2.1 Contra os Pagãos

HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

1. Desde sua entrada no humanismo italiano, o orientalismo platônico foi acompanhado de uma sombra antiplatônica, encarnada em Jorge de Trebizonda, aristotélico paranoico que via em Pletão uma víbora e, em sua “Comparatio” de 1458, atacou Platão como mau filósofo, depravado, idólatra, feiticeiro e fonte de todas as heresias, apresentando Maomé, Pletão e o cardeal Bessarion como seus sucessores e temendo uma tomada platônico-grega do trono de Pedro, ao que Bessarion, discípulo de Pletão, respondeu com o “In calumniatorem Platonis”, defesa da compatibilidade de Platão com o cristianismo e com Aristóteles e principal síntese do platonismo renascentista antes de Ficino.

2. Entre os leitores simpáticos de Trebizonda estavam Savonarola e Gianfrancesco Pico della Mirandola, sobrinho de Giovanni, cujo “Examen vanitatis doctrinae gentium” de 1520 visava destruir o que o tio construíra, apesar da relação afetuosa entre ambos, pois Gianfrancesco, discípulo fiel de Savonarola, teve acesso aos manuscritos inéditos de Giovanni, caídos nas mãos dos dominicanos de San Marco, e publicou sua biografia laudatória e a base de todas as edições posteriores de suas obras.

3. Essa contradição sugere, segundo Steven Farmer, que Gianfrancesco, com o médico savonaroliano Giovanni Mainardi, pode ter manipulado deliberadamente o legado do tio por omissões, distorções, falsificações e plágios que usavam sua defesa dos gentios para atacá-los, exagerando a influência de Savonarola sobre o último Giovanni e talvez interpolando nas “Disputationes” contra a astrologia ataques à prisca theologia que o apresentariam como convertido ao cristianismo evangélico, num caso de “despaganização” póstuma.

4. O “Examen vanitatis”, primeiro exemplo de reação antipagã na historiografia renascentista do pensamento e precursor dos antiapologistas do século XVII, combina ceticismo, inspirado em Sexto Empírico, quanto à vaidade e incerteza de todo raciocínio filosófico e fideísmo que faz da Escritura, até o menor iota, a única fonte infalível do conhecimento, com implicações consideráveis para a história da filosofia.

5. Segundo Luciano Malusa, Gianfrancesco Pico atribuía ao estudo histórico da filosofia a finalidade de mostrar as condições do pensamento humano privado da luz da revelação ou pretendendo-se independente dela, investigando no passado as causas dos erros e das divisões dos filósofos.

6. A história da filosofia desprovida de inspiração divina só podia ser concebida como história do erro e da divisão, mera preparação humilde e inadequada para o estudo da Escritura, pois, sendo a verdade bíblica absoluta e imutável, uma história da verdade é autocontraditória e o domínio próprio da historiografia consiste nas opiniões humanas falíveis, intuição que se tornaria o fundamento da história da filosofia como disciplina moderna.

7. Mais brando com Platão do que com Aristóteles, o que lhe permitia preservar os Padres platonizantes, Gianfrancesco sustentava que os antigos teólogos como Zoroastro, Hermes e Orfeu buscaram em vão a verdade, alcançando apenas atributos da divindade, que só os hebreus possuíam, e que a filosofia pagã, iniciada com Pitágoras e dividida em escolas e seitas, apenas multiplicou erros e discórdias, devendo, contra o programa conciliador do tio, ser demolida em favor da fé simples nas Escrituras.

8. Mesmo autores simpáticos à sabedoria antiga, sobretudo na França, como Lefèvre d'Étaples e Champier, mostravam cautela diante da magia, do paganismo e da heresia, num contexto em que a grande caça às bruxas, aberta pelo “Malleus Maleficarum” de 1486, se desenvolvia paralelamente ao discurso da sabedoria antiga e levava a questionar a inocência demoníaca da magia erudita florentina, como mostra o “De praestigiis daemonum” de Johann Weyer, de 1563.

9. Weyer foi aprendiz de Agrippa em seus últimos anos e conheceu sua combinação de adesão à sabedoria antiga e às artes mágicas com um fideísmo cético semelhante ao de Gianfrancesco Pico, mas que, para Agrippa, não tornava falsas as artes e ciências, apenas limitadas, pois a revelação só se apreende pela fé em Cristo infundida por Deus, ao passo que sobre as coisas criadas é lícito filosofar e raciocinar sem nelas depositar fé e esperança.

