Da multiplicidade de usos do termo teosophia no Ocidente moderno e contemporâneo emergem dois grandes conjuntos distintos: uma corrente esotérica informal de matriz germânica constituída desde o final do século XV, e a Sociedade Teosófica fundada oficialmente em 1875 por Helena Petrovna Blavatsky, as quais, apesar de ressemblâncias evidentes, se distinguem pelo corpus referencial, pelo estilo e pela origem de seus textos fundadores.
O primeiro conjunto é uma galáxia informal que começou a se constituir no clima espiritual germânico do final do século XV, floresceu no século XVI e penetrou, com fases de crescimento e declínio, uma parte da cultura ocidental até hoje
O segundo conjunto é a Sociedade Teosófica, criada oficialmente em 1875 por Helena Petrovna Blavatsky (1831–1891), dotada desde seu nascimento de direções e objetivos relativamente precisos, a ponto de ser considerada por alguns um novo movimento religioso ou mesmo uma nova religião
Ambos ocupam lugar importante no esoterismo ocidental e pretendem se ocupar de sabedoria ou conhecimento das coisas divinas numa perspectiva gnóstica — a gnose, notadamente a dos laços e mediações que unem o homem ao mundo divino, sendo considerada uma via privilegiada de transformação e salvação
A distinção entre os dois se justifica porque não dispõem do mesmo corpus referencial e seu estilo é diferente
O corpus referencial da primeira corrente é de tipo essencialmente judeu-cristão, com textos fundadores datados do final do século XV e do início do século XVII
O corpus da Sociedade Teosófica reveste um aspecto mais universalista, impregnado de elementos orientais, particularmente hindus e budistas
Os dois corpus não são estanques — Blavatsky faz cerca de vinte referências a Boehme, conforme recorda Jean-Louis Siémons
Siémons reconhece que as ressemblâncias entre os dois correntes não bastam para criar entre eles um fosso intransponível
Se a casa esotérica é feita de várias moradias, cada uma deve possuir estilo próprio — e cada uma das duas famílias teosóficas é bastante grande e rica para ocupar uma dessas moradias integralmente, sem que isso a impeça de partilhar com a outra as partes comuns
Assim como existe um romantismo europeu sem que seja frutífero colocar sob o mesmo chapéu Novalis e Alfred de Musset, a distinção entre os dois conjuntos teosóficos pertence ao discurso do historiador — não ao do romantismo eterno ou da Tradição primordial, que são objetos de discurso essencialmente subjetivos e doutrinários