PARTE V. REALIDADE DO MUNDO EXTERNO.
§ 1. O QUE É REAL.
De acordo com os lógicos budistas, a realidade é dupla: direta e indireta, sendo a realidade direta a da sensação pura e a indireta a de um conceito referido a uma sensação.
O absolutamente real é a coisa como é “em si mesma”, uma afirmação pura, enquanto o não real é a coisa como é “no outro” ou diferenciada do outro, sendo, portanto, negação.
A definição de realidade é uma questão central entre o Hinayana e o Mahayana: as primeiras escolas sustentam que os Elementos (dharmas) existem, sendo todos igualmente reais, enquanto para os lógicos do Mahayana o real é apenas a coisa em seu sentido mais estrito, o mundo sensível (mundus sensibilis).
No Hinayana, o Nirvana é considerado um Elemento, uma coisa; no Mahayana, ele não é um Elemento separado nem uma coisa separada.
A lógica é dupla para corresponder a esse duplo caráter de seu objeto: há uma lógica de consistência (interdependência entre conceitos) e uma lógica da realidade (referência dos conceitos à realidade).
§ 2. O QUE É EXTERNO.
Ser externo significa estar além da cognição, transcendê-la, e, se a realidade é externa, real e externo seriam termos conversíveis.
As relações relativas de sujeito-objeto e interno-externo dão origem a mal-entendidos: ideias, sentimentos e volições são objetos de introspecção, mas não são externos; já a relação entre o mundo material externo (real e eficiente) e o domínio mental interno (ideal e imaginado) é diferente.
A necessidade de assumir um objeto externo correspondente à sensação é psicológica, não lógica nem absoluta.
§ 3. OS TRÊS MUNDOS.
Há três mundos diferentes ou três planos de existência: o plano metafísico último (Unidade imóvel do Um-sem-segundo), o plano lógico (realidade pluralista da Matéria e das Ideias) e um plano intermediário (apenas Ideias, onde a própria Matéria é uma ideia).
§ 4. REALISMO CRÍTICO.
Para os lógicos budistas, o externo é real, e real e externo são termos conversíveis, sendo a idealidade uma imaginação, mas a realidade externa é cognoscível diretamente somente na sensação pura.
A realidade externa, além disso, é eficiente (é uma causa), ao passo que a idealidade é uma imagem sem eficácia causal, exceto metaforicamente.
A realidade é dinâmica, consistindo em pontos-instantes (Kraftpuncte) que são centros de energia; o objeto externo não é Matéria, mas Energia.
A relação entre essa realidade pluralista e a idealidade é causal e indireta: a realidade é “telescopada” à mente por uma superestrutura de conceitos dialéticos.
O problema ontológico da relação entre o particular e o universal, ou o problema epistemológico da relação entre os sentidos e o entendimento, é resolvido por meio da “conformidade”: uma similaridade negativa, pois o particular absoluto e o universal puro, não tendo similaridade positiva, tornam-se similares ao repelir o mesmo contrário.
§ 5. MONISMO ÚLTIMO.
A análise lógica da cognição reduz seus elementos últimos a uma Coisa-em-si externa, uma sensação pura correspondente e uma imagem subsequente, mantendo a dualidade entre sujeito e objeto.
O passo em direção a uma síntese monista é trans-lógico, envolvendo a negação do princípio da contradição; para Dignaga e Dharmakirti, a verdade existe em dois planos: o lógico e o trans-lógico.
Dignaga afirma que o “Clímax da Sabedoria” é o Monismo, onde sujeito e objeto se coalescem; Jinendrabuddhi explica que, do ponto de vista da Realidade Absoluta (Thisness), não há diferença alguma, sendo toda diferenciação fruto da Ilusão Transcendental.
A fórmula popular de que o mundo externo é como um sonho (svapnavat) tem significados diferentes nas escolas; para Dharmakīrti, ela significa apenas que as imagens são essencialmente as mesmas na vigília e no sono.
§ 6. IDEALISMO.
O idealista afirma que o não mental, a coisa material, é impossível por duas razões principais: está envolvida em contradição e a apreensão de uma coisa externa é incompreensível.
A antinomia do átomo (que deve ser simples e composto ao mesmo tempo) demonstra que a hipótese de uma coisa material externa é contraditória, como a de uma “flor que cresce no céu”.
O segundo argumento principal do idealista enfatiza que a dicotomia sujeito-objeto é uma construção do entendimento, sendo dialética; a realidade única e indubitável é a sensação pura, que o entendimento substitui por uma construção tripla (tríplice envoltório) do ego, do objeto e do processo de união.
O realista pergunta sobre a eficácia do conhecimento como teste de verdade, mas o idealista responde que a ação bem-sucedida é uma mera ideia, sendo a hipótese de uma causa externa supérflua, pois o momento precedente da consciência já exerce essa função.
§ 7. TRATADO DE DIGNAGA SOBRE A IRREALIDADE DO MUNDO EXTERNO.
A obra “Exame do objeto da cognição” (Ālambana-parīkṣā) declara que o objeto externo deve ser um átomo ou um agregado de átomos, e, provando que não é nenhum dos dois, conclui-se que ele não passa de uma ideia sem realidade externa correspondente.
O argumento principal é a antinomia da divisibilidade infinita: o átomo é uma “flor no céu” (pois coisas indivisíveis não existem) e o agregado é um segundo “Ens”, uma segunda lua.
Dignaga conclui que “o objeto percebido pelos órgãos dos sentidos não é externo”, sendo o objeto da cognição algo internamente cognoscível por introspecção e que aparece como se fosse externo.
Para explicar o curso regular dos eventos percebidos, o Idealismo assume um Armazém Subconsciente de Consciência (alaya-vijnana) que substitui o universo material e uma Força Biótica (vasana) que substitui o Karma realista.
§ 8. TRATADO DE DHARMAKIRTI SOBRE A REPUDIAÇÃO DO SOLIPSISMO.
Dharmakirti, em “Estabelecimento da existência de outras Mentes”, argumenta que o idealista não está impedido de inferir a existência de outras mentes, assim como o realista, apenas alterando a formulação.
O idealista afirma que as representações de ações e fala alheias, que aparecem na forma “ele vai” ou “ele fala”, têm uma causa diferente da vontade própria, e essa causa são outras mentes (vontades estrangeiras).
A inferência é a única fonte de conhecimento para a existência de outras mentes, tanto para o realista quanto para o idealista, sendo capaz de guiar a ação propositada e, portanto, uma fonte correta de cognição; logo, o solipsismo não é um perigo real no plano lógico.
§ 9. HISTÓRIA DO PROBLEMA DA REALIDADE DO MUNDO EXTERNO.
No Budismo primitivo (Hinayana), a realidade do Ego é negada e substituída pelo Elemento da consciência pura; todos os outros elementos (sentimentos, ideias, volições, elementos táteis) são “objetos” (visaya) externos em relação a esse elemento de consciência.
Vasubandhu explica que, embora o Self não exista, a consciência é metaforicamente chamada de Self, e os órgãos dos sentidos são considerados elementos internos por analogia com a consciência.
O Hinayana é completamente realista, enquanto o Mahayana nega o mundo externo, mas a escola fundada por Maitreya-Asanga (Yogacara) assume uma Ideia Pura (citta-matram) não diferenciada em sujeito e objeto como Absoluto final, reduzindo todas as outras ideias a ilusões.
A teoria do Armazém de Germes de todas as ideias (alaya-vijnana) é um substituto para o mundo externo; os dez Elementos da Matéria são convertidos em ideias correspondentes, e o momento que precede o aparecimento de cada ideia está contido no Armazém.
Os lógicos budistas chegaram a um impasse sobre a realidade do mundo externo, considerado sem importância; o importante é a lógica, que permanece a mesma com ou sem a realidade externa, resultando no compromisso da escola híbrida Sautrantika-Yogacara.
§ 10. ALGUNS PARALELOS EUROPEUS.
