HANEGRAAFF, Wouter J. Western esotericism: a guide for the perplexed. London ; New York: Bloombury, 2013.
1. A religião é muito mais que crença, sendo em grande medida algo que se faz, como rezar, ir à igreja, meditar, confessar-se, acender velas, cantar hinos, comungar, fazer penitência, estudar as escrituras, celebrar festas ou peregrinar, de modo que fazer e recusar fazer certas coisas é essencial ao ser religioso, e, sendo o esoterismo parte integrante da religião ocidental, nenhum panorama é completo sem atenção a suas dimensões práticas, talvez o aspecto mais difícil de estudar e compreender do campo.
2. A primeira dificuldade é a das fontes, pois as crenças são escritas e transmitidas com mais facilidade e precisão que as práticas, aprendidas oralmente, pela experiência cotidiana ou pela imitação e raramente descritas por escrito, o que torna as crenças esotéricas mais bem conhecidas que suas práticas.
3. A segunda dificuldade é a da descrição verbal, pois as práticas, sobredeterminadas por inúmeros detalhes que envolvem todos os sentidos, são muito mais difíceis de descrever que as teorias, de modo que mesmo as fontes existentes sobre práticas esotéricas tendem a ser incompletas.
4. A terceira dificuldade é o viés (cripto)protestante das abordagens clássicas da religião, marcadas por uma polêmica implícita contra o catolicismo como prática criptopagã, que produziu ênfase excessiva na doutrina e na crença e desatenção ao ritual, levando a maioria dos estudiosos a privilegiar a história das ideias ou o discurso esotérico e a evitar as práticas mesmo ao estudar correntes contemporâneas.
5. A quarta dificuldade é a do método, pois, mesmo reconhecida a importância da prática, é difícil definir metodologias adequadas, e, embora os antropólogos tenham experiência com a pesquisa participante e interesse crescente pelo esoterismo contemporâneo, a aplicação de abordagens antropológicas a materiais históricos permanece excepcional.
6. Por essas razões, o conhecimento das práticas esotéricas é muito menos desenvolvido que o de suas ideias e organizações, não havendo estudos gerais do domínio, de modo que se propõe apenas um primeiro mapeamento segundo oito finalidades, controle, conhecimento, amplificação, cura, progresso, contato, unidade e prazer, categorias não mutuamente exclusivas, já que um mesmo conhecimento pode servir ao controle, à cura ou ao progresso espiritual e o contato com anjos ou demônios pode visar conhecimento, controle ou conselho médico.
7. O principal obstáculo ao estudo da prática é o conceito de magia como categoria universal oposta à religião e à ciência, criado por antropólogos e sociólogos de gabinete das escolas de Tylor, Frazer, Mauss e Durkheim no prolongamento das polêmicas iluministas contra a superstição, herdeiras das polêmicas protestantes contra o paganismo e a heresia, tríade magia-religião-ciência carregada de preconceitos etnocêntricos e moralistas que distorce sistematicamente a história da religião na Europa e fora dela e faz perceber automaticamente as práticas esotéricas como mágicas e distintas da religião “genuína”, isto é, do cristianismo e do protestantismo, devendo ser abandonada para compreender a complexidade da religião ocidental.
8. O termo magia adquiriu significados históricos específicos que devem ser estudados, mas as práticas a que se refere cabem facilmente nas categorias de religião e ciência, pois invocar anjos ou demônios é atividade religiosa e estudar as forças ocultas da natureza na magia natural é ciência ou filosofia natural incipiente, servindo a terceira categoria apenas para distinguir o verdadeiro do falso, objetivo normativo alheio à pesquisa histórica, crítica que vale tanto para o uso negativo da magia como Outro falso ou maligno quanto para seu uso positivo como visão de mundo encantada oposta ao dogmatismo religioso e ao materialismo científico.
9. Os exemplos apresentados para cada uma das oito categorias são apenas ilustrativos e não exaustivos, destinando-se a dar uma ideia da complexidade do campo.
Controle
1. A primeira categoria abrange práticas pelas quais se busca influência ou poder sobre a realidade, nascidas em geral da vulnerabilidade humana diante de circunstâncias ameaçadoras, como o uso de amuletos e talismãs para proteção contra doenças, morte ou más intenções alheias, mas também para prejudicar inimigos, despertar amor ou consentimento sexual por filtros e encantos ou obter poder e riqueza, como tesouros ocultos, explicando-se sua eficácia por causas naturais, como forças ocultas de simpatia e antipatia, ou pela ajuda de agentes sobrenaturais como demônios ou anjos.
