HERMES

FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967

Vê-se no piso da catedral de Siena (1488), no meio do piso, na entrada da nave, uma representação de Hermes. É um grande ancião barbudo vestido com uma longa túnica e um manto, com uma alta mitra com rolete. Ele está de pé, no centro da composição e, sob seus pés, lê-se esta inscrição Hermes Mercurius Trimegistus Contemporaneus Moysi. Com a mão direita ele estende a um Oriental igualmente barbudo, reconhecível por seu turbante, um livro aberto sobre o qual estão gravadas estas palavras: Suscipite, o, litteras et leges, Aegyptii. O Egípcio que recebe este livro dá um passo à frente e se inclina em um gesto de deferência. Atrás dele, encontra-se um homem de pé, barbeado, no traje dos humanistas da Renascença, a cabeça encapuzada. Ele desempenha o papel de um espectador e de uma testemunha. Com a mão esquerda enfim, Hermes segura um quadro apoiado sobre duas esfinges aladas, que traz a seguinte inscrição: Deus omnium creator secundum deum jecit visibilem et hunc fecit primum et solum, quo oblectatus est et valde amavit proprium filium qui appellatur sanctum verbum. Estas palavras são emprestadas, com algumas mudanças que acentuam seu caráter cristão, do escrito hermético intitulado Asclepius. No original, o secundus deus é o mundo: aqui, é evidentemente o Verbo encarnado. Percebe-se assim o sentido de toda a composição. Na entrada da igreja, o Trismegisto, contemporâneo de Moisés, faz figura de profeta pagão da revelação cristã. E este sentido geral da composição é confirmado pelo fato de que à direita e à esquerda da imagem, que uma fina faixa de mármore branco emoldura, o artista agrupou dez Sibilas, cinco de cada lado.

Hermes Trismegisto, contemporâneo de Moisés, profeta pagão da revelação cristã: tal ele apareceu desde Tertuliano e Lactâncio, durante toda a Idade Média e a Renascença, até o início do século XVII. Casaubon, em 1614, é o primeiro a reconhecer que os Hermetica são pseudoepígrafes. O interesse por esta literatura diminui ao mesmo tempo, para se reavivar no início do nosso século por uma importante obra de Reitzenstein (Poimandres, 1904). Desde então, uma quantidade de livros e de estudos retomaram, sob todas as suas faces, o problema do hermetismo. Os últimos destas obras são a monumental edição de Scott, com tradução e comentário (Oxford, 1924-1936), trabalho infelizmente falho desde o princípio pois ele se baseia em um mau texto, e a edição da Coleção Budé, preparada em parte por um scholar inglês, professor em Harvard, A. D. Nock, e por eu mesmo no todo; dois volumes dela saíram (Corpus Hermeticum e Asclepius) em 1945, os dois outros (fragmentos de Stobée e de Cyrille de Alexandria) em 1954.

Ninguém crê mais agora, salvo talvez em alguns grupos de iluminados, que os escritos do Trismegisto representem uma antiga sabedoria egípcia. Em contrapartida, os trabalhos destes quarenta últimos anos mostraram todo o interesse que estes escritos apresentam para a história do pensamento e do sentimento religioso nos primeiros séculos da nossa era. Pesquisou-se quais podem ser as origens desta gnose pagã, e, alternadamente, olhou-se para o lado do Egito, do Irã, da Palestina e da Grécia. Comparou-se a mística hermética com a mística cristã e quis-se fazer depender esta daquela e reciprocamente. Comparou-se ainda a gnose de Hermes com outras formas de gnose pagã ou cristã. Certos pensaram que o hermetismo comportava uma Igreja, ritos, uma religião no sentido próprio, enquanto que outros não quiseram atribuir ao movimento hermético senão uma influência puramente literária. Como acontece sempre, este entrecruzamento de opiniões deixa hoje uma impressão bastante turva. Não podendo entrar aqui em todas estas discussões, me limitarei a enunciar alguns pontos essenciais, tais como eles me aparecem ao termo de longas pesquisas. Nesta primeira conferência, examinarei alternadamente: (1) a literatura hermética; (2) o sentido que se deve atribuir a esta literatura enquanto ela se dá por uma literatura revelada pelo deus egípcio Thoth assimilado ao deus grego Hermes.