HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
1. Apesar da abundante literatura sobre a teologia antiga e a filosofia perene do Renascimento, quase não houve esforço de definir com precisão os termos prisca theologia, cunhado por Marsilio Ficino, e philosophia perennis, introduzido por Agostino Steuco, constituindo exceção notável Charles B. Schmitt, que em 1970 assinalou a diferença de conteúdo e implicações entre a noção de uma sabedoria “antiga” e a de uma sabedoria “perene”.
2. A prisca theologia situa o verdadeiro conhecimento antes da filosofia grega, entre sábios pré-clássicos como Zoroastro, Mercúrio Trismegisto e Orfeu, supostamente herdeiros de Moisés e por isso dotados de alta autoridade na tradição judaico-cristã, sabedoria que teria passado aos gregos pela corrente platônica, de Orfeu a Aglaofemo, Pitágoras e Platão.
3. Nessa perspectiva, a redescoberta e tradução, no final do século XV, das obras de Platão e dos escritos atribuídos a Zoroastro, Hermes e Orfeu assumia ressonâncias milenaristas, pois, num momento de evidente degeneração moral da Igreja, a Providência parecia conceder aos cristãos acesso às fontes mais antigas e autorizadas da verdadeira religião, indicando o caminho de uma reforma da fé pelo retorno às origens da revelação.
4. Ficino, fundador virtual da narrativa renascentista da prisca theologia, acreditava agir como instrumento escolhido por Deus ao traduzir Hermes, Orfeu, Platão e os platônicos, mas Michael J. B. Allen e Schmitt advertiram contra a fácil identificação desse conceito com a philosophia perennis, cujas implicações são mais amplas, pois, embora atribua à sabedoria a mesma origem remota e genealogia, enfatiza sua continuidade através de todas as épocas, sem jamais supô-la perdida, ainda que por vezes atenuada.
5. A philosophia perennis, centrada na unidade e universalidade da sabedoria e não em seu declínio, carece das implicações milenaristas de Ficino, e não é casual que Steuco tenha publicado o “De perenni philosophia” em 1540, às vésperas do Concílio de Trento, pois, enquanto os partidários católicos da prisca theologia e os teólogos protestantes buscavam reformar a Igreja pelo retorno às origens, sua síntese visava preservar, afirmando, como já Agostinho, que a religião cristã existia desde o princípio da humanidade, configurando-se assim uma tensão entre uma narrativa histórica de potencial revolucionário e uma doutrina conservadora da continuidade trans-histórica da verdade absoluta.
6. Pode-se distinguir ainda uma terceira tendência, “profética”, a pia philosophia, segundo a qual os filósofos anteriores a Cristo teriam recebido por inspiração divina vislumbres da religião superior do cristianismo, introduzindo uma ideia de progresso e de educação gradual da humanidade para a revelação final, diferente tanto da narrativa de declínio e renascimento da prisca theologia quanto da continuidade da philosophia perennis.
7. A relevância cultural da pia philosophia permaneceu limitada, pois, referindo-se a um período encerrado com o nascimento de Cristo, carecia de alcance social e político, nem revolucionária nem conservadora, podendo apenas dar apoio teológico aos estudos das fontes pré-cristãs, embora fosse invocada retoricamente pelos partidários da prisca theologia para responder à crítica de que sua narrativa de declínio não explicava o avanço representado pelo cristianismo.
8. O discurso da sabedoria antiga abrangia, portanto, três esquemas macro-históricos mutuamente excludentes, evolução, degeneração e continuidade, dos quais o evolutivo, o mais ortodoxo, e o perenialista, que tendia ao “todos têm razão”, reduziam o estudo das novas fontes à confirmação de verdades já conhecidas, ao passo que a prisca theologia, ao considerar os autores mais antigos os mais próximos da verdade, prometia novas descobertas, mas ameaçava tornar o cristianismo supérfluo ou decadente, levando os críticos a temer que as novas fontes fossem um cavalo de Troia portador de uma religião pagã universal ressuscitada.
9. A coexistência desses três modelos, fraqueza teórica, revelou-se vantagem prática, pois sua ambiguidade permitia aos autores eruditos e hábeis alternar ou combinar estratégias apologéticas e escapar indefinidamente aos críticos num labirinto de referências a autoridades inquestionáveis.
10. A narrativa tornava-se ainda mais escorregadia por sua relação ambígua com a teologia e a filosofia, já que os teólogos antigos eram filósofos e a filosofia perene era doutrina de uma religião universal, permitindo, até o surgimento do antiapologetismo protestante no final do século XVII, apresentar-se como filósofo diante dos teólogos e invocar a revelação diante dos filósofos, sob o ideal conveniente da sapientia, que incluía e transcendia ambas.
11. Compreender de que fontes essa narrativa se desenvolveu e como se tornou a narrativa fundadora do esoterismo ocidental do século XV até hoje exige remontar às origens da filosofia ocidental.