Sortilèges du Verbe (1949)
INTRODUÇÃO
1. Todo mundo, para falar ou escrever, serve-se de palavras, isto é, de signos ou de símbolos fonéticos ou gráficos, e certas pessoas além disso amam as palavras por elas mesmas, como amariam gatos ou cerâmicas chinesas.
2. O autor declara desde logo pertencer precisamente a essa categoria de amantes do verbo em si, sendo essa sua única desculpa para a apresentação deste ensaio, não sendo filólogo nem gramático de profissão, mas um qualquer amador, e amador aliás implica amor, sendo aos amadores de palavras e mesmo de jogos de palavras que este divertimento semântico se dirige.
3. Os primeiros que atribuíram às palavras um valor intrínseco definido, por vezes uma potência mágica, foram os egípcios.
4. Os mots de puissance ou hekau são mencionados já no século XVI a.C. num capítulo especial do Livro dos Mortos, desempenhando ali papel ainda mais importante que os talismãs ou signos puramente formais, e o Livro dos Mortos mostra que a alma do falecido deve servir-se dessas palavras de poder durante toda a viagem no outro mundo.
5. Reencontrar-se-ão essas palavras de passe nos mistérios, nas tábuas funerárias pitagórico-órficas, depois nos ritos das corporações de cortadores de pedra, maçons e franco-maçons profissionais e enfim na franco-maçonaria especulativa, estando sua linha de transmissão ligada à dos símbolos gráficos, cujo mais importante é o pentagrama dos pitagóricos, símbolo da harmonia e incidentemente signo do número de ouro.
6. É Isis que no Egito, como na Grécia sua correspondente Deméter-Ceres dos mistérios de Eleusis, é a divindade especialmente afetada às palavras mágicas, repetindo-se frequentemente a expressão Isis, a dama das palavras mágicas.
7. Uma inscrição muito incantatória diz que ela é Isis, a Deusa, a Dama das palavras de poder, e que as palavras cujas vozes são Magia.
8. No texto gnóstico copta chamado Papiro Bruce, em Oxford, em que Gnose e Magia estão intimamente misturadas, já se trata do Grande Nome secreto e inexprimível, cujo mistério lança sua sombra sobre toda a Cabala, sendo esse o Schema incomunicável, soletrado Yod Hé Vav Hé.
9. Os dez Sephiroth do Zohar, ou Livro do Esplendor, são também palavras de poder e ao mesmo tempo as noções numerais de Deus.
10. A palavra que permitia ao Rabi Loew animar ou pôr em espera seu Golem se liga também à magia egípcia que pretendia poder criar homúnculos com auxílio da insuflação de palavras mágicas, e a Verdade (Emeth) do Rabi Loew evoca Maat, a deusa egípcia da Verdade, que desempenha papel tão grande no Julgamento da Alma.
11. A busca do Mot Perdu baliza os ritos dos Rosa-Cruz e os dos Franco-Maçons, e sabe-se que o Evangelho segundo São João começa pela afirmação de que no princípio era o Verbo.
12. O apóstolo São João e São João Batista aparecem aliás com persistência nas tradições gnósticas, como nas dos Templários e da Franco-Maçonaria, nos ritos joanitas.
13. Desse lado incantatório das palavras consideradas como encantos ou talismãs já se ocupou o autor em outras obras, e tentou além disso analisar, a propósito dos ritmos na duração, em oposição aos desenvolvimentos rítmicos no espaço, o valor rítmico das palavras tomadas como elementos dos fonemas, sendo estes por sua vez os elos de um tecido formado de frases.
14. Quer se trate de prosa ou de textos poéticos, o ritmo, periodicidade percebida como o define P. Servien, está em toda parte, evidente ou oculto, ligado de maneira subtil aos ritmos viventes fisiológicos e afetivos.
15. É na poesia que os números do ritmo são mais aparentes, e é especialmente desse ponto de vista do número, tendo-se recordado que rythmos e arithmos, ritmo e número, são em grego antigo as duas faces do mesmo conceito, que nos estudos mencionados o autor tentou descortinar certas leis nas ondulações rítmicas da linguagem.
16. Aqui, ao contrário, não nos ocuparemos de modo algum do ritmo nem de seus números, mas, repete-se, desses elementos da trama do discurso que são as palavras, o que se poderia chamar, mudando de imagem, os tijolos da linguagem.
17. Esses tijolos têm cada um sua individualidade, sua textura e sua ossatura, têm também seu passado arqueológico, isto é, uma etimologia, e uma ação semântica de sugestão por associação de ideias evidente ou obscura.
18. Esses três pontos de vista, substância, etimologia e ação semântica, misturam aliás suas raízes e seus efeitos da maneira mais íntima, como podem dar-se conta todos os que tentam fornecer um quadro lógico a um estudo desse gênero.
19. Vagabundar-se-á portanto primeiro à vontade na floresta dos signos, ora selva obscura, ora parque de alamedas claramente traçadas.
20. Depois, aproveitando o fato de que toda palavra pode, enquanto signo precisamente, ser considerada como uma metáfora, passar-se-á dessas metáforas condensadas às mais articuladas que conferem a todo texto literário suas imagens mais ou menos cambiantes e seus reflexos analógicos.
21. E pela metáfora e pela analogia, sua irmã mais abstrata, seremos conduzidos bastante naturalmente a examinar por fim certas técnicas de composição em que o artista, ajustando os tijolos elementares do discurso, serve-se da analogia, de suas perspectivas, de seus reflexos e de suas recorrências, como outrora o arquiteto grego e depois gótico dos jogos de proporções harmoniosamente aparentadas ao tema mestre do plano, que ele encaixava em seus traçados reguladores sinfônicos.
22. É o Jogo do Mesmo e do Outro.