2. Essas práticas constituem em geral uma religião de autoajuda sem pretensões intelectuais, presente desde a Antiguidade até a atual indústria multimilionária de manuais para obter amor, felicidade e riqueza e de cristais vendidos em lojas Nova Era, e, embora a busca de controle exista também em níveis intelectuais mais elevados, desempenha papel menor do que se supõe mesmo entre magos e ocultistas declarados, como Aleister Crowley, cuja definição da magia como ciência e arte de provocar mudanças conforme a Vontade não visava poderes à maneira de Harry Potter, mas a autorrealização pela descoberta da “verdadeira Vontade”, de modo que o tópico sensacional da sede ilimitada de poder pertence mais aos estereótipos mnemo-históricos sobre a magia e o oculto do que às fontes históricas do esoterismo.
Conhecimento
1. A segunda categoria abrange práticas de aquisição de informação, como a ars notoria medieval, que buscava obter o conhecimento das artes liberais e da retórica por meios artificiais, invocando a sabedoria, ciência e inteligência concedidas por Deus a Salomão e recorrendo a ritos complexos, purificações, confissão, figuras, orações e invocações com palavras obscuras, práticas não sancionadas e às vezes perseguidas pela Igreja, mas populares num “submundo clerical” de monges instruídos, que perduraram até o século XVII e foram centrais para John Dee, cujas conjurações angélicas visavam obter conhecimentos de filosofia natural inacessíveis por outros meios, combinando a tradição salomônica com a vidência em transe de Edward Kelley no espelho negro, exemplo de alterações de consciência rituais usadas para pretensões de conhecimento do domínio da razão e não da gnose.
2. A busca de conhecimento sobre o passado, o presente e sobretudo o futuro é central nas artes divinatórias, conceito vago derivado das “Etimologias” de Isidoro de Sevilha, que abrange práticas de atribuição de sentido a sinais tidos por insignificantes pelos céticos, como sortes, fisiognomia, quiromancia, geomancia, tarô e interpretação dos sonhos, técnicas fundadas em alterações de consciência pela contemplação de superfícies refletoras, como a catoptromancia de Kelley e as bolas de cristal populares no ocultismo oitocentista, e a astrologia como técnica de previsão, escolha de momentos propícios e conhecimento psicológico pelo horóscopo natal, sem esquecer que os praticantes de magia natural, alquimia e astrologia se dedicavam também à observação empírica e à experimentação, fazendo ciência ou filosofia natural do início da modernidade.
Amplificação
1. A terceira categoria abrange práticas destinadas a ampliar ou maximizar o alcance e a qualidade das capacidades naturais, como no “De vita coelitus comparanda” de Ficino, cuja chamada magia astral visava maximizar a exposição às influências benéficas dos astros segundo as leis plotinianas de simpatia e antipatia, prática descrita por seu discípulo Diacceto.
2. Segundo Diacceto, quem deseja adquirir dons solares espera que o sol suba em Leão ou Áries, no dia e na hora do sol, veste-se com manto dourado e coroa de louro, queima mirra e incenso num altar de matéria solar sobre chão coberto de heliotrópios, possui uma imagem do sol em ouro ou pedras correspondentes, unge-se com unguentos de açafrão, bálsamo e mel, canta o hino do sol com harmonia tríplice de voz, cítara e corpo e acrescenta, como o mais importante, uma disposição emocional intensa da imaginação, que, como nas gestantes, imprime o espírito e, saindo pelos canais do corpo e sobretudo pelos olhos, faz fermentar e solidificar o poder celeste afim.
3. Essa descrição única mostra uma prática ritual que satura deliberadamente todos os sentidos e a imaginação com as potências solares para melhorar o bem-estar espiritual, mental e corporal, prefigurando notavelmente os métodos contemporâneos de saúde holística praticados em centros como Esalen.
4. Enquanto a magia astral de Ficino maximizava o potencial humano manipulando as condições ambientais num ritual controlado, outras práticas treinavam as capacidades, como a mnemotécnica antiga e medieval, de que Giordano Bruno era especialista, baseada no treino sistemático da visualização, capacidade que se tornou essencial na magia ritual ocultista do final do século XIX, como na Golden Dawn, no Ritual do Pilar do Meio, em que o praticante visualiza a energia universal descendo como luz pelas sefirot correspondentes a seu corpo, e na viagem astral através de um hexagrama visualizado como porta para outro mundo da imaginação reificada, sendo o treino da visualização central, segundo Tanya Luhrmann, na “deriva interpretativa” de iniciação na magia ritual e onipresente nos manuais Nova Era.
