MATTHEWS, Caitlin; Celtic wisdom. Celebrating the seasons
INTRODUÇÃO
1. Segundo a Apgitir Chrábaid atribuída a Colum Cille, assim como uma lanterna ergue sua luz numa casa às escuras, a verdade surge em meio à fé no coração de uma pessoa.
2. As Tradições de Sabedoria Célticas, apresentadas a muitas pessoas ao longo de trinta anos, oferecem nesta pequena caixa dons de grande sabedoria, embora nem tudo o que nela se encontra esteja escrito, pois parte do conhecimento só se descobre pela participação pessoal ao acompanhar o curso das estações.
3. Onde quer que se viva e qualquer que seja a origem, todo ser humano é habitante da terra viva, sem precisar descender dos povos celtas da Europa para compreendê-lo, já que todos estão intimamente aparentados por certos ancestrais comuns, e o modo mais respeitoso de caminhar sobre a terra encontra-se no tesouro de sabedoria de todas as tradições-raiz do mundo, anteriores às grandes religiões, pois cada país tem sua própria sabedoria e a Sabedoria Céltica, como a aborígine, a dos povos nativos americanos e a africana, é herança de todos os seres, convindo, assim como se comem os frutos, cereais e alimentos básicos da própria região para nutrir o corpo, recorrer às tradições de sabedoria da própria localidade e ancestralidade para nutrir a alma.
A SABEDORIA NOS TEMPOS MODERNOS
1. As conexões globais do comércio e da troca, da mídia e da internet começaram a corroer a apreciação do lugar onde se vive e dos costumes e saberes locais que sustentam a sociedade, enquanto as necessidades econômicas do trabalho e do sustento da família deixam pouco espaço para saborear o momento presente e a convivência pacífica com os vizinhos do mundo se torna um desafio em toda parte, desafio mais fácil de enfrentar vivendo fielmente segundo os próprios costumes e lembrando que o mundo não existe apenas para benefício da humanidade, pois cada rocha, árvore, lago, estação e ser tem sua sabedoria e a bela terra não é só o ambiente em que se vive, mas também mestra para quem atende à sua sabedoria, como exprime uma tríade céltica, dito sábio tríplice conservado e transmitido oralmente pelos aos dána, o povo da arte, segundo a qual as três velas que iluminam toda escuridão são a verdade, a natureza e o conhecimento.
2. Quando os ladrões de luz se apoderam dessas três velas, resultam caos, confusão ou ignorância, pois o obscurecimento da natureza trai as próprias leis da vida, a perda da verdade põe mentiras nos lábios e a deformação do conhecimento torna os homens estranhos uns aos outros, mas quando essas velas são honradas brilham interiormente e tornam de novo honrados os atos, as palavras e os pensamentos, fazendo a luz voltar, e os humanos mais heroicos são lembrados por terem honrado essas velas mais que a própria vida em tempos de trevas, erguendo-as para que outros pudessem viver livres na luz.
3. A tríade mostra que a Sabedoria Céltica, como todas as tradições-raiz do mundo, é um modo de vida para todos os dias, não reservado a lugares, tempos e ocasiões sagrados, e que os tempos e as estações que demarcam a vida são aliados espirituais que acompanham cada dia e podem abrir caminhos de compreensão.
OS CELTAS
1. Os povos que vivem hoje na Escócia, no País de Gales, na Ilha de Man, na Cornualha, na Bretanha francesa e na Galiza, no norte da Espanha, descendem de povos de língua céltica cuja cultura se espalhou pela Europa a partir de 1000 a.C., e muitos europeus têm ancestrais celtas descendentes dos primeiros povos caçadores-coletores que os precederam, já que durante a Era do Gelo o norte da Europa era inabitável e todos tiveram de recuar para o sul ou morrer, e os que se retiraram para o sul da França e da Espanha voltaram depois para povoar a Grã-Bretanha e a Irlanda, mostrando claramente as pesquisas de DNA que muitos habitantes atuais dessas regiões descendem dos celtas.
2. Os escritores clássicos distinguiam a cultura céltica da dos demais povos da Europa, caracterizada por guerreiros caçadores de cabeças governados por reis e chefes, orientados por druidas, videntes e poetas, chamados aos dána na Irlanda, que mantinham uma tradição oral de sabedoria, e sustentados por agricultores e artesãos, sem que esses povos se chamassem a si mesmos celtas, preferindo seus nomes tribais locais, como os galeses, que se diziam Cambrogi, os companheiros, sendo céltico um termo linguístico que designa os povos falantes de uma língua céltica, usado aqui para todos eles independentemente de sua localização, povos cujos guerreiros serviram como mercenários até no Egito e na Grécia e entre os quais se contavam até os gálatas da Ásia Menor, e cujas terras o poderoso Império Romano reivindicou, tomando primeiro a Gália e depois a Grã-Bretanha, mas nunca a Irlanda, onde uma cultura céltica de florescimento tardio continuou a evoluir através da chegada do cristianismo até a invasão normanda na Idade Média.
O QUE RESTA HOJE?
1. Ao longo dos séculos, a administração inglesa fez muitas tentativas de controlar a língua e os costumes e reprimir a dissidência política na Escócia, na Irlanda, na Cornualha e no País de Gales, empobrecendo enormemente a cultura céltica, e rebeliões, perseguições religiosas, políticas econômicas, expulsões de populações de suas terras e fomes foram seguidas por uma vasta diáspora céltica que levou escoceses, irlandeses e galeses pelo mundo, a outras partes da Commonwealth e além.
2. É um equívoco popular supor que da cultura céltica restem hoje apenas canções, histórias e tradições, pois o reconhecimento de uma identidade e de uma língua célticas distintas e o direito ao autogoverno emergiram com êxito no último século, enquanto estudiosos celtas começaram a traduzir e estudar textos antigos transcritos na Idade Média a partir da memorização oral de bardos, poetas e juízes, permitindo compreender melhor um legado que é direito de nascença e que inclui genealogias, histórias, leis, mitos, poesia e muito mais, além das tradições de narração, música e poesia ainda preservadas na memória dos povos celtas.
OS DONS DE BRIGHID
1. A deusa pan-céltica Brighid é honrada de muitas maneiras, como padroeira dos laticínios, parteira de todas as mães, inspiradora dos poetas e das artes, portadora dos ofícios, curadora dos doentes, achadora do que se perdeu, guardiã do fogo, acendedora da sabedoria e protetora do lar e da família, e seu emblema, a Cruz de Brighid, forma de roda solar colocada sobre portas, estábulos e outras habitações como símbolo protetor, indica que ela vela pelos que estão dentro, tendo originalmente três braços em vez dos quatro da forma posterior, que no entanto se presta bem a representar as quatro estações.
2. Brighid, como Sarasvati na Índia, Minerva na Roma antiga e Sofia na tradição cristã gnóstica, é padroeira da sabedoria, sendo em sua forma antiga a Deusa céltica, filha do Bom Deus, o Dagda, cujos feitos com o tempo se entrelaçaram aos da santa cristã Santa Brígida de Kildare, de cerca de 485 a 530, sem que sua solicitude e compaixão fossem diminuídas pelo tempo ou pelas mudanças de religião, a ponto de ser tida como parteira da Virgem Maria e mãe adotiva de Cristo, recebendo nomes em todas as partes da Grã-Bretanha e da Irlanda, Bride na Escócia, Brigantia no nordeste da Inglaterra, Ffraid no País de Gales e Brighid na Irlanda, e restaurando a unidade dessas ilhas sob sua sabedoria protetora.
3. Os dons de Brighid são para todos, mas cada um os descobre por si ao atravessar as estações, e seu símbolo sagrado do ciclo da vida ensina a apreciar as quatro estações e a engajar-se com o poder de cada momento, tendo cada estação suas oportunidades e ocasiões especiais de celebração, todas estreitamente entretecidas num manto que cobre todos os ombros.
UMA DEUSA PARA HOJE
1. O conceito de deusa pode parecer estranho a quem vive na sociedade ocidental atual, pois nos últimos dois milênios a religião dominante concebeu o divino como monoteísta e masculino, ou ao menos referiu-se a ele no masculino, embora a divindade seja puro espírito e possa apresentar-se à compreensão sob formas masculinas e femininas, como ainda a percebem as tradições-raiz do mundo, e assim como os santos e anjos da tradição cristã são invocados como guardiões de certas qualidades ou funções, também o são os espíritos e divindades dos povos celtas, tendo os missionários, quando o cristianismo chegou à Grã-Bretanha e à Irlanda, as Ilhas, sido aconselhados a manter invioláveis os lugares sagrados e invocar suas divindades como santos, santos que não desapareceram, pois quer se invoque Brighid ou Santa Brígida, ela continua capaz de cumprir sua obra, podendo ser vista como mãe adotiva da Sabedoria Céltica e mentora e guia nessa tradição para qualquer pessoa, já que, vendo o direito espiritual de nascença como um contínuo sagrado e não como uma série de compartimentos religiosos separados, é possível ter acesso à poderosa ajuda dos santos de todas as eras.
2. No mundo aparente vive-se no tempo sequencial, mas nos mundos invisíveis não há tempo e é sempre agora, e embora as percepções da divindade mudem ao longo das eras, a própria divindade é imutável e eterna, fluindo em formas que se podem compreender melhor, de modo que, sem pretender ser teologia ou filosofia profunda, a descoberta da herança de sabedoria presente dentro e em torno de cada um pode estimular a redefinir o modo de compreender o reino do espírito e de relacionar-se com ele ao girar das estações.
ESTAÇÕES DE HARMONIA, RITUAIS DE MARAVILHA
1. A harmonia espiritual está diretamente ligada ao ambiente em que se vive, e os ritmos do ano ajudam a manter o mundo afinado, lembrando incessantemente que se trata de um tesouro precioso a respeitar, num mundo em que o tempo passa em disparada, deixando as pessoas sem fôlego, desorientadas, esquecidas da beleza que as cerca e desrespeitosas dos dons que aguardam reconhecimento e interação, enquanto a simples prática de observar as marés e correntes do ano através das quatro estações conduz a um estado de recolhimento e de engajamento atento nos ritmos do ano que se desdobra, estando os dons e oportunidades de cada estação ao alcance de todos que se dispõem a ouvir e atender.
2. Pela observação diária do tempo e das estações, pela caminhada, pela meditação e pelo ritual alcança-se o equilíbrio interior, sendo a finalidade do ritual levar à harmonia de tudo o que é, o contínuo sagrado da vida que alguns veem como divindade ou Espírito, e ajudar a compreender a conexão vital entre os mundos visível e invisível, pois sempre que se perde a harmonia com tudo o que é, por negligência ou excesso de ocupação, perde-se também a si mesmo, e simples rituais diários de reorientação devolvem ao lugar da verdadeira morada, restabelecendo uma relação respeitosa com as estações, com as demais criaturas e com as fontes espirituais de força, assim como com as intenções profundamente desejadas.
RITUAL
1. Os rituais sazonais são escritos numa linguagem inclusiva de todas as origens e crenças, adequada a todas as pessoas do Espírito, e podem ser celebrados depois do anoitecer na véspera da festa correspondente ou na noite da lua cheia mais próxima, provável momento das celebrações ancestrais, sendo apenas esboços que podem ser enriquecidos com canções, poemas, histórias, mitos ou orações próprios, sem esquecer que sua finalidade principal é manter abertas as conexões com as fontes espirituais, o que exige sempre incluir um silêncio de escuta em que se possa ouvir a voz do Espírito.
ORAÇÃO
1. A oração é parte necessária da comunhão com o Espírito, mas costuma ser entendida apenas como pedido, quando inclui também agradecer, louvar, maravilhar-se, buscar orientação e ajuda e estar atento à realidade mais ampla além do mundo dos sentidos, colocando o ser humano em melhor relação com o universo, e pode ser guiada pela simplicidade quando se atende ao que é necessário no momento, sem exigir montes de palavras em línguas arcanas ou linguagem antiquada, bastando falar com o coração ou cantar um fio conectivo de oração que, como um fio de entrelaçado céltico, forme um padrão que o universo possa compreender, havendo ao longo do livro formas de oração baseadas nas tradicionais loricas, orações-couraça de proteção, a adaptar ao próprio uso e às próprias necessidades.
2. O maravilhamento dá sabor à vida da alma e é redescoberto por quem segue as sugestões de meditação e os esboços de ritual, e à medida que essas práticas se tornam próprias deixa-se de relacionar-se com o livro nas mãos para entrar numa relação viva com tudo o que é, não havendo melhor voto que esse, nem melhor bênção que a de caminhar com alegria, verdade, vigor e compaixão.