FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967
O narrador do tratado I — é o próprio Hermes (cf. XIII 15) — reporta que um dia, durante um êxtase, vê lhe aparecer um ser de um tamanho imenso que lhe diz: “Que queres conhecer?” Responde perguntando o nome desse desconhecido: este se nomeia, é Poimandres, o intelecto da Soberania Absoluta (o Primeiro Deus). Hermes então exclama: “Quero compreender os seres e suas naturezas, e conhecer Deus”. Em resposta, Poimandres promete instruí-lo.
Dito isto, o desconhecido muda de forma, torna-se uma entidade luminosa, “serena e jovial”. Logo, nessa Luz, se faz uma diferenciação. O alto fica a Luz, o baixo torna-se uma obscuridade assustadora, agitada, de movimentos caóticos. Depois, esta obscuridade muda-se em uma espécie de natureza úmida, “sacudida por uma maneira indizível”, a exalar um vapor como desenrascado do fogo, a produzir uma indescritível lamúria.
De repente, esta natureza úmida lança um grito de apelo. A esse grito, brota da Luz, logo, do mundo celeste, um Verbo Santo que vem cobrir a natureza úmida. Sob esta ação, aparentemente, sai lá de baixo da natureza úmida, de início um fogo puro que se eleva; depois o ar que se dirige ao alto até a região atingida pelo fogo, enquanto que a terra e a água, sempre agitadas, por movimentos sob a ação do sopro do Verbo, permanecem em baixo confundidas.
Resumamos esta primeira fase (I, 4-5).
Poimandres explica em seguida esta primeira visão (I, 6): a Luz, é o próprio deus “Noûs”, “aquele que existe antes da natureza úmida saída da obscuridade”. O Verbo procedente da Luz, ou seja, do “Noûs”, é o filho de Deus. #### SEGUNDA FASE (I 7-8) Esta segunda fase concerne o mundo luminoso que, permanecendo todo luminoso, e sem mudar ele-mesmo de forma, se fixa aos olhos do profeta nesse sentido que se distribui em um número incalculável de Poderes. Por outro lado, o fogo, o qual se havia dito somente que estava enlaçado da natureza úmida em direção ao alto, é agora claramente distintivo do mundo lá do alto: envolvido e contido por uma força toda poderosa, toma sua posição definitiva, sob a região da luz.
Segue uma nova explicação (I, 8). O mundo luminoso distribuído em Poderes é o mundo das Ideias, dos arquétipos, « o pré-princípio anterior ao começo sem fim ». Quanto aos elementos da natureza, saíram, disse Poimandres, « da Vontade de Deus (ou da Deliberação de Deus, “Boule Theou”) que, tendo recebido nela o Verbo e tendo visto o belo mundo arquétipo, o imita, formada como foi em um mundo ordenado segundo seus próprios elementos e seus próprios produtos, as almas ».
Começamos, desde logo, a perceber o desígnio desta gênese mitológica do mundo. A ideia fundamental, vimos pela última vez, é de manter o Deus Supremo o tão estrangeiro quanto possível na produção de um mundo que é visto como mau. A solução do autor hermético é dupla. Consiste de uma parte em supor no Deus Supremo uma dualidade original, e de outra parte em fazer intervir, como princípios ativos na organização do Cosmos, não o Deus Supremo em pessoa, mas, hipóstases desse Deus, emanações divinas que são ditas filhos de Deus.
A dualidade original é aquela do Noûs e da Boule. Em um dado momento — aliás, não se sabe por que, se é que é necessário explicar melhor de alguma maneira a dualidade do mundo espiritual e do mundo da matéria — esta Boule se separa do Noûs luminoso. Ora o Noûs luminoso é ele-mesmo um mundo ordenado de Formas, de Arquétipos. A Boule é então tomada do desejo de imitar esse mundo ideal, ela se oferece como um poder passivo à ação que fará dela também, um mundo ordenado.
Mas, ela não é senão um poder passivo. Para formá-la em um mundo, quer dizer em uma ordem, é preciso um princípio ativo. Esse princípio ativo não será o Primeiro Deus, o Primeiro Noûs. Será um filho de Deus, o Logos ou Verbo. É sob a ação desse Logos que se operará na Boule-obscuridade a divisão interna dos quatro elementos e suas repartições nos lugares que lhes convenham.