5. Os esoteristas modernos e contemporâneos distinguem a mera fantasia da verdadeira imaginação, faculdade de percepção de realidades de algum modo ontologicamente reais, perspectiva implícita na característica faivriana de imaginação e mediações e próxima do mundus imaginalis de Corbin, segundo a qual ampliar a capacidade de visualizar equivale a treinar a capacidade de receber visões verdadeiras de outros mundos.
Cura
1. A quarta categoria abrange práticas de cura de doenças corporais ou mentais, dimensão importante do esoterismo que se sobrepõe às anteriores, pois a doença pode ser atribuída à malícia alheia e combatida com amuletos, a busca de conhecimento visa frequentemente a informação médica e a magia astral de Ficino destinava-se aos intelectuais ameaçados por Saturno, sendo numerosas as figuras esotéricas médicas, psicólogas ou psiquiatras, como Ficino, “médico das almas”, e Paracelso, inovador da medicina, ambos vendo a doença como consequência do estado caído e a cura radical como regeneração espiritual, fazendo de Cristo o curador supremo, enquanto a alquimia se ligava à experimentação médica, com o elixir da vida como medicina universal e a iatroquímica paracelsiana, e os rosacruzes da “Fama” eram descritos como irmandade de curadores gratuitos.
2. O magnetismo animal de Mesmer, concebido como método universal de cura, estendeu-se pelo sonambulismo também à mente, e Justinus Kerner publicou livros sobre pacientes sonâmbulos ou possessos com métodos de tratamento que incluíam amuletos, tradição mesmérica romântica alemã que está na origem da descoberta do inconsciente, da psicologia e da psiquiatria modernas e da psicologia analítica de Jung, quase uma forma sofisticada de esoterismo aplicado, bem como do Novo Pensamento, florescendo essas curas alternativas nos movimentos de saúde holística desde os anos 1960, com cristais, transes, remédios naturais, afirmações positivas, práticas neomesméricas como o reiki e medicinas enteogênicas como a ayahuasca.
Progresso
1. A quinta categoria abrange práticas de avanço no desenvolvimento espiritual pessoal, naturalmente expresso pela imagem da viagem, como em “O Peregrino” de Bunyan ou no “Labirinto do Mundo e Paraíso do Coração” de Comenius, e acompanhado por regimes estruturados de oração e meditação em mosteiros, comunidades ou vidas individuais, de modo que na Europa medieval e moderna a prática esotérica mal se distingue da prática cristã em geral, diferindo comunidades teosóficas como os Filadélfios ou os Irmãos Angélicos de Gichtel mais pelo conteúdo de suas crenças e experiências que por suas práticas devocionais.
2. Exemplos mais evidentes encontram-se nas cerimônias da maçonaria e das organizações esotéricas nela inspiradas, cujas iniciações progressivas encenadas como dramas, de Aprendiz, Companheiro e Mestre aos altos graus esotéricos, supõem um avanço ordenado da ignorância profana a estados de visão espiritual cada vez mais elevados, não como mera aquisição de saber, mas como aperfeiçoamento de si como pedra útil no grande edifício do mundo, segundo o modelo das antigas irmandades pitagóricas e a reserva das verdades superiores aos dignos, em consonância com as ideias de progresso humano pela educação de Rousseau e Lessing.
3. O ideal de trabalhar sobre si e progredir espiritualmente pela prática disciplinada integrou-se ao ocultismo desde o século XIX, em paralelo ao evolucionismo, pois, se a consciência humana evolui, convém evoluir também pessoalmente, seja simbolicamente por rituais iniciáticos, seja na vida individual pela disciplina consciente dos pensamentos e atos, pela meditação diária ou por outras técnicas, com sistemas completos propostos por mestres como Gurdjieff e Steiner e uma oferta impressionante de programas de formação de empreendedores esotéricos.
Contato
1. A sexta categoria abrange práticas de comunicação com entidades situadas além dos sentidos, busca dominante em toda a história do esoterismo ocidental, desde a teurgia neoplatônica, destinada a dispor a mente humana à participação nos deuses, até as formas medievais de magia cerimonial, demoníaca, ou necromancia, com círculos mágicos, sacrifícios, fórmulas, caracteres e fumigações, e angélica, com longas orações à Trindade e aos anjos, jejum, confissão, silêncio e meditação, prova da inadequação da categoria magia para práticas igualmente religiosas, tradições prolongadas no Renascimento por Tritêmio e Dee, pontas de um iceberg de figuras menores esquecidas.
2. Swedenborg atribuía seu contato diário com espíritos e anjos à graça divina, pouco se sabendo de suas técnicas além de referências à respiração circular, ao passo que as técnicas mesméricas de indução de transe produziam visões rotineiras de espíritos, como na Vidente de Prevorst, e foram usadas pelos médiuns espíritas após 1850, e com a Teosofia e ocultistas como Randolph, que propôs uma hierarquia sétupla de entidades, o leque de seres contatáveis expandiu-se quase ilimitadamente, supondo os canais Nova Era um universo multidimensional com infinitas formas de consciência.
