Prefácio de Antoine Faivre e Frédérick Tristan, ao Cahiers de l'Hermétisme – Faust
Se a função dos grandes mitos é revelar a origem, a natureza e os fins últimos do nosso universo e da nossa história, a dos chamados “mitos literários”, menos abrangente no plano metafísico, revela-se, no entanto, igualmente reveladora das nossas culturas e civilizações.
Um mito literário nasce, atinge seu apogeu, transforma-se e depois desaparece. Ele corresponde a algumas questões fundamentais cuja natureza nos permite compreender as aspirações de uma época e de uma sociedade. O mito de Fausto, assim como os de Tristão e Isolda ou de Don Juan, traz a marca de alguns dos grandes arquétipos dos quais se alimenta o inconsciente coletivo. Fausto, homem do Renascimento, cristaliza assim certas aspirações do homem ocidental no alvorecer dos tempos modernos; mas a transformação desse mito, até Oswald Spengler e Thomas Mann, culmina na representação do “homem faustiano”, no qual se quer frequentemente ver, hoje, o símbolo do homem do século XX.
O Caderno abre-se, portanto, com um artigo de Hans Henning, de Weimar, dedicado ao Fausto histórico que serviu de pretexto para vários livros populares e que deu nome ao mito; essa investigação vai além do século XVI, uma vez que H. Henning a complementa com um estudo sobre o tema de Fausto nos séculos XVII e XVIII. Pareceu-nos útil apresentar, em seguida, o ponto de vista um pouco diferente de André Dabezies (Universidade de Aix-Marseille), autor do excelente *Mythe de Faust* (Paris, Armand Colin, 1972) e que aqui estuda o Fausto original e suas obras de magia, sua história e sua lenda. Pierre Spriet (Universidade de Bordeaux III), especialista no Renascimento inglês, aceitou apresentar a peça de Christopher Marlowe.
As abordagens de Karl Theens e Günther Mahal são mais filosóficas. K. Theens, presidente da Sociedade Fausto (Faust-Gesellschaft) em Stuttgart, nos fala das metamorfoses do tema na história de nossa cultura moderna, desde o Fausto histórico até Oswald Spengler e a época contemporânea. Günther Mahal, de Tübingen, também conhecido por sua competência nessa área, expõe um ponto de vista metafísico e religioso centrado em uma das questões da problemática faustiana: a alternativa, pelo menos aparente, entre o céu e o inferno, tal como surge no Renascimento, passando pela obra de Paul Valéry, e através da de Lessing e de Goethe.
O trabalho de Yvette K. Centeno (Universidade de Lisboa), dedicado exclusivamente ao Fausto de Goethe, é um estudo original, apesar do grande número de livros dedicados a essa obra. Yvette K. Centeno propõe um nível de interpretação baseado nas categorias da alquimia tradicional. Pierre Deghaye (Universidade de Rouen) apresenta também uma interpretação muito nova de um romance famoso, o Doktor Faustus de Thomas Mann. A maneira como Pierre Deghaye aborda o “satanismo” desse músico necromante nos parece capaz de renovar um aspecto da crítica sobre Thomas Mann. As páginas que Charles Dédéyan (Universidade de Paris IV) nos confiou retomam a conclusão de seu notável trabalho, O Tema de Fausto na Literatura Europeia, do Romantismo aos Nossos Dias (Paris, Lettres modernes, 1967); ele nos propôs, no entanto, uma versão “revisada e corrigida” dessas páginas. Da mesma forma, André Dabezies teve a gentileza de atualizar e completar a importante bibliografia faustiana publicada em seu Mythe de Faust, em 1972. O Caderno encerra-se com este indispensável instrumento de trabalho.
Todos os artigos (exceto o de Charles Dédéyan e, se excluirmos também, a bibliografia final de André Dabezies) foram escritos especialmente para este “Cahier Faust”. O Sr. Paul Kessler traduziu o artigo de Hans Henning, e Arnold Waldstein traduziu os de Karl Theens e Günther Mahal.