1.3 Apologistas Cristãos

HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

1. O apologetismo, defesa polêmica da superioridade da própria posição, esteve no centro do discurso da sabedoria antiga desde sua origem, sendo a Tradição o capital simbólico disputado pelos participantes, como mostram Hecateu de Abdera, que fazia do Egito a fonte da sabedoria dos sábios gregos, Diógenes Laércio, que reivindicava para os gregos a origem da filosofia e da própria humanidade, e historiadores como Beroso, Mâneton e Fílon de Biblos, que atribuíam a seus povos as conquistas culturais gregas, todos partilhando o pressuposto de que antiguidade equivalia a superioridade e nada podia ser ao mesmo tempo novo e verdadeiro.

2. Para uma religião nova como o cristianismo, esse pressuposto constituía um problema, pois era preciso refutar a objeção de que se tratava de invenção recente sem a legitimidade da Tradição, anunciando a boa-nova do Evangelho e ao mesmo tempo negando sua novidade, tarefa cujo trunfo decisivo foi a figura de Moisés.

3. A primeira referência a Moisés na literatura grega pagã, em Hecateu, reivindica-o para o Egito, como homem sábio e corajoso que saiu do Egito para a Judeia, fundou cidades, entre elas Jerusalém, consagrou um templo, instituiu o culto e legislou sobre os assuntos políticos.

4. Historiadores judeus responderam a essa apropriação, Eupólemo fazendo de Moisés o primeiro sábio e inventor do alfabeto, Artápano tornando-o mestre de Orfeu, benfeitor da civilização egípcia, inventor da filosofia e dos hieróglifos e identificando-o com Hermes, de modo que as conquistas atribuídas ao Hermes egípcio passavam a ser de Moisés, e Flávio Josefo afirmando a primazia cronológica do legislador judeu sobre todos os legisladores admirados pelos gregos.

5. Os apologistas cristãos dos séculos II a V também fizeram de Moisés sua testemunha principal, lógica exposta com particular clareza no tratado anônimo “Ad Graecos”, atribuído erroneamente a Justino Mártir, o mais influente dos primeiros apologistas, filósofo religioso de formação médio-platônica convertido ao cristianismo por um ancião que lhe revelou os profetas hebreus, anteriores aos filósofos e únicos detentores da verdade, e executado em Roma sob Marco Aurélio.

6. O “Ad Graecos” procura persuadir moderadamente os não cristãos da inferioridade da religião e da filosofia gregas, ridicularizando os poetas e os filósofos anteriores a Platão e mostrando que Platão e Aristóteles se contradizem e não inventaram seu saber, que deve ser rastreado até os mestres judeus a partir de Moisés, muito anteriores aos gregos e transmissores unânimes e sem disputa do conhecimento recebido de Deus sobre o divino, a criação, a imortalidade da alma e o juízo futuro.

7. A anterioridade de Moisés em relação aos filósofos gregos é sustentada por uma longa lista de historiadores, e todo o seu saber e o dos profetas posteriores se funda não no próprio intelecto, mas num dom divino e profético.

8. Os gregos, desprovidos dessa inspiração, só alteraram suas opiniões sobre as divindades graças às viagens ao Egito, onde aproveitaram a sabedoria mosaica, e Platão, que teria lido ali o Pentateuco, só não falou abertamente do Deus único de Moisés por temer o destino de Sócrates, contendo seus escritos, de forma velada, verdades divinas derivadas de Moisés.

9. O dilema de uma religião nova que se pretende antiga resolve-se pela tese de que Cristo restaurou a religião antiga abandonada sob a influência dos demônios adorados pelos pagãos, não sendo o cristianismo radicalmente novo, mas renascimento da religião inspirada pelo Logos eterno, do qual participa todo o gênero humano, de modo que foram cristãos todos os que viveram segundo o Logos, como Sócrates e Heráclito entre os gregos e Abraão e Elias entre os bárbaros.

10. A noção da religião antiga como cristianismo inconsciente apoiava-se no modelo autorizado do discurso de Paulo no Areópago, que anunciou aos atenienses o Deus desconhecido que adoravam sem saber, permitindo aos platônicos cristãos interpretar Platão e as autoridades do orientalismo platônico como cristãos inconscientes inspirados pelo Logos.

11. Essa perspectiva segue a lógica da philosophia perennis, mas pode também apoiar a pia philosophia, ao fazer explícito no cristianismo o que estava implícito nos bons pagãos, sem constituir uma prisca theologia em sentido genético estrito, pois, embora Moisés tenha maior autoridade por sua antiguidade, a verdadeira religião não depende dele nem tem no judaísmo sua expressão mais perfeita, de modo que a novidade radical implica inferioridade, mas a grande antiguidade não implica necessariamente superioridade.

