Segredos do Céu

HANEGRAAFF, Wouter J. Swedenborg, Oetinger, Kant: Three Perspectives on The Secrets of Heaven. West Chester: Swedenborg Foundation Publishers, 2007.

Prefácio

Agradecimentos

Introdução

Parte I — Os segredos do céu, de Swedenborg

Parte II — Oetinger, Kant e a recepção inicial de Os segredos do céu

Epílogo


Introdução

1. Em 1749, Emanuel Swedenborg publicou o primeiro dos oito volumes de sua obra visionária fundamental, os “Arcana Coelestia”, que, a pretexto de interpretar o Gênesis e o Êxodus, incluem relatos de suas experiências espirituais e extensos tratados doutrinais.

2. Os “Segredos do Céu”, fundamento doutrinal, exegético e visionário da inovadora teologia de Swedenborg, são também um ponto privilegiado para estudar as interações, no final do século XVIII, entre a teologia cristã tradicional, a nova racionalidade e ciência iluministas e as tentativas herméticas ou esotéricas de encontrar uma via intermediária, entre as quais se situa Swedenborg, cuja recepção por Friedrich Christoph Oetinger, que nele viu inicialmente um espírito afim e depois uma perspectiva antitética à sua, revela a diversidade e os conflitos existentes entre os partidários dessa terceira via.

3. Immanuel Kant, representante da perspectiva racionalista, não desprezou a metafísica de Swedenborg como quimera oculta, ao contrário do que supõe a maioria dos especialistas, pois, sob o tom irônico dos “Sonhos de um Visionário”, os “Segredos do Céu” lhe colocaram sérios problemas filosóficos cujas soluções, nesse último escrito pré-crítico, o encaminharam para sua filosofia crítica madura.

4. Swedenborg e seus dois principais críticos encarnam posições ideológicas centrais no conflito setecentista entre religião e razão, Swedenborg e Oetinger como opções conflitantes do “esoterismo iluminista” e Kant como racionalismo secular, ao lado da ortodoxia cristã representada por Johann August Ernesti, permitindo compreender o que estava em jogo quando cientistas, filósofos, teólogos e esoteristas tentavam conceber uma realidade celeste e relacioná-la ao discurso racional e científico.

5. O problema sensível das fontes de Swedenborg admite três posições, das quais a ortodoxa swedenborgiana sustenta que suas revelações vêm diretamente do Senhor, tornando fútil e equivocada toda contextualização histórica e crítica das fontes.

6. A variante providencialista moderada vê na carreira científica de Swedenborg, voltada para problemas como a interação entre alma e corpo, uma preparação providencial na qual ele teve de levar a investigação racional a seus limites antes de receber a visão direta, tornando legítimo e edificante o estudo de suas fontes mundanas.

7. Para o historiador, obrigado a um agnosticismo metodológico quanto à existência do céu, é impossível provar ou refutar a inspiração celeste de Swedenborg, sendo crucial investigar as fontes e tradições que influenciaram sua visão de mundo e podem explicá-la ao menos parcialmente, sem que jamais se possa excluir cientificamente uma interpretação providencialista, embora irrelevante para a história.

8. Adotando uma neutralidade agnóstica e uma abordagem histórico-contextual, distinguem-se duas linhas interpretativas, a de biógrafos como Martin Lamm e Inge Jonsson, que enfatizam a continuidade entre as fases científica e visionária de Swedenborg, cuja teosofia madura seria uma reformulação espiritual de sua visão científica e filosófica de base cartesiana, influenciada por Leibniz, Wolff e Malebranche.

9. Outros especialistas, como Ernst Benz e Marsha Keith Schuchard, sem negar seu fundo científico, situam as fontes essenciais de Swedenborg no esoterismo ocidental, no neoplatonismo, na filosofia hermética renascentista, na Cabala judaica e cristã e na teosofia de Jacob Böhme.

10. Essa segunda interpretação esbarra na escassez de referências explícitas de Swedenborg a autores esotéricos, explicada por seus defensores como supressão deliberada para não desacreditar sua obra junto aos racionalistas e compensada por supostas semelhanças estruturais, em geral superficiais diante das análises críticas de Jonsson, de modo que o Swedenborg “exotérico” de Lamm e Jonsson se revela muito mais próximo da verdade do que o “esotérico”.

11. Swedenborg conhecia filósofos da natureza influenciados por tradições herméticas, alquímicas e cabalísticas, possuía tais livros, conhecia indiretamente Böhme por meio de Dippel, usava terminologia paracelsiana, conhecia os platônicos de Cambridge e Van Helmont e foi influenciado pela física divina de Rüdiger, mas isso era normal para um cientista erudito da época, interessado sobretudo nas contribuições filosóficas sobre a natureza e a alma, sem constituir uma filosofia esotérica integrada fundada na gnose nem uma crença numa filosofia perene transmitida por mestres inspirados.

12. Swedenborg pertence ao seleto grupo dos verdadeiros inovadores da religião ocidental, não como elo de uma cadeia esotérica desde a Antiguidade, mas como fundador de um novo tipo de cristianismo de enorme importância para as igrejas que dele derivaram e para novas formas de esoterismo ocidental, importância exercida, porém, mais apesar de suas intenções do que por causa delas, já que os esoteristas posteriores misturaram seus conceitos com ideias alheias à sua visão.

13. Em vez de confinar Swedenborg a uma tradição específica, esotérica, cristã, filosófica ou científica, convém vê-lo participando simultaneamente de discursos sobrepostos e concorrentes, assim como Oetinger, apresentado como representante da teosofia cristã e da Cabala cristã, pode igualmente ser visto como ortodoxo fundamentalista bíblico protestante, combinação que reflete a complexidade de quem participava dos discursos concorrentes de sua época.

14. Também Kant, figura central da filosofia iluminista, participou de outros discursos, como os da astronomia, da psiquiatria e da possibilidade de contato com espíritos e anjos, cujo estudo permite compreender melhor a complexidade de sua obra.

15. Subjaz a essa abordagem a proposta historiográfica de superar as oposições simplistas entre religião e razão ou entre Iluminismo e oculto aplicadas ao século XVIII, que distorcem tanto esoteristas como Swedenborg e Oetinger quanto ícones da racionalidade como Kant, pois, se os pensadores iluministas buscavam distinções nítidas entre razão e desrazão, verdade e erro, a história crítica revela realidades confusas feitas de tons de cinza, cada vez mais complexas à medida que se examinam as fontes.

16. Trata-se, assim, de um exercício de esclarecimento por meio da complexificação e de edificação por meio da desconstrução, único caminho, embora paradoxal, pelo qual os segredos da história, se os houver, podem ser revelados.