, o não-feito, o não-composto, não poderia haver escapatória daquilo que é nascido, tornado, feito, composto.”
Somente é possível tocar o que não nasce e não morre — aquilo que não é nem sujeito nem objeto — ao transcender a armadilha das noções dualistas.
A dialética do Caminho do Meio, aplicada por
Nagarjuna, permite olhar com clareza e transcender a armadilha do dualismo — o que ele considerava a chave para o estudo budista.
O Mulamadhyamakakarika — Versos sobre o Caminho do Meio — é a obra exemplar do intelecto e do coração nos estudos budistas, e
Nagarjuna fundamentou sua dialética exclusivamente nos sutras budistas tradicionais originais, sem recorrer aos emergentes sutras Mahayana, citando o Kacchanagottasutta nos Versos sobre o Caminho do Meio.
Assim como Einstein descobriu a Teoria da Relatividade,
Nagarjuna empregou a teoria da reciprocidade — expressão que significa literalmente “esperar uns pelos outros” — segundo a qual isto está presente porque aquilo está presente, e isto está ausente porque aquilo está ausente.
Onde há sabedoria há potencial para a ignorância; onde há esquerda há direita; onde há lótus há lama — tudo se manifesta em conjunto pela reciprocidade.
Curto e longo surgem juntos; há ser porque há não-ser; há nascimento porque há morte; há impureza porque há pureza; há escuridão porque há luz.
O Sattadhatu Sutta — SN 14.11 e SA 456 — demonstra que há luz porque há escuridão, impureza porque há pureza, espaço porque há matéria, não-ser porque há ser, morte porque há nascimento, sendo esses sutras a fonte da percepção da reciprocidade.
Apesar de aparear conceitos aparentemente opostos, a reciprocidade na dialética de
Nagarjuna conduz a uma percepção não-dualista, pois segundo a sabedoria do Caminho do Meio o progresso científico é prejudicado pela dualidade — em particular pela ideia de que sujeito e objeto da consciência são separados.
No Kacchanagotta Sutta aprende-se que a maioria das pessoas está presa em ideias de ser e não-ser.
O Nirvana é a verdade do não-nascimento, da não-morte, do não-ser, do não-não-ser, do não-espaço e da não-matéria, e pode ser realizado quando há a percepção da não-dualidade.
As noções de surgimento condicionado interdependente, inter-surgimento, reciprocidade, interser e interpenetração apontam todas para a mesma coisa, assim como os conceitos de vacuidade, mera designação e Caminho do Meio possuem o mesmo significado.
Nagarjuna nasceu em família bramânica no final do século II d.C. e, já adulto, estudou e praticou o budismo, redigindo sua obra em sânscrito clássico — e não em páli ou em sânscrito híbrido budista.
Os Versos sobre o Caminho do Meio expõem e disseminam a verdade última do budismo, que caminha ao lado da verdade convencional ou relativa — a qual, embora não seja a verdade última, pode apontar o caminho da transformação e da cura sem contradizê-la, podendo inclusive ajudar a revelá-la.
Tudo o que se aprende nesses ensinamentos está conectado ao sofrimento, ao medo e às preocupações experimentados na vida cotidiana, pois não se trata de teorias sem propósito, mas de ensinamentos enraizados na própria experiência humana de felicidade e sofrimento.