A revelação hermética como forma específica do gênero da visão, em que Hermes se apresenta ora como discípulo do Nous, a quem recebe em sonho o conhecimento das mais altas verdades sobre Deus, o mundo e a alma, ora como “deus na terra” que, tendo contemplado todas as coisas no céu antes de descer, se torna profeta que transmite essas verdades a discípulos como Asclépio, Tat ou o rei Amon, ou ainda como mestre de Ísis, que por sua vez instrui Hórus sobre a criação e o destino das almas, ampliando o modelo oracular para abarcar teologia, cosmogonia, antropogonia, escatologia e até saberes como astrologia, alquimia, magia e iatromante.
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A distinção necessária entre revelação relativa às realidades espirituais – doutrina sobre existência, atributos e governo de Deus e sobre origem, natureza e destino da alma – e revelação que se aplica a saberes humanos ou pseudo-científicos, como filosofia natural, astrologia, alquimia, magia ou medicina astral, de onde deriva um duplo problema: a origem da gnose propriamente dita e o surgimento, ao lado do sábio racional, de um novo personagem cultural, o mestre das ciências ocultas, precursor do tipo faustiano.
A teologia racional platônico-aristotélica como tentativa de alcançar, pela razão, as grandes verdades da religião, e sua posterior integração na dogmática cristã, contrastada com a exigência gnóstica de uma segunda via de conhecimento, intuitiva e amorosa, que ultrapassa as inferências discursivas.
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A afirmação de que as verdades supremas da fé – existência e providência de Deus, espiritualidade e imortalidade da alma – são demonstráveis, como se vê em Platão, que dedica um livro das Leis à prova de Deus e da providência e volta repetidamente à demonstração da imortalidade da alma, e em Aristóteles, que desenvolve longas séries de inferências sobre o Primeiro Motor na Física e na Metafísica.
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A recapitulação do método racional, que entende conhecer como conhecer pela causa e define a investigação científica como passagem dos dados confusos da experiência (ta synkechymena) às causas e elementos, conforme o princípio de que “em todas as ordens de pesquisa que comportam princípios ou causas ou elementos, só há ciência quando se penetram esses princípios, causas ou elementos” e de que se deve ir do “mais manifesto para nós” ao “mais manifesto em si”.
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A enumeração das quatro causas – material, formal, eficiente e final – e a demonstração, pela via do movimento, de que deve existir um Primeiro Motor imóvel, eterno e único, porque “basta um só princípio que, sendo o primeiro entre os motores imóveis e sendo eterno, seja o princípio de movimento para todas as demais coisas”, o que funda uma concepção de Deus como Causa suprema, mas inteiramente construída por raciocínio.
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A consciência dos limites desse método, uma vez que, em tudo o que se refere a Deus ou à alma, não há dado sensível diretamente correspondente às noções “Deus” ou “alma”, que só são alcançadas ao fim de uma cadeia de inferências, de sorte que as demonstrações não se impõem com necessidade absoluta, deixam espaço ao dúvida e podem, em certos períodos, conduzir a um abuso da razão e a uma consequente crise de confiança nas inferências, como ocorreu após os excessos da sofística grega e, mais tarde, da escolástica medieval.
A gnose como resposta à consciência da inadequação da razão para satisfazer plenamente a relação entre Deus e a alma, e como nome dado ao esforço de exprimir, ainda que confusamente, o mistério de Deus e as exigências profundas da alma humana.
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A tese de que, embora Deus e a alma sejam objetos legítimos da razão e sua existência seja “demonstrável”, o contato pessoal, como de “uma pessoa com outra”, exige uma segunda modalidade de conhecimento, fundada numa faculdade intuitiva que os antigos chamavam nous, Francisco de Sales denominou “fina ponta da alma” e Pascal designou “coração”, pela qual se deseja um conhecimento que seja contato direto, “sentimento”, toque e visão, e uma união que seja fusão e compenetração de dois seres vivos.
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A caracterização de Deus como “agnostos”, o Inconhecível, em virtude de que o ser divino ultrapassa infinitamente o conceito racional “Deus” e faz explodir os atributos de excelência elaborados para realidades finitas, de modo que a verdadeira natureza de Deus permanece inacessível, ao passo que a alma, por sua vez, “transborda” a razão, sendo ao mesmo tempo razão, intuição e amor, e aspirando a se perder em Deus “como num oceano de luz e de felicidade”, ainda que ao preço de abdicar da compreensão discursiva.
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A descrição da hora histórica em que se percebe, “de maneira mais aguda e dolorosa”, o caráter insuficiente de uma teologia puramente racional, momento em que Deus deixa de aparecer principalmente como objeto pensável para se oferecer à alma como abismo de luz e beatitude, e em que a participação mínima nessa luz e nessa felicidade basta para suscitar o desejo de abandonar tudo para viver apenas esses instantes, que se tornam o “tudo” da vida e o fim único ao qual toda ciência e toda atividade devem conduzir.
As consequências práticas da orientação gnóstica, que relativiza as ciências profanas e redefine a própria filosofia como contemplação habitual do Inconhecível, acompanhada de culto e interioridade, e sua formulação programática tanto em textos herméticos quanto cristãos.
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O juízo de que, se as ciências profanas não conduzem a esse termo de união mística, podem e devem ser abandonadas, pois a verdadeira filosofia já não é um saber enciclopédico, mas “um frequente olhar lançado ao Inconhecível”, associado a atos de culto e movimentos interiores pelos quais se tenta atingi-lo.
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A síntese hermética do Asclepio, segundo a qual a filosofia consiste unicamente no desejo de conhecer melhor a divindade por uma contemplação habitual e uma santa devoção, e não deve ser corrompida por sofismas nem misturada indiscriminadamente a disciplinas como aritmética, música e geometria, mas limitar-se a utilizar as outras ciências na medida em que elas conduzam a admirar, adorar e bendizer a arte e a inteligência de Deus; por isso, “adorar a divindade com um coração e uma alma simples, venerar as obras de Deus e render graças à vontade divina, que é a única plenitude do Bem, tal é a filosofia que não contamina o espírito com curiosidade má”.
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O eco cristão dessa posição em Tertuliano, que formula a oposição entre saber filosófico e fé revelada perguntando: “Que há em comum entre Atenas e Jerusalém, entre a Academia e a Igreja, entre o herege e o cristão?”, concluindo que a doutrina cristã provém “do pórtico de Salomão” e que “toda curiosidade cessa depois de Jesus Cristo, toda pesquisa depois do Evangelho; crei-se, e não se deseja nada mais”, o que confirma, em chave cristã, o deslocamento do interesse religioso da investigação racional para a adesão à revelação.