FULCANELLI. LE MYSTÈRE DES CATHÉDRALES.
* Quando Le Mystère des Cathédrales foi redigido, em 1922, Fulcanelli ainda não havia recebido o Dom de Deus, mas estava tão próximo da Iluminação suprema que julgou necessário esperar e guardar o anonimato, tanto por inclinação de caráter quanto por obediência à regra do segredo.
Fulcanelli atraía atenção involuntária por seu porte estranho, maneiras antiquadas e ocupações insólitas.
Seu desaparecimento posterior da vida pública suscitou ainda mais curiosidade do que sua presença.
O Mestre manifestou vontade absoluta de que sua identidade real permanecesse na sombra, substituída definitivamente pelo pseudônimo exigido pela Tradição, tão solidamente implantado nas memórias que nenhum patronímico jamais poderá substituí-lo.
O renúncio à autoria de obra de tão alta qualidade supõe razões pertinentes e profundamente amadurecidas.
O caso de Fulcanelli não tem semelhante no reino das Letras, pois releva de disciplina ética infinitamente superior à da vaidade literária comum.
Como a maioria dos Adeptos antigos, Fulcanelli deixou no caminho apenas o rastro onomástico de seu fantasma, cuja identidade proclama a aristocracia suprema.
O ensino oral de mestre a discípulo prevalece sobre qualquer outro, e Fulcanelli recebeu a iniciação dessa maneira, assim como o autor recebeu a dele junto ao Mestre, tendo Cyliani já lhe aberto a porta do labirinto por ocasião da reimpressão de seu opúsculo em 1915.
Na Introdução às Douze Clefs de la Philosophie, o autor corrigiu a denominação do iniciador de Fulcanelli, substituindo o qualificativo verdadeiro pelo numeral primeiro, por exatidão.
A correção foi motivada pelo descobrimento de uma carta emocionante que o verdadeiro iniciador de Fulcanelli escreveu ao Mestre, conservada entre seus papéis com as dobras marcadas pelo uso longo.
A carta do iniciador de Fulcanelli celebra o recebimento do Dom de Deus pelo destinatário, declarando que o arcano é inalcançável pela sola força da razão, e que o Tesouro dos Tesouros foi obtido por fé inabalável na Verdade, constância no esforço, perseverança no sacrifício e boas obras.
A esposa do remetente havia sonhado com um homem envolto em todas as cores do prisma e elevado até o sol, sonho cuja explicação não tardou.
O remetente adverte que quem saúda a estrela da manhã perde para sempre o uso da vista e da razão, fascinado pela falsa luz e precipitado no abismo, salvo que um grande golpe do destino o arranque bruscamente das bordas do precipício.
O fogo só se apaga quando a Obra está cumprida e toda a massa tintorial impregna o vidro que, de decantação em decantação, permanece absolutamente saturado e torna-se luminoso como o sol.
A frase sobre quem saúda a estrela da manhã parece contradizer afirmações anteriores do autor sobre a estrela como grande sinal da Obra, mas a contradição se resolve pela distinção entre a estrela vista no espelho da arte ou mercúrio e a estrela descoberta no céu químico, onde brilha de modo infinitamente mais discreto.
Fulcanelli ensinava que a estrela é ao mesmo tempo una e dupla, e que sua impressão real brilha com mais intensidade na luz do dia do que nas trevas da noite.
Basile Valentin nas Douze Clefs declara que duas estrelas foram concedidas ao homem pelos Deuses para conduzi-lo à grande Sabedoria.
Pinturas alquímicas do convento franciscano de Cimier trazem a legenda latina Cum luce salutem, com a luz, a salvação.
Cyliani abre a fechadura do templo com essa chave, e quem não compreende deve reler os textos de Fulcanelli, pois nenhum outro livro dá ensinamento com tanta precisão.
Jean-Frédéric Helvétius relata no Vitulus Aureus que um ourives de Haia chamado
Gril verteu espírito de sal sobre chumbo em recipiente de vidro, e após duas semanas surgiu flutuando uma estrela prateada resplandecente, da qual se obteve, por copelação, doze onças de prata e duas onças de ouro excelente por libra de chumbo.
O relato é dado apenas para ilustrar a presença do signo estrela em todas as modificações internas de corpos tratados filosoficamente.
Faltam na narração de Helvétius duas dados essenciais: a composição química exata do ácido clorídrico utilizado e as operações previamente efetuadas sobre o metal.
O chumbo comum submetido a frio à ação do ácido muriático nunca tomará o aspecto de pedra-pomes sem preparações prévias de fermentação e dilatação.
Blaise de Vigenère e Naxagoras insistem na oportunidade de uma longa cozedura prévia para reanimar o chumbo morto pela redução e torná-lo corpo filosófico vivo.
O desenvolvimento tão extenso do tema da estrela nesse prefácio é justificado porque Fulcanelli, logo no limiar de Le Mystère des Cathédrales, deteve-se longamente sobre o papel capital da Estrela e sobre a Teofania mineral que anuncia com certeza a elucidação tangível do grande segredo sepultado nos edifícios religiosos.
A segunda edição de Le Mystère des Cathédrales, após a tiragem de apenas trezentos exemplares em 1926, é acrescida de três desenhos de Julien Champagne e de notas originais de Fulcanelli reunidas sem adição nem mudança.
O mérito do livro poderia ser justificado só pelo fato de ter colocado em plena luz a cabala fonética, cujos princípios e aplicações tinham caído no mais total esquecimento.
É necessário diferenciar os dois vocábulos cabale e kabbale: o primeiro deriva do grego kaballês ou do latim caballus, cavalo; o segundo, do hebraico kabbalah, que significa tradição.
Jonathan Swift, o singular Deão de Saint-Patrick, conhecia a fundo e praticava à sua maneira a Língua dos Deuses ou dos Pássaros, com ciência e virtuosidade.