10. Weyer, que defendeu a piedade de Agrippa contra acusações de magia negra, aproximou-se mais de Gianfrancesco ao considerar as artes mágicas não só incertas, mas perniciosas, e sua obra, publicada no último ano de Trento, situa-se no início da intensificação da caça às bruxas e da destruição, pela Igreja renovada, da mistura natural de paganismo e cristianismo que sustentava as massas camponesas.

11. Weyer transformou a história do erro pagão numa história de infiltração demoníaca, em que os antigos sábios são instrumentos do diabo, numa linhagem de trevas que parte dos anjos caídos, passa pela queda de Adão e Eva e pela corrupção de Cam e chega a seu filho Misraim, identificado com Zoroastro, inventor da magia ímpia, da qual descendem egípcios, babilônios e persas, que encheram o mundo de idolatria, transmitida aos gregos por filósofos como Pitágoras, Demócrito e Platão em suas viagens.

12. De volta de suas viagens pelos centros de saber do Egito, Síria, Judeia, Caldeia, Assíria, Pérsia, Arábia, Etiópia e Índia, esses filósofos exaltaram a arte mágica e a preservaram entre seus ensinamentos secretos.

13. Para Weyer, a magia é idolatria, culto dos deuses pagãos, que são demônios, embora admita a contragosto uma magia natural aceitável, como a dos Magos que seguiram a estrela, quase sempre confundida com superstição, feitiçaria, teurgia e imposturas demoníacas, assim como a Cabala, originalmente interpretação secreta da Lei, corrompida pela magia, prosseguindo a linhagem idolátrica com os neoplatônicos e originando as heresias cristãs a partir de Simão Mago, gnósticos, valentinianos, marcionitas e montanistas, até Juliano, o Apóstata, Roger Bacon, Pedro de Abano, Alberto Magno, Arnaldo de Vilanova, “Picatrix” e Cecco d'Ascoli, destruídos pelos demônios que deles se serviram.

14. A genealogia de Weyer, talvez por influência de Agrippa, não inclui os platônicos florentinos nem dá a Platão especial destaque, mas constitui exemplo perfeito de orientalismo platônico invertido, linhagem que parte de Zoroastro e do Oriente, passa aos gregos e aos neoplatônicos como genealogia demoníaca de trevas, o que lhe permite prolongá-la às heresias gnósticas, conexão que se tornaria cada vez mais comum.

15. Os tratados posteriores contra a feitiçaria repetem de modo sumário e derivado a narrativa de Weyer, com Zoroastro inspirado por Satanás na origem e os platônicos como culpados principais, passando a incluir os humanistas florentinos, como faz Jean Bodin na caótica “Démonomanie des sorciers” de 1580, que vê na magia persa uma filosofia pervertida em feitiçaria diabólica, inclui Sócrates, Jâmblico, Proclo, Plotino, Porfírio e Juliano na linhagem e destaca Pico e sobretudo Agrippa, grande doutor da arte diabólica.

16. O jesuíta Martín del Río, nas “Disquisitionum magicarum libri sex” de 1599, tratou sistematicamente a magia como superstição inseparável da idolatria, distinguindo com mais respeito uma magia natural legítima, oriunda do saber concedido a Adão, de uma magia demoníaca ligada a Marcião e Mani, e listou autores inspirados pelo diabo ou suspeitos de heresia, de Pedro de Abano e Llull a Agrippa, Paracelso, Cardano, Della Porta, Pico e até Bodin, revelando a censura contrarreformista em pleno curso, mas evitando enfatizar uma genealogia platônica das trevas, por ter de navegar entre a associação do platonismo à magia diabólica e as origens semelhantes da própria doutrina católica, verdadeira bomba-relógio intelectual que explodiria no século XVII.

17. A repressão católica ao platonismo intensificou-se nos anos 1590, provocada pela “Nova de universis philosophia” de Francesco Patrizi, de 1591, síntese orientalista platônica dedicada a Gregório XIV como instrumento de conversão pacífica de protestantes e muçulmanos e proposta, virulentamente antiaristotélica, como manual substituto da escolástica em todas as universidades, inicialmente bem acolhida com um convite para ensinar em Roma por iniciativa do futuro Clemente VIII, sob cujo pontificado Bruno, que nisso vira um sinal favorável, seria executado.