12. Os intelectuais pagãos podiam argumentar mais diretamente contra a novidade, como fez por volta de 175 o platônico Celso, autor do primeiro ataque sistemático ao cristianismo, que, invocando uma doutrina antiga mantida desde o princípio pelos povos e sábios mais ilustres, excluía dela os judeus e Moisés, responsável por corromper a religião antiga com um monoteísmo exclusivo, e condenava ainda mais os cristãos como rebeldes contra a tradição judaica e contra todas as tradições, povo sem raízes isolado do resto da humanidade.

13. Definidas por Justino e Celso as duas perspectivas opostas, Taciano retomou o argumento de Justino com virulento antagonismo antigrego, fazendo dos gregos meros imitadores da sabedoria bárbara iniciada por Moisés, e Clemente de Alexandria acusou-os de terem roubado sua filosofia aos bárbaros, herdeiros de Moisés, sem deixar de admitir, como Justino, uma teologia natural pela qual os pagãos podiam alcançar verdades pela razão ou pela inspiração, como os magos persas que previram o nascimento de Jesus.

14. O “Contra Celso” de Orígenes, culminação da apologética dos séculos II e III, defendeu, com base em orientalistas platônicos como Numênio, Moisés como a mais antiga autoridade bárbara da qual dependem os gregos, refutando Celso ponto por ponto, mas admitindo também que Deus implantou nas almas de todos os homens as verdades ensinadas pelos profetas e pelo Salvador.

15. Uma segunda fase da apologética desenvolveu-se em resposta ao ataque do neoplatônico Porfírio, discípulo de Plotino, que no “Contra os Cristãos” retomou a acusação de desenraizamento e rebeldia contra a tradição, mas contestou a anterioridade de Moisés com argumentos filológicos e cronológicos precisos, ao qual Eusébio respondeu sistematicamente na “Praeparatio Evangelica”.

16. Eusébio elaborou uma história sistemática da cultura para sustentar que o cristianismo é verdadeiro porque antigo, distinguindo, a partir da selvageria primitiva posterior à Queda, o desenvolvimento demoníaco do paganismo egípcio, fenício e greco-romano e o surgimento independente da verdadeira religião pela ação do Logos entre os patriarcas bíblicos de Enoque a Moisés, preservada pelos judeus até que a vinda de Cristo e a difusão do Evangelho trouxessem a morte dos demônios e o fim do paganismo, sem que a verdadeira religião fosse ela mesma nova.

17. Os hebreus anteriores a Moisés, sem conhecer a legislação mosaica, viviam uma religião livre segundo a natureza, sem necessidade de leis graças à liberdade de suas almas em relação às paixões, e possuíam o verdadeiro conhecimento das doutrinas sobre Deus.

18. O cristianismo é, portanto, a religião original e mais antiga dos hebreus, na qual a liberdade do Evangelho volta a prevalecer sobre as restrições da Lei judaica, o que não torna o judaísmo inferior, mas torna o cristianismo superior.

19. Eusébio escrevia na biblioteca eclesiástica de Cesareia, herdada de Orígenes e rica em textos de Platão e do médio e neoplatonismo de orientação oriental, que conhecia profundamente, e, embora rejeitasse como demoníaca a religião pagã, considerava a filosofia platônica derivada de fontes hebraicas e essencialmente concorde com o cristianismo, contexto da célebre pergunta de Numênio sobre se Platão não seria Moisés falando grego ático.

20. As linhas argumentativas dos apologistas foram confirmadas por autoridades posteriores, como Lactâncio, que sublinhou a anterioridade dos profetas hebreus, e Agostinho, que situou Hermes Trismegisto antes dos sábios gregos mas depois de Moisés, admitiu que Platão estudara no Egito talvez as Escrituras hebraicas, considerou os platônicos os mais próximos dos cristãos e estendeu essa concordância aos sábios de todas as nações, defendendo uma philosophia perennis segundo a qual a verdadeira religião, já conhecida dos pagãos, passou a chamar-se cristã com a encarnação do Logos.

21. Enquanto Moisés fosse apresentado como fonte última da verdadeira religião, a narrativa renascentista da sabedoria antiga podia reivindicar sólida autoridade patrística, vendo a sabedoria pagã como inspirada pelo Logos ou derivada de Moisés e prefiguradora da verdade cristã e atribuindo ao platonismo orientalista o papel privilegiado de mediação entre razão filosófica e religião revelada, mas o orientalismo platônico e a apologética patrística, embora fundamentos necessários, não bastam para explicar o surgimento desse fenômeno no século XV, marcado por traços novos.

22. No Renascimento as relações de poder inverteram-se, pois os admiradores de Platão, apesar de seu compromisso cristão, tornaram-se apologistas das fontes pagãs numa cultura cristã viva, disputando um capital simbólico diverso, a conciliação das fontes pagãs com a ortodoxia teológica, e lidando com uma literatura pagã recém-recuperada após longo esquecimento, circunstância que conferia à narrativa renascentista um potencial revolucionário inimaginável nos primeiros séculos, o de suscitar um renascimento do paganismo dentro do cristianismo ou em concorrência com ele, possibilidade na qual começam a esboçar-se os contornos do esoterismo ocidental.