O argumento da divisibilidade infinita, poderoso instrumento do Idealismo na Índia e na Europa, influenciou Kant e foi central para Vasubandhu, Dignāga, os Eleatas (Zeno), Locke e Hume.
Hegel impugnou a solução kantiana para essa antinomia, propondo que a unidade de continuidade e discrição é a “verdade”, mas o método dialético budista afirma que, se a coisa externa não pode ser nem simples nem composta, ela é uma “flor no céu”, e não a unidade desses opostos.
A posição de Kant sobre a Coisa-em-si é considerada flutuante; Dignaga e Dharmakirti distinguiriam entre a lógica de consistência (categorias como Causalidade) e a lógica da realidade (juízo perceptual), onde a Coisa-em-si é o sujeito de todo juízo perceptual, não sendo uma relação nem uma categoria.
Dignaga provavelmente acusaria Kant de não ter percebido a dupla possibilidade do idealismo e do realismo; ambos os planos (com ou sem a Coisa-em-si externa) são logicamente possíveis e não contraditórios, havendo apenas uma necessidade psicológica, não lógica, de inferir uma causa externa para a sensação.
§ 11. SIMPÓSIO INDO-EUROPEU SOBRE A REALIDADE DO MUNDO EXTERNO.
Primeira conversa (Monismo): Parmênides, o Vedanta, Nagarjuna, Spinoza e Dignaga são apresentados em suas posições sobre a Unidade imóvel e o Monismo, com Dignaga afirmando que o “Culminação da Sabedoria é o Monismo” e Dharmakirti que a “essência da Consciência é indivisa”.
Segunda conversa (Dualismo e Pluralismo): Sânkhya (Espírito e Matéria), Descartes, o Hinayana (Elementos), Heráclito, Demócrito, Herbart, Mach, J. S. Mill (possibilidade permanente de sensações) e Nagarjuna (Originação Dependente como Absoluto) são contrastados em suas visões dualistas e pluralistas.
Terceira conversa (Realismo ingênuo e Lógica crítica): Candrakirti defende que a realidade absoluta (Grande Vazio) pode ser estabelecida pela condenação da lógica, ao passo que Dignaga afirma que a lógica descreve o que acontece na vida comum, onde se pode admitir a realidade do mundo externo.
O realista argumenta que o mundo externo é cognoscido diretamente, como objetos iluminados por uma lâmpada, sem necessidade de imagens ou introspecção.
Kant postula uma “terceira coisa” homogênea com a categoria e com o objeto, enquanto Dharmakirti propõe uma espécie de sensação inteligível (momento de sensação pelo sentido interno) e uma “Conformidade” como intermediários.
Berkeley afirma que “ser é ser percebido” (esse est percipi), ao passo que Dignaga contra-argumenta que “existir significa ser eficiente” (artha-kriya-kari).
Quarta conversa (A Coisa-em-si): F. H. Jacobi e o Jaina argumentam que a Coisa-em-si, se absolutamente incomum, é uma não-entidade; Dharmottara responde que a sensação pura singular é a realidade direta, sendo Causa, Realidade e Coisidade categorias gerais do entendimento, mas a Coisa-em-si é a realidade cognoscível na sensação pura.
Hegel afirma que a Coisa-em-si é um fantasma e um “além absoluto” incognoscível, enquanto Dharmakirti rebate que ela não é incognoscível, pois é cognoscível pelos sentidos em uma sensação pura, imediata e brilhante, sendo a relação entre cognição e objeto causal, não de identidade.
Quinta conversa (Dialética): Hegel defende que a relação sujeito-objeto, sendo orgânica, não é causal, e que o movimento é a realidade da contradição; Kamalaśila responde que é preciso distinguir entre Causalidade (real) e Contradição (lógica).
Eduard von Hartmann chama o método dialético de Hegel de “simples loucura”, enquanto Dharmakīrti replica que o método dialético é correto apenas no domínio do Entendimento (conceitos construídos), mas não na realidade, que é inter-relacionada pelas leis causais da Originação Dependente.