Vê-se também como o autor hermético não teve resultado para essa solução senão tomando emprestado de todos os lados dos mais diversos sistemas. O mundo arquétipo vem de Platão. A influência do Gênese hebraico é evidente, reconhecível em mais de um traço (o Logos que cobre a natureza úmida lembra o sopro que, no Gênese, cobre o caos original): assim como uma citação textual, mais longe (« Crescei-vos em progresso e multiplicai-vos em multidão, todos vós, minhas criaturas e minhas obras » I, 18 — Gen, 8,15)A citação é do , torna esta influência indubitável. Por outro lado o Logos-sopro faz pensar no Pneuma estoico. E o encontrar-se-ia ainda, sem dúvida outros empréstimos. Mas, não são esses empréstimos que me parecem o traço interessante. O que importa, é a ideia-mãe, esta ideia fundamental, que não se faz necessário que o Deus Supremo tenha tido alguma parte direta na produção do mundo lá de baixo. (Notemos, de passagem, que o Logos é aqui o Filho Primogênito).
Nesse momento o Verbo de Deus (o filho Primogênito) que tinha ficado em baixo onde cobria o magma de terra e de água, vai juntar-se o segundo filho, Noûs demiurgo, deus do fogo, na região dos astros ígneos que esse Noûs demiurgo acaba de formar. O Verbo se uniu ao Demiurgo (« pois, lhe é consubstancial ») e, por suas ações conjuntas, Logos e Noûs demiurgo colocam em movimento a atividade dos sete círculos. Esta rotação produziu então, na parte inferior do mundo material, os animais do ar, da água e da terra (terra e água, nos foi dito, estiveram separadas) e todos esses animais são «sem Razão», aloga, pelo fato que o Logos deixou o mundo lá de baixo pela região dos astros. Aprendemos, além disso, por um incidente posterior (I, 18) que esses animais são originalmente bissexuados, ao mesmo tempo macho e fêmea.
Dois traços são a destacar nesse parágrafo. Logo de início a dualidade do Logos e do Noûs não parece ser imposta por uma necessidade lógica. Por essas diferentes fases da criação — discriminação dos elementos, organização da região do fogo dividida em sete esferas planetárias — foi suficiente, logicamente, de apenas um só demiurgo que tivesse podido nomear tanto Noûs quanto Logos. A dualidade pareceu imputável, aqui, não tanto a uma necessidade lógica quanto à multiplicidade das fontes as quais o autor tomou emprestado. Encontrou de uma parte um Logos demiurgo (assim como Fílon), de outra parte um Noûs demiurgo, e utilizou, volta a volta, esses dois personagens divinos sem se dar conta demasiado que seus papéis se confundiam: o que marca a incerteza do hermetista é o incidente « pois ele (o Logos) lhe era consubstancial (ao Noûs) ».
O segundo traço notável é o incidente (I, 11): «E essa rotação dos círculos, segundo o querer do Noûs (sc. do Noûs Primeiro), produziu animais sem razão»[Sextus coloca no mesmo plano as representações do homem e as daqueles animais “que se diz” sem razão (aloga zôia), considerando como próprio a um dogmatismo cego de orgulho o fato de se fiar somente na phantasiai dos homens e de considerá-los como os únicos zôia dotados de razão. In: pag. 196, Cristina Viano, Héraclite et les plaisir des animaux, In: L'animal dans l'Antiquité, Barbara Cassin, Jean-Louis Labarrière et Gilbert Romeyer Dherbey, Édition Vrin, « Bibliothèque d'Histoire de la Philosophie », 1997, 632 p., ISBN : 978-2-7116-1323-6. Texto disponível em books.google.com/]. Mais longe ainda: « A terra e a água tinham sido separadas, segundo o querer do Noûs » (ver também I, 18). Parece que se vê aqui como trabalha nosso hermetista. Ele tomou emprestada a maior parte dos elementos de sua cosmogonia das obras anteriores, onde a Criação está bem relacionada ao Deus Supremo (como em v.g. III). Para marcar seu desígnio de afastar Deus de toda participação à gênese do mundo, multiplica os intermediários, as hipóstases demiúrgicas. Mas, deixa passar alguns detalhes que traíram o caráter primitivo, na espécie otimista, da fonte que utilizou. De qualquer maneira esses detalhes não chocam, pois, com toda evidência, a separação da terra e da água e a produção dos animais são desses traços que o Criador do Gênese hebraico reconheceu como valde bona.
Observamos enfim que os sete círculos planetários são eles mesmos maus uma vez que sua matéria é feita de fogo; ora, o fogo saiu da Natureza úmida que é essencialmente má.