18. A acolhida inicial de Patrizi é notável, pois ele relegava os patriarcas e profetas hebreus ainda mais que Ficino em favor dos filósofos pagãos, fazendo partir sua linhagem da sabedoria de Cam, identificado com Zoroastro ou pai deste, contemporâneo de Abraão e conhecido no Egito como Osíris, cujo conselheiro Hermes Trismegisto teria um neto homônimo autor do “Corpus Hermeticum” antes de Moisés, sabedoria levada à Grécia por Orfeu e transmitida de Aglaofemo e Pitágoras a Platão, interrompida por Aristóteles, retomada pelos neoplatônicos e, após o declínio medieval aristotélico, revivida por Llull, Ficino e Paracelso.

19. A obra de Patrizi, percebida como provocação pelos defensores da escolástica, aumentou o sentimento antiplatônico e foi proibida em 1594, sendo ele humilhado e obrigado a recolher todos os exemplares, embora pudesse ensinar até a morte em 1597, o que mostra que no início dos anos 1590 o debate sobre o platonismo não estava encerrado e uma philosophia perennis à maneira de Steuco ainda tinha credibilidade, como atesta o tratamento equilibrado de Platão na “Bibliotheca selecta” de Possevino.

20. Em 1594 surgiu do mesmo meio contrarreformista um ataque maciço ao platonismo, o “De Platone caute legendo” de Giovanni Battista Crispo, sucessor do “Examen vanitatis” na historiografia da filosofia e marco inicial do debate seiscentista sobre o “platonismo dos Padres”, primeiro volume de um projeto inacabado sobre todos os filósofos pagãos a serem lidos com cautela, impresso sem aprovação eclesiástica, mas ostentando os nomes de altos dignitários, o que lhe conferia caráter intimidante.

21. O livro abre com um catálogo de autores a serem lidos com cautela, de Zoroastro, Hermes e Orfeu aos pré-socráticos, Platão, Aristóteles, médio e neoplatônicos, filósofos muçulmanos medievais, Pletão e Leão Hebreu, criticando também Ficino, Bessarion, as comparações odiosas de Steuco e o fenômeno monstruoso da Cabala.

22. O ataque de Crispo, beligerante e repleto de metáforas militares, parte de Satanás, que, desde a descida da verdade celeste com Cristo, usou os filósofos gentios, patriarcas dos hereges, contra ela, e atribui aos Padres o erro fatal de, em vez de afirmar a verdade exclusiva cristã, praticar uma “religião comparada”.

23. Os Padres permitiram comparar a religião sagrada com a profana, o Deus imortal com homens divinizados e os anjos e santos com demônios, lares, fantasmas e gênios.

24. Entrando nessa indigna arena da comparação, os Padres atribuíram aos deuses gregos e depois aos egípcios o que havia de piedoso, tornando doméstica e oculta a guerra contra o paganismo, pois, vencida a batalha externa, trouxeram para casa como prisioneiros os grandes comandantes inimigos, Zoroastros, Mercúrios, Sócrates, Platões, Aristóteles, Proclos e Plotinos, entre os quais Platão.

25. Platão, porta-estandarte inimigo impregnado das superstições gregas e estrangeiras, acolhido com benevolência excessiva, fortaleceu seu espírito excepcional com o conhecimento dos povos e a viagem ao Egito e, com sua eloquência inata, pareceu ter atingido o cume da sabedoria grega ao discorrer sobre Deus, a trindade, a providência, a criação, as mentes celestes, os demônios, a alma e a moral.

26. Daí vieram a primeira queda no mal, a difusão das vozes ambíguas dos hereges, a infiltração de superstições, mentiras e depravações na Igreja e a guerra nefanda dos hereges contra seus muros e portas.

27. A sabedoria e a eloquência de Platão seduziram seus vencedores, como mostram Clemente, Orígenes, Justino, Eusébio, Teodoreto e Agostinho, levando Crispo a concluir que Platão deve antes ser corrigido ou lido com cautela do que mantido como prisioneiro de guerra, pois fez muitos desertarem do exército de Cristo, sendo fonte das heresias gnósticas, do arianismo, do donatismo e até de Lutero, Calvino e Melanchthon, a ponto de todo herético lhe parecer platônico por definição.

28. Embora sobretudo sistemática, a obra de Crispo foi decisiva na passagem da história da verdade fundada na philosophia perennis para perspectivas propriamente históricas, ao tratar os Padres não como autoridades inquestionáveis, mas como homens falíveis influenciados pela filosofia pagã e a serem lidos criticamente, tornando-os objetos de investigação histórica, sem perceber que forjava uma arma que se tornaria cada vez mais afiada nas mãos dos protestantes, destruiria o cristianismo platônico renascentista, voltar-se-ia contra a teologia católica e o dogma da Trindade e acabaria ameaçando os próprios protestantes, abrindo caminho à secularização e ao Iluminismo.