CANSELIET, Eugène. L’Alchimie expliquée sur ses textes classiques. Paris: Pauvert, 1972.
* Explicar a alquimia é, antes de tudo, propor ao neófito elementos de apreciação encorajadora e segura, tarefa dificultada pela multiplicação de comentadores modernos que não manipulam utensílios nem materiais e por isso se mostram incapazes de elucidar os textos que utilizam sem convencer.
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Nenhum autor é mais prejudicial em alquimia do que aquele que disserta sobre operações que nunca realizou.
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Para esses autores, os textos são frequentemente simbólicos e de alcance unicamente intelectual, mesmo os mais expressivos quanto à terminologia inequívoca da prática ao forno.
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O pinto holandês Jacques Appel, tão versado em humor e latim quanto talentoso em paisagens, recorreu a Plínio o Antigo para enunciar o apotegma Ne sutor ultra crepidam, sapateiro não além do calçado.
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O valor de uma obra nova sobre alquimia da Tradição pode ser avaliado pela simples constatação de que os dois livros de Fulcanelli, assim como os do autor, não sejam citados nela de nenhuma maneira.
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A televisão e o rádio produzem a saciedade vozes pálidas, frenesia e fraseologia atordoante, sob pretexto de cultura e sob direção autoritária de especialistas vaidosos e farsantes.
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Escritores que encontram editores para divulgar novidades inconcebíveis sobre a alquimia secular e seus representantes mais dignos podem ser manobreiros de uma verdadeira empresa de demolição.
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Um autor recente intitulou um de seus capítulos Uma história de louco, atribuindo ao bobo do rei Filipe uma resposta extravagante e sacrílega ao jovem Flamel, além de inventar o prenome Thomas para o pai de Nicolas Flamel e afirmar que ele possuiu a primeira loja na rua dos Escritores.
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É impossível estabelecer o horóscopo de um homem do qual não se conhece sequer o ano de nascimento.
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O editor apresentou o livro como o estudo mais completo e sério já inspirado por Nicolas Flamel, qualificação que se contradiz com o próprio conteúdo da obra.
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O autor promete retornar ao alquimista popular de Paris ao longo da obra, tanto quanto a sua pessoa quanto às suas obras.
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Cinquenta anos de estudo e experiência baseados exclusivamente nos clássicos da Ciência autorizam o autor a falar em nome de todos esses filósofos, e ele escreve movido pela dupla necessidade do temporal e do apostolado, sendo a prática no laboratório a única coisa que verdadeiramente importa.
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A interrogação incessante da matéria pelo forno facilita a interpretação dos livros e, entre eles, dos clássicos em particular.
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O dever do autor é transmitir ao estudante o essencial do que aprendeu nos autores e verificou em contato estreito com a entidade filosófica.
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O estudo não sofre nenhum limite nem sanção quanto ao seu resultado, senão a de Deus pelo Dom inestimável.
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O latim das citações é dado na língua savante, porque essa língua, em seu período ulterior injustamente chamado de baixo pelos puristas, é de leitura agradável e compreensão mais fácil, e o autor nunca perde ocasião de incitar o interesse pelo latim que não quer morrer.
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O jovem neófito não deve desesperar, pois o alquimista está destinado a permanecer por muito tempo estudante paciente e obstinado.
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O autor completou cinquenta anos de trabalho no laboratório em agosto, podendo afirmar com humildade e orgulho ser o mais velho estudante da França.
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Michel-Eugène Chevreul, grande químico que atingiu cento e três anos de idade, sempre beneficiado pela harmonia fisiológica que o estudo transmite ao experimentador, e de quem provém o precioso fundo alquímico da biblioteca do Museu de História Natural de Paris.
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O movimento crescente de interesse pela alquimia leva o autor a ensinar com mais clareza, seguindo o exemplo de Philaleta, que formulou audaciosamente a mesma tendência há mais de trezentos anos, no início da infeliz idade do ferro, declarando que o Todo-Poderoso parece disposto a revelar esses tesouros no período último do mundo.
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Philaleta declarou não agir como todos os seus predecessores, resignando sua vontade ao divino bom prazer.
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Um pequeno laboratório de Sarcelles, desenhado em aquarela em agosto de 1921 pelo autor aos vinte e dois anos, é apresentado como lição viva aos amadores de toda idade, mostrando a mais modesta reunião de utensílios inspirada pela leitura de Philaleta e de Cyliani.
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Le Mystère des Cathédrales e Les Demeures philosophales de Fulcanelli respondem de maneira admirável à necessidade de explicar a alquimia sobre seus textos clássicos, e ao Mestre se dirigiriam mais do que a qualquer outro autor as palavras de reconhecimento do discípulo Pyrófilo a seu bom mestre Eudoxo.