3. Segundo um desses canais, há muitos níveis de guias, entidades, energias e seres em cada oitava do universo, como senhores, mestres ascensos e senhores das frequências galácticas, todos disponíveis para serem escolhidos segundo os próprios mecanismos de atração e repulsão.
4. Um canal chegou a afirmar contato com “O Comitê”, consciência geométrica composta de uma linha, uma espiral e um triângulo multidimensional, num cenário contemporâneo em que as fronteiras entre esoterismo e ficção científica se apagam a um grau inédito, tornando real e contatável tudo o que se possa imaginar e produzindo uma torrente infindável de mensagens e ensinamentos recebidos por técnicas de alteração da consciência, da meditação e visualização à respiração e às substâncias enteogênicas.
Unidade
1. A sétima categoria abrange práticas de superação da separação, sendo a união com Deus um caso limite que depende da inclusão do misticismo, categoria problemática porque os místicos clássicos relatam experiências muito mais variadas e porque foi teologizada e distorcida por ideologias sobre o misticismo verdadeiro ou falso, coincidindo a busca da união perfeita com Deus sobretudo com a minoria dos radicais metafísicos, pois a distinção cristã entre Criador e criatura, mediada por Cristo, e o individualismo moderno, avesso à aniquilação da alma no oceano do Uno, desfavoreceram essa meta, embora a neurobiologia dos estados extáticos sugira que experiências de união são inerentes à fenomenologia das alterações de consciência e relatadas independentemente da teologia.
2. Dada a predominância do panenteísmo no esoterismo ocidental, a superação da separação significa antes unidade com o cosmo, onde Deus está invisivelmente presente, que união acósmica com o Uno, não como aniquilação da individualidade, mas como consciência da conexão inseparável com toda a realidade, como no “Corpus Hermeticum” XI e no XIII, que induz essa experiência por uma iniciação que inclui o exorcismo dos demônios do corpo do discípulo, técnica de cura que remove os atormentadores que bloqueiam seu progresso, experiências semelhantes espalhadas no corpus esotérico até hoje, como a juventude da psicóloga transpessoal Jean Houston, que em 1982 publicou exercícios de ampliação das capacidades e evocou sua própria experiência de unidade cósmica.
3. Houston relata que, sem visões nem luzes, sentiu de repente a porta do universo abrir-se e tudo, inclusive ela mesma, entrar em significado, tornando-se parte de uma Unidade, uma ressonância sinfônica em que cada parte iluminava as demais, nada sendo alheio ou distante, estando a estrela mais longínqua ao lado e o mistério mais profundo claramente visível, como se soubesse tudo e fosse tudo.
Prazer
1. A oitava categoria abrange práticas que não são meios, mas fins em si mesmas, realizadas não para obter poder, conhecimento, capacidades, cura, progresso, contato ou unidade, mas simplesmente pelo gosto de praticar, embora se sobreponha a outras categorias, já que o aumento do bem-estar e das capacidades e a experiência de unidade cósmica são em si prazerosos.
2. O exemplo principal é o ritual, pois muitos maçons, além de progredir pelas iniciações, comprazem-se no jogo sério de vestir trajes cerimoniais e desempenhar papéis num elaborado teatro ritual, prazer acrescido pela fuga temporária da sociedade e pela possibilidade de ascender socialmente na loja mesmo tendo vida modesta fora dela, como o iluminista Willermoz, simples comerciante de seda que se tornou uma das figuras mais poderosas do universo paralelo da maçonaria.
3. O mesmo vale para inúmeras organizações esotéricas modernas e contemporâneas, que criam universos paralelos com sociabilidade e rituais próprios no meio cúltico, como na Wicca e em outros paganismos, cujos participantes valorizam estar entre pessoas afins, partilhar visões e valores e realizar rituais que reforçam o senso de comunidade, sendo prazeroso cantar e dançar juntos e, segundo muitas bruxas modernas, até invocar os deuses.
4. A classificação em oito categorias é apenas uma tentativa preliminar de mapear a enorme variedade do que se faz no esoterismo ocidental, exigindo mais pesquisa, mas seu estudo detalhado amplia e transforma a compreensão da religião ocidental, pois, descartada a categoria normativa e enganosa de magia, criada para separar essas práticas das formas respeitáveis de culto, verifica-se que a maior parte do que se via como magia pode ser descrita como religião, ciência ou filosofia natural, enquanto o que se via como religião se revela repleto das mesmas práticas.