ANTROPOGONIA (POIMANDRES I 12—19)

FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967

O caráter essencial desta cosmogonia é que os diversos momentos que a constituem são comandados pela doutrina à qual tudo deve conduzir, isto é, pela soteriologia. É a soteriologia que explica esta cosmogonia. A soteriologia supõe um divórcio entre dois mundos, um de luz, o outro de matéria tenebrosa. A alma humana oriunda da luz caiu na matéria: a salvação consiste para ela em ser libertada da matéria. Era, portanto, necessário manifestar desde a origem a oposição matéria ~ mundo ideal. Esta mesma doutrina de salvação explica a antropogonia, à qual se passa agora na visão do tratado I.

As duas personagens divinas que já haviam saído do Primeiro Nous, o Logos e o Nous demiurgo, tiveram por função ordenar o mundo. Uma terceira personagem divina surge agora, gerada, como a segunda, pelo Pai que é macho-e-fêmea, é o Homem celeste: o ofício deste terceiro filho de Deus não tem mais relação com a cosmogonia, seu papel é explicar a origem dos primeiros homens. Assiste-se aqui a um mito da queda originária.

O Homem celeste, o Anthropos, nasce, pois, todo semelhante ao Pai, e como ele reproduz a imagem de seu Pai, Deus o ama e lhe entrega a sua criação. Ora, o Anthropos, vendo a obra do Nous demiurgo, quer ele também produzir uma obra, e o Pai lho permite. Ele entra então na esfera do fogo; os sete Governadores, isto é, os Gênios dos sete planetas, o veem, o admiram, e cada um lhe dá parte de seu próprio governo.

As esferas planetárias são concebidas como círculos sólidos. O Homem as rompe, chega até a última esfera, a da Lua, e, por esta abertura, percebe o mundo de baixo, a Natureza, agora formada. A Natureza, por sua vez, vê o Homem, belo da beleza de Deus e dotado da potência dos sete Governadores. Ela se apaixona por ele. De seu lado, o Homem celeste vê sua forma refletida na água, e projetar uma sombra sobre a terra. Ele se enamora desse reflexo de si mesmo e deseja unir-se a ele. A união se consuma, o Homem celeste deixa-se cativar pela Natureza, eles se entrelaçam e cometem juntos o ato carnal (I 12—14).

Segue-se a explicação (I 15). Aqui traduz-se o próprio texto: «E eis por que, só de todos os seres que vivem sobre a terra, o homem (isto é, o homem atual, o homem terrestre) é duplo: mortal pelo corpo, imortal pelo Homem essencial. Embora seja imortal, com efeito, e tenha poder sobre todas as coisas, ele sofre a condição dos mortais, submetido, como está, à Fatalidade: por isso, embora esteja acima da armadura das esferas (armonia), tornou-se novamente escravo nesta armadura (enarmonios gegone doulos); macho-e-fêmea, pois procede de um pai macho-e-fêmea; isento de sono, pois vem de um ser isento de sono; não obstante, é vencido (pelo amor e pelo sono)».

Em seguida, a narrativa retoma. A Natureza, fecundada pelo Anthropos, dá à luz sete primeiros homens (sete em razão dos sete planetas, dos quais cada um havia dado algo de sua natureza ao Homem celeste). Estes sete primeiros homens são macho-e-fêmea como seu pai: recebem seu corpo da Natureza, cada elemento contribuindo para formá-los, e recebem sua alma e seu intelecto do Anthropos. Este era vida e luz como seu pai, o Primeiro Nous: a vida transforma-se, pois, em alma, a luz em intelecto. «E tudo permanece assim por um período indefinido até o começo das espécies» (I 17).

Ao fim deste período, pela vontade de Deus (I 18), os animais e os sete primeiros homens, até então bissexuados, dividem-se, como no mito do plato-cat:Banquete (o empréstimo parece evidente), e Deus ordena aos seres que cresçam e se multipliquem. Pelo movimento das esferas, a Providência provê à união dos casais e às gerações, «e todos os seres se multiplicaram cada um segundo a sua espécie». A história do mundo está concluída.

O sentido deste último mito é demasiado claro para que haja necessidade de insistir. Resume-se apenas a ideia geral. Esta ideia geral comanda as duas gêneses, a do mundo e a do homem.

Oposição Luz ~ Trevas. Das trevas surge pouco a pouco o mundo atual, que é, portanto, inteiramente mau.

Oposição Homem celeste, oriundo da luz, filho de Deus ~ Natureza material, oriunda das Trevas. Em consequência de um pecado, que aqui é um pecado de narcisismo, o Homem celeste cai na matéria. De sua união sai progressivamente o homem atual, que é, portanto, duplo, imortal pela alma e pelo intelecto, mortal pelo corpo.

Adivinha-se logo em que sentido deverá orientar-se a doutrina da salvação: ser salvo, para o homem atual, é essencialmente libertar em si mesmo o elemento espiritual do elemento material.