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Para compreender adequadamente os escritos do hermetismo filosófico, é imperativo abandonar a perspectiva da piedade cristã posterior e situar esses textos em função de seus antecedentes helenísticos, revelando que, embora compartilhem a brevidade e o caráter de exortação da diatribe moral comum à época, o logos* hermético possui diferenças fundamentais de tom e propósito.
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Enquanto a diatribe, associada à escola cínica, caracteriza-se por um tom propositalmente brusco, realista, vulgar e destinado a atingir o ouvinte em locais públicos como ruas e encruzilhadas, o logos* hermético evita o realismo grosseiro e adota um tom de confidência íntima, solene e penetrante, assemelhando-se a um colóquio privado entre pai e filho ou mestre e discípulo em um santuário ou câmara fechada.
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Não existem paralelos exatos na antiguidade para este gênero, mas suas raízes podem ser traçadas até Platon; o logos hermético evoca o lirismo revelatório do Timeu e, mais especificamente, a revelação de Diotima a Socrates no Simposio*, onde a instrução sobre a natureza do amor e a ascensão à visão do Belo ocorre em um ambiente de conversa privada e inspirada, mesclando dialética e passagens de alta elevação poética.
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Assim como no Simposio, os melhores escritos de Hermes apresentam um amálgama de partes dialogadas e longos discursos, transitando da vivacidade de uma disputa escolar para o lirismo de uma apocalipse, onde o mestre, seja como deus ou profeta, revela doutrinas sublimes sobre a natureza divina e a união com o absoluto através da gnosis.