REAL

Th. Stcherbatsky. BUDDHIST LOGIC. VOL. I

MUNDO EXTERNO

PARTE V. REALIDADE DO MUNDO EXTERNO.

§ 1. O QUE É REAL.

De acordo com os lógicos budistas, a realidade é dupla: direta e indireta, sendo a realidade direta a da sensação pura e a indireta a de um conceito referido a uma sensação.

§ 2. O QUE É EXTERNO.

Ser externo significa estar além da cognição, transcendê-la, e, se a realidade é externa, real e externo seriam termos conversíveis.

§ 3. OS TRÊS MUNDOS.

Há três mundos diferentes ou três planos de existência: o plano metafísico último (Unidade imóvel do Um-sem-segundo), o plano lógico (realidade pluralista da Matéria e das Ideias) e um plano intermediário (apenas Ideias, onde a própria Matéria é uma ideia).

§ 4. REALISMO CRÍTICO.

Para os lógicos budistas, o externo é real, e real e externo são termos conversíveis, sendo a idealidade uma imaginação, mas a realidade externa é cognoscível diretamente somente na sensação pura.

§ 5. MONISMO ÚLTIMO.

A análise lógica da cognição reduz seus elementos últimos a uma Coisa-em-si externa, uma sensação pura correspondente e uma imagem subsequente, mantendo a dualidade entre sujeito e objeto.

§ 6. IDEALISMO.

O idealista afirma que o não mental, a coisa material, é impossível por duas razões principais: está envolvida em contradição e a apreensão de uma coisa externa é incompreensível.

§ 7. TRATADO DE DIGNAGA SOBRE A IRREALIDADE DO MUNDO EXTERNO.

A obra “Exame do objeto da cognição” (Ālambana-parīkṣā) declara que o objeto externo deve ser um átomo ou um agregado de átomos, e, provando que não é nenhum dos dois, conclui-se que ele não passa de uma ideia sem realidade externa correspondente.

§ 8. TRATADO DE DHARMAKIRTI SOBRE A REPUDIAÇÃO DO SOLIPSISMO.

Dharmakirti, em “Estabelecimento da existência de outras Mentes”, argumenta que o idealista não está impedido de inferir a existência de outras mentes, assim como o realista, apenas alterando a formulação.

§ 9. HISTÓRIA DO PROBLEMA DA REALIDADE DO MUNDO EXTERNO.

No Budismo primitivo (Hinayana), a realidade do Ego é negada e substituída pelo Elemento da consciência pura; todos os outros elementos (sentimentos, ideias, volições, elementos táteis) são “objetos” (visaya) externos em relação a esse elemento de consciência.

§ 10. ALGUNS PARALELOS EUROPEUS.

O argumento da divisibilidade infinita, poderoso instrumento do Idealismo na Índia e na Europa, influenciou Kant e foi central para Vasubandhu, Dignāga, os Eleatas (Zeno), Locke e Hume.

§ 11. SIMPÓSIO INDO-EUROPEU SOBRE A REALIDADE DO MUNDO EXTERNO.

Primeira conversa (Monismo): Parmênides, o Vedanta, Nagarjuna, Spinoza e Dignaga são apresentados em suas posições sobre a Unidade imóvel e o Monismo, com Dignaga afirmando que o “Culminação da Sabedoria é o Monismo” e Dharmakirti que a “essência da Consciência é indivisa”.

Segunda conversa (Dualismo e Pluralismo): Sânkhya (Espírito e Matéria), Descartes, o Hinayana (Elementos), Heráclito, Demócrito, Herbart, Mach, J. S. Mill (possibilidade permanente de sensações) e Nagarjuna (Originação Dependente como Absoluto) são contrastados em suas visões dualistas e pluralistas.

Terceira conversa (Realismo ingênuo e Lógica crítica): Candrakirti defende que a realidade absoluta (Grande Vazio) pode ser estabelecida pela condenação da lógica, ao passo que Dignaga afirma que a lógica descreve o que acontece na vida comum, onde se pode admitir a realidade do mundo externo.

Quarta conversa (A Coisa-em-si): F. H. Jacobi e o Jaina argumentam que a Coisa-em-si, se absolutamente incomum, é uma não-entidade; Dharmottara responde que a sensação pura singular é a realidade direta, sendo Causa, Realidade e Coisidade categorias gerais do entendimento, mas a Coisa-em-si é a realidade cognoscível na sensação pura.

Quinta conversa (Dialética): Hegel defende que a relação sujeito-objeto, sendo orgânica, não é causal, e que o movimento é a realidade da contradição; Kamalaśila responde que é preciso distinguir entre Causalidade (real) e Contradição (lógica).