DOUTRINA DE SALVAÇÃO

FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967

Uma doutrina de salvação implica que se precisa ser salvo. De onde as três questões:

De que se precisa ser salvo?

Por que se precisa ser salvo?

Como se pode ser salvo?

Diga-se logo que, segundo o hermetismo, se precisa ser salvo da matéria; que esta necessidade da salvação tem por causa a queda original na matéria de um primeiro Homem (não terrestre, mas celeste); que se é salvo se afastando, durante esta vida, da matéria, de sorte que a alma, depois da morte, possa remontar sem obstáculo até o Deus Primeiro.

Vê-se logo, a doutrina da salvação implica portanto uma antropogonia, uma doutrina da gênese da humanidade; esta antropogonia supõe por sua vez uma cosmogonia, uma doutrina da gênese do mundo que coloque em relevo o divórcio entre o mundo celeste, luminoso, e o mundo da matéria, tenebroso; enfim esta cosmogonia exige por seu lado uma teologia, uma doutrina de Deus e de suas relações com o mundo da matéria. Eis para os pressupostos da doutrina da salvação, se se olha por assim dizer para trás desta doutrina. Se se olha para frente, vê-se que a soteriologia conduz a uma teoria do comportamento humano aqui embaixo e a uma escatologia, ou seja a uma doutrina da sorte da alma depois da morte. Teologia, cosmogonia, antropogonia, soteriologia (doutrina da vida moral e espiritual), escatologia, tais são portanto os diferentes títulos de capítulo da nossa conferência de hoje. Além disso eu só terei que seguir a própria ordem que a exposição do 1° tratado do Corpus Hermeticum oferece, pois é nesta ordem genética que são descritos, no decorrer de uma visão, os diferentes momentos do drama soteriológico. No que diz respeito à pregação da salvação e da conversão, eu me servirei além disso dos tratados IV e VII; para a doutrina da regeneração espiritual, ou seja do nascimento em Deus, da divinização, eu recorrerei ao tratado XIII. Estes quatro tratados: I, IV, VII e XIII são, nós o marcamos, as únicas obras do Corpus que comportam uma doutrina coerente da gnose hermética. Pode-se acrescentar-lhes enfim a primeira parte, gnóstica, do tratado XII.