-
A interrogação central que permeia a doutrina reside na razão pela qual o homem, ou a alma, necessitou ser estabelecido na matéria em detrimento de viver na suprema felicidade onde habita Deus, questionamento este formulado por Asclepio ao seu mestre e ecoado pelas lamentações das almas na obra Kore Kosmou, as quais, ao saberem de sua condenação, deploram a separação das esferas celestes e o aprisionamento em corpos vis e ignóbeis.
-
Arnobio, engajando-se na polêmica contra os viri novi, argumenta que se as almas fossem verdadeiramente filhas de Deus e geradas pela Potência Soberana, jamais teriam abandonado a beatitude celeste para habitar corpos opacos e imundos, questionando a lógica de um Deus bom enviar suas proles para aprenderem vícios, crueldade e sofrimento na terra, concluindo que a presença da alma no mundo sugere que elas não podem ser de estirpe divina.
-
Plotino transpõe o mito da queda para termos de experiência pessoal, confessando a estranheza de sentir-se descer da contemplação do inteligível para a atividade discursiva e corporal, o que o leva a investigar, recorrendo a Heraclito, Empedocles e Platão, como a alma, sendo incorpórea e divina, pôde adentrar o corpo, deparando-se com a aparente contradição nos textos platônicos que ora condenam o corpo como prisão, ora exaltam o mundo como um deus beato que necessita de alma.
-
A questão da queda impôs-se aos platônicos dualistas e gnósticos não apenas como dificuldade teórica, mas como angústia existencial, pois se a alma provém de um Deus transcendente e bom, sua descida é inexplicável, e se o homem é essencialmente sua alma intelectual aprisionada, a vida terrena perde sentido, levando filósofos como Porfirio a inquirirem incessantemente sobre o modo de união entre a alma e o corpo.