O princípio budista de que há duas fontes de conhecimento, os sentidos e o entendimento, que são completamente heterogêneas, leva à existência de um mundo duplo, o sensível e o inteligível.
Dignaga estabelece que, em estrita conformidade com essa dupla fonte de conhecimento, o mundo externo também é duplo, sendo composto por particulares (objeto da cognição sensível) e gerais ou universais (objeto do entendimento ou razão).
O mundo sensível consiste em sensibilia que são meros lampejos momentâneos de energia, sendo a matéria perene e eterna imaginada como seu suporte ou substrato uma ficção das escolas Sankhya e outras.
A REALIDADE É CINÉTICA
ARGUMENTO DA IDEALIDADE DO TEMPO E DO ESPAÇO
ARGUMENTO DA PERCEPÇÃO DIRETA
ARGUMENTOS A PARTIR DA ANÁLISE DA NOÇÃO DE EXISTÊNCIA
A dedução da momentaneidade a partir da existência é analítica, pois os termos existência, eficiência e mudança estão conectados por identidade existencial e podem ser aplicados ao mesmo ponto da realidade sem contradição.
Julgamentos como tudo que tem uma origem está sempre mudando, tudo que é produzido por causas é impermanente, e tudo que é variável na dependência de uma variação de suas causas está sujeito a mudança momentânea, são todos considerados existencialmente idênticos.
Um jarro produzido pelo esforço do oleiro pode ser caracterizado como variável, como produto, como tendo uma origem, como mudando, eficiente e existente, e nesse sentido a dedução da momentaneidade é analítica.
ARGUMENTO A PARTIR DA ANÁLISE DA NOÇÃO DE NÃO-EXISTÊNCIA
A FÓRMULA DE SANTIRAKSITA
ANIQUILAÇÃO CERTA A PRIORI
O argumento da análise das noções de não-existência e aniquilação leva ao estabelecimento da teoria da momentaneidade, assim como o argumento da análise da noção de existência como eficiência causal, ambos sendo analíticos e, portanto, de conclusão logicamente necessária.
Tudo necessariamente deve ter um fim, e essa verdade trivial, quando examinada minuciosamente, não pode significar outra coisa senão que o desaparecimento é o próprio cerne da existência.
Se tudo é evanescente, é sempre evanescente, pois uma coisa não pode ser separada de sua própria essência, portanto não há duração alguma, e o desaparecimento de tudo é certo a priori.
Os primeiros budistas deduziram a momentaneidade por indução a partir da observação, mas os budistas posteriores descobriram que a aniquilação é necessária, inevitável e certa a priori, não havendo necessidade de prová-la por observação.
A MOMENTANEIDADE DEDUZIDA DA LEI DE CONTRADIÇÃO
O que existe, existe separadamente de outras coisas existentes, e a noção de separação pertence às características essenciais da noção de existência, sendo a realidade última o ponto-instante matemático, cuja única relação com outros existentes é a alteridade.
Se algo não está separado de outras coisas existentes, se não tem existência própria e sua existência se coalesce com a existência de outras coisas, é um mero nome para essas outras coisas ou uma construção da imaginação.
O todo não existe separadamente de suas partes constituintes, o tempo e o espaço não existem separadamente dos pontos-instantes, e a alma não existe separadamente dos fenômenos mentais.
Uma coisa é outra se unida a propriedades incompatíveis, e a diferença de qualidade envolve uma diferença da coisa, se as qualidades são mutuamente exclusivas.
O ponto-instante é uma realidade para o budista e uma ficção para o realista, sendo a única coisa no universo que é uma não-construção, uma não-ficção, a base real de todas as construções.
Uddyotakara objeta que o próprio ponto-instante não é exceção à regra geral, sendo também uma construção do pensamento, um mero nome sem qualquer realidade correspondente.
O budista retruca que o ponto-instante matemático é algo real, pois está estabelecido na ciência, sendo uma partícula de tempo indivisível que não contém partes em relação de antecedência e sequência.
A realidade absolutamente única do ponto-instante, como não pode ser representada, também não pode ser nomeada de outra forma senão por um pronome como isto, agora etc., portanto não é um mero nome, não tem nome algum, a realidade última é inexprimível.
HISTÓRIA DA DOUTRINA DA MOMENTANEIDADE
A origem da teoria do Ser Instantâneo é provavelmente pré-budista, e suas vicissitudes no budismo se entrelaçam com a história de diferentes seitas, podendo-se distinguir cinco fases principais em seu desenvolvimento.
Na forma inicial, a doutrina já afirmava a realidade exclusiva dos minúsculos elementos da existência, que eram dados dos sentidos e do pensamento momentâneos, ligados apenas pelas leis da interdependência causal.
No meio desse processo histórico, a escola dos Madhyamikas negou bruscamente a realidade dos supostos pontos-instantes de existência, apelando ao senso comum e declarando todo objeto e noção separados como dialéticos, relativos e ilusórios.
A escola dos Vatsiputriyas admitiu uma certa unidade entre os elementos de uma personalidade viva, declarando a personalidade como algo dialético, nem idêntico aos seus elementos nem diferente deles, negligenciando a lei da contradição.
Na escola Yogacara do Idealismo Budista, a teoria do Ser Instantâneo foi reafirmada, com os elementos do pensamento sendo assumidos como instantâneos e divididos em três classes: existência pura ou absoluta, imaginação pura e uma realidade contingente entre elas.
Embora a teoria tenha sido reintroduzida pelo Idealismo Budista, a noção de uma Alma continuou a assombrar o domínio da filosofia budista, aparecendo disfarçada como um depósito de consciência para substituir a realidade externa cancelada.
Na escola Sautrantika-Yogacara de Dignaga e Dharmakirti, a teoria do Ser Instantâneo foi finalmente estabelecida na forma e com os argumentos examinados, sem excluir a unidade dos elementos em outro plano, do ponto de vista do Absoluto supremo.
ALGUNS PARALELOS EUROPEUS