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O número de autores clássicos da ciência da alquimia é muito importante, com proporção notável ainda longe de ser ordinariamente conhecida.
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Os tratados em latim não traduzidos formam um fundo inestimável acessível apenas aos familiarizados com Horácio e Virgílio, cuja phalange heroica reduz cada vez mais o modo de instrução do tempo presente.
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A partir de 1604, Alexandre Sethon, também chamado Cosmopolita, inaugurou uma rica florescência de filósofos que modernizaram o ensinamento recebido dos volumes latinos circulando manuscritos durante a Idade Média, biblioteca antiga transmitida dos tempos mais remotos pelos árabes e traduzida para o latim pelos Cruzados e pelos Milicianos do Templo.
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A alquimia foi terreno sólido em que Cavaleiros e Sarracenos encontraram razões para se aproximar e se entender.
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O famoso bafometo, em seu enigma insaisissável e irritante, figurou no dossiê das peças de acusação no processo dos Templários.
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A representação mais segura do bafometo como entidade filosófica ilustra a página de título das Opera omnia do filósofo anônimo Philaleta, onde o mercúrio do mercúrio está de pé sobre a esfera, coroado com o signo metalico-astrológico do vivo-argento, com asas abertas e braços horizontalmente estendidos.
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O autor não elucidará o modo de operar da obra física em seus mínimos detalhes, por ser falta grave à Tradição e aos irmãos estudantes em Hermes, mas, contrariamente à maioria dos autores, respeitará a sucessão linear do processo operatório em vez de perturbá-la.
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Um filósofo anônimo explicou ao discípulo que os autores antigos deliberadamente começaram seus tratados pelo fim, pelo meio ou pela projeção, omitindo o começo.
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Denys Zachaire transmitiu a observação de Geber de que, se a arte fosse exposta em ordem e seguida, seria conhecida por todos em um dia, ou mesmo em uma hora, tão nobre e admirável ela é.
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Ioannis Aurelius Augurellus cantou em três livros versificados da Chrysopoeia a porta estreita do caminho alquímico, afirmando que aqueles a quem coube contemplar a mais elevada das coisas nunca se afastaram da reta rota e, após longo tempo, atingiram o fim desejado.
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O neologismo chrysopoeia deriva do grego chrysos, ouro, e poieo, fabricar, e as edições francesas do tratado trazem o título A Chrysopeia, ou seja, a arte de fazer ouro.
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O papa Leão X, destinatário de epístola em versos latinos de Augurello, teria respondido com a frase Si scit aurum ipsemet conficere, non indiget nisi receptaculo, se ele mesmo sabe fabricar ouro, falta-lhe apenas um armazém, acompanhada de um grande saco.
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Michael Maier ilustrou de maneira sugestiva a recomendação unânime de seguir a Natureza com o quadragésimo segundo emblema do Atalanta fugiens, prescrevendo que, para quem se aplica às coisas químicas, a Natureza, o Raciocínio, a Experiência e a Leitura sejam respectivamente a Guia, o Bastão, os Óculos e a Lâmpada.
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A dificuldade cresce à proporção que o astro noturno se encontra em decréscimo, como mostra a composição de Jean-Théodore de Bry com a lua em menisco.
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No Musæum hermeticum, dois alquimistas seguem Dame Nature, o segundo sem óculos, figurando o estudante que se fia apenas nos outros e nos discursos.
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O duque Christian de Saxe-Gotha conservou apenas a jovem mulher da alegoria no reverso de uma medalha cunhada em sete exemplares para perpetuar a memória da transmutação que realizou com as próprias mãos no verão de 1693, com a inscrição DEO ET ME DVCE, por Deus e por mim Duque-Condutor.
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A Verdade é simples e em alquimia é lugar-comum declarar que ela só é encontrada na Natureza, sendo impossível acessá-la pela só especulação, como Cosmopolita concluiu após afirmar ter tratado sinceramente da primeira e da segunda matéria a partir do trabalho das próprias mãos e da experiência própria.
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O processo operatório da Obra é natural, e a imensa dificuldade de realização está em estabelecer contato e colaboração permanentes com o sol, a lua, os planetas e as estrelas.
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Os astros continuam a dispensar generosamente à terra toda a ação fluídica necessária à sua existência, não sendo eles os responsáveis pela dificuldade.
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As consequências sociais e geológicas, tanto mais rudes e dolorosas quanto menos previstas, poderão um dia extinguir o gozo universal hoje reinante, pois, suprimida a causa, desaparece o efeito.