Crazy Wisdom. Chögyam Trungpa. Shambhala, 2010
Para leitores com formação ocidental ou cristã, Padmasambhava pode ser caracterizado como um santo, e sua sabedoria, seu estilo de vida e seu modo habilidoso de se relacionar com os discípulos são o que merece exame.
Os discípulos tibetanos com quem trabalhou eram descritos como extraordinariamente selvagens e incultos
Os tibetanos mostraram pouca compreensão de como receber e acolher um grande guru vindo de outra parte do mundo — eram teimosos, pragmáticos e muito apegados à terra
Além dos obstáculos humanos, havia diferenças de clima, paisagem e situação social
Traça-se uma analogia entre a situação de Padmasambhava no Tibete e a de quem traz ensinamentos espirituais à cultura americana — hospitaleira, mas também selvagem e agreste em seu lado espiritual
Na analogia proposta, os tibetanos correspondem aos americanos, e Padmasambhava permanece ele mesmo
Essa postura é chamada, na tradição budista, de materialismo espiritual — não ser realista, ou, em gíria hippie, estar no espaço sideral.
O materialismo espiritual engloba qualquer abordagem — budista, hindu, judaica ou cristã — que ofereça técnicas para se associar ao bom, ao melhor, ao supremamente bom
Ao se associar com o bem, surge uma sensação de felicidade e deleite, e a impressão de que finalmente se encontrou uma resposta
A resposta encontrada é considerar-se livre desde já e deixar tudo fluir
O materialismo espiritual leva a todo tipo de suposições — domésticas e pessoais, motivadas pelo desejo de felicidade, e espirituais, em torno do transcendental misterioso.
As suposições espirituais crescem porque a grande descoberta transcendental é mantida no mistério
Não se sabe o que se vai alcançar ao alcançar essa coisa desconhecida, mas se lhe dá uma descrição vaga, como “ser absorvido pelo cosmos”
Se alguém questiona essa descoberta da “absorção no cosmos”, produz-se mais lógica ou buscam-se reforços nas escrituras ou em outras autoridades
O resultado final é a confirmação de si mesmo e da experiência proclamada como verdadeira, sem nenhum espaço restante para o questionamento — o que equivale a atingir o estado de egoidade, em oposição ao iluminamento.
Nesse ponto, se alguém não aceita a agressão e a paixão que se exerce sobre ele, a culpa é declarada dele — por não compreender a espiritualidade inefável
A única saída que resta para “ajudar” o outro é reduzi-lo a um títere sob o próprio comando
Nesse processo, a confusão, o caos e a neurose tornam-se base para investigação contínua, sem fixar nenhuma descoberta como a resposta definitiva.
Ao descobrir algo de errado consigo mesmo, não se conclui que isso é o problema e a resposta — vai-se mais fundo: “Por que isso é assim?”
As perguntas se aprofundam: “Por que existe espiritualidade? Por que existe despertar? Por que existe este momento de alívio?”
Chega-se ao ponto em que não há resposta — nem sequer uma pergunta: pergunta e resposta morrem simultaneamente, curto-circuitando uma à outra
Nesse ponto, abandona-se toda esperança de uma resposta ou de qualquer coisa — um estado de pura desesperança, que pode ser chamado, em termos mais delicados, de transcender a esperança