HANEGRAAFF, Wouter J. Esotericism and the Academy: Rejected Knowledge in Western Culture. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
Introdução — Aqui há dragões
1. A história da verdade: recuperando a sabedoria antiga
2. A história do erro: exorcizando o paganismo
3. O erro da história: imaginando o oculto
4. A verdade da história: entrando na academia
Conclusão — Restaurando a memória
Introdução
1. Existe na cultura e na história ocidentais um domínio vagamente percebido, mas difícil de definir e nomear, designado por termos ambíguos como esoterismo, hermetismo, ocultismo, magia, misticismo, superstição ou irracional, presente em livrarias, na inspiração de artistas e nas advertências de teólogos, que costuma despertar reações emocionais de desconforto, desprezo, divertimento ou curiosidade, mas raramente uma investigação persistente sobre sua natureza, origem, coerência e papel na sociedade e na história.
2. O interesse por essas questões, sobretudo entre intelectuais e acadêmicos, encontra um ponto de partida exemplar no livro “Pansophie”, de Will-Erich Peuckert, que revela autores como Ficino, Agrippa, Paracelso e Böhme, cujas ideias complexas, situadas numa terra de ninguém entre filosofia, religião, literatura, arte e ciência, longe de marginais, exerceram enorme influência e deram origem a tradições intelectuais que se estendem até o presente, constituindo um mundo desconhecido inexplicavelmente ausente da formação acadêmica.
3. O desconforto dos professores diante desse tema, tratado como batata quente repassada de colega em colega, revelou um continente intelectual raramente presente nos mapas do saber respeitável, salvo com a advertência de que ali há dragões, para o qual existiam poucos guias confiáveis, cujos raros exploradores sérios se restringiram a uma única região ou o descreveram sem conhecer suas línguas, e cujos contornos gerais quase ninguém tentou mapear, divergindo os poucos que o fizeram até quanto a suas fronteiras.
4. Nos últimos vinte anos, a situação começou a melhorar, passando de uma única cátedra acadêmica dedicada ao campo como um todo para ao menos três na Europa, acompanhadas de periódicos, sociedades científicas, conferências e numerosas publicações que atraem um número crescente de estudiosos para o que talvez fosse a maior terra incógnita da pesquisa acadêmica moderna, agora designada consensualmente como esoterismo ocidental.
5. Em vez de mapear o domínio ou narrar sua história, a proposta consiste em reconstituir a história de como estudiosos e intelectuais o imaginaram desde que seus contornos começaram a ser traçados, revelando que muitos projetaram sobre ele suas esperanças ou temores, vendo-o como paraíso perdido, reino demoníaco ou refúgio de tolos, mas sempre como domínio do Outro, país estranho regido por outras leis que desafia a própria identidade de quem o observa e diante do qual se procura afirmar que não somos como eles.
6. As percepções do esoterismo ou do oculto estão inextricavelmente ligadas à autoimagem dos intelectuais e acadêmicos, cuja identidade depende de uma rejeição implícita de sua imagem especular invertida, de modo que, se as suposições herdadas sobre esse campo se revelarem construções ideológicas e estereótipos em vez de resultados de investigação imparcial, os fundamentos dessa própria identidade terão de ser reconsiderados, pois os construtos da alteridade esotérica são simultaneamente construtos de nós mesmos.
7. Explorar os espaços em branco nos mapas do saber e enfrentar seus dragões é empreendimento arriscado que deve transformar profundamente quem o realiza, pois retornar inalterado significaria a vitória dos dragões, e acompanhar ao longo de seis séculos os estudiosos que o tentaram deve levar intelectuais e acadêmicos a perceberem que seu mundo familiar já não parece o mesmo.