A “embriaguez da sensualidade” obscurece a compreensão do engendramento celeste, e o instinto sexual, muitas vezes acompanhado de ódio, difere do amor verdadeiro, que é religare e conciliação (Ausgleichung), sendo o abraço um gesto que prefigura o retorno à androginia ao tentar reincorporar a mulher ao thorax de onde veio, ao passo que o ato carnal é marcado pelo egoísmo e pelo esgotamento.
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O desejo e a satisfação alternam-se numa nostalgia amarga que dificulta a imagem do estado angélico.
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O instinto sexual diminui ou se extingue com o surgimento do amor verdadeiro.
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O amor verdadeiro liberta e une positivamente os homens, sendo de natureza religiosa.
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O abraço, ao contrário do coito, é um gesto de conciliação que visa reincorporar a mulher ao seu local de origem, o coração.
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O ato carnal termina num “esvanecimento recíproco”, análogo ao sono, irmão da morte.
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A relação entre voluptuosidade e crueldade é apontada como um exemplo do contato dos extremos na vida temporal.
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A definição kantiana do amor como inclinação ao que é vantajoso é refutada, defendendo-se que o verdadeiro amor é livre de necessidade e desejo (naturfrei), devendo o desejo sexual ser “consagrado” para se transformar em amor conjugal, e o amor a si mesmo só é legítimo quando exercido em Deus, não num “eu” inautêntico.
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O amor só é amor quando é sem necessidade, sem desejo e livre em relação à natureza (naturfrei), mas não privado dela (naturlos).
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O desejo sexual, como expressão máxima do egoísmo, tende idealmente à dissolução do indivíduo, enquanto o amor ideal assume o “sexo eterno” na unicidade eterna da pessoa.
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Na pessoa amada e transfigurada, Deus ou o Todo se faz entrever através de sua unicidade.
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O amor a si mesmo é legítimo e obrigatório apenas quando exercido em Deus.
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O “exorcismo” religioso do amor é o princípio de toda associação livre, elevando a paixão a um vínculo de liberdade, ao passo que a sexualidade limitada a si mesma atualiza um “duplo braseiro hermafrodita” marcado pelo egoísmo e pela ilusão, que frequentemente desemboca em ódio e confunde a verdadeira androginia com o hermafroditismo.
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O amor religioso eleva a paixão (assujeitamento) à categoria de aliança (vínculo) de liberdade.
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A sexualidade limitada a si mesma é um esforço orgástico que se consome num “duplo braseiro hermafrodita”.
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A frequente aparição do ódio entre os parceiros demonstra a ilusão hermafrodita.
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A androginia é a união dos princípios ativo e passivo numa única natureza; o hermafroditismo é a não-unidade dos atributos sexuais em sua inflamação extrema e deformidade.
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A neutralização positiva dos sexos em sua diferença (sich auflieben) é distinta da confusão dos sexos.
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O hermafrodita da arte pagã excita sexualmente, diferindo radicalmente da Madona da arte cristã.
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Na arte cristã, a Madona, como figura central, expressa a natureza virginal e angélico-andrógina, cuja pureza e unidade produtora devem também transparecer nas representações de Cristo e dos anjos, convidando à contemplação que aquieta e extingue o desejo sexual.
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A Madona é o foco (Focus) de todas as formas religiosas na arte, ideia à qual a teologia se mostrou infiel.
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A pureza da Madona é unidade, e somente a unidade é produtora.
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A natureza angélico-andrógina deve expressar-se em Cristo e nos anjos para que a contemplação eleve momentaneamente à natureza angélica.
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A arte pagã, ao contrário, tem no hermafrodita o seu foco, reunindo as potências sexuais em sua inflamação polar, o que leva à confusão entre androginia (união num corpo), assexualidade (impotência) e hermafroditismo (coexistência num corpo), sendo este último exemplificado pela Vênus barbada e pelo Lingam indiano.
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O hermafrodita é o foco das formas pagãs, reunindo as potências sexuais em sua “inflamação polar”.
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A Vênus barbata e o Lingam indiano são exemplos dessa confusão e da representação do hermafroditismo.
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A noção de androginia é propriamente cristã, enquanto as doutrinas materialistas do corpo primitivo negam a doutrina cristã do corpo da ressurreição.
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O amor sexual na poesia, quando tratado de modo frívolo, sentimental, racional ou diabólico, perde de vista sua função de aliança (Bund) em que os amantes se apresentam a Deus para restaurar a imagem virginal perdida, tarefa que um drama poético superior deveria representar ao mostrar a queda do andrógino original e a contínua ação da Sophia como guia e instinto de formação.
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O amor é a aliança (Bund) solidária em que os amantes, diante de Deus, buscam restaurar a imagem virginal divina.
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Um drama poético superior deveria mostrar o andrógino original que, seduzido pelo desejo do terrestre, se perde e se torna homem e mulher.
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A Sophia, a Sabedoria, é a imagem fugidia que, desde a queda, continua a brilhar como guia (weisen) através das trevas, indicando o caminho de volta.
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A androginia não é apenas um estado primordial, pois a Sophia ainda atua na alma de cada homem e mulher como supremo “instinto de formação” (Bildungstrieb).