Nossas considerações iniciais ultrapassaram a situação inicial do nascimento do Diabo, que já começou sua queda em direção ao primeiro pecado, identificado como a luxúria e, consequentemente, a vida, sendo a cosmogonia moderna um relato, talvez inconsciente de seu caráter diabólico, sobre o caminho desta queda, que sugere que o Céu e a Terra não surgiram juntos, mas que a Terra se condensou a partir dos céus.
A existencialização das abstrações matemáticas da cosmogonia moderna, traduzidas para a linguagem deste livro, propõe a imagem de que, “no princípio,” “os céus” serviram de pião ao Diabo durante sua queda, possuindo dimensão zero e peso infinito, tendo o Diabo chicoteado este pião para fazê-lo girar intensamente, o que provocou sua desintegração em milhões de pedaços de dimensões gigantescas, mas de peso limitado.
A corrida desgovernada destes pedaços desintegrados continua até o presente, fugindo furiosamente uns dos outros e de seu centro abandonado, desintegrando-se em sub-peões, sendo a Mãe Terra apenas um pequeno fragmento deste pião original.
A rotação diabólica causada pelo chicote inicial mantém-se em um impulso constante, animando todos os pedaços em sua fuga, onde as peças maiores (as nebulosas espirais) continuam a girar e a se afastar umas das outras e de seu centro, em direção ao vazio, correndo de zero a zero, como um brinquedo apropriado ao Diabo.
Durante esta corrida do nada para o nada, as peças transformam massa em energia, tornando-se cada vez “maiores” e “mais leves”, de modo que o universo inteiro se expande e perde peso, progredindo de um estado de céus infinitamente pequenos e infinitamente pesados no começo da explosão para céus infinitamente grandes e infinitamente leves no seu final, com o estágio intermediário atual sendo um mundo de dimensões e peso infinitos, mas apreensíveis.
O mito da cosmogonia moderna, quando interpretado da perspectiva do exército celestial e de outros “seres como tais,” é visto como ilusório e sem relação com a realidade, pois o mundo fenomênico não é real, sendo suas fases aparentes também irreais, e o estágio intermediário a fantasmagoria do Diabo.
No entanto, na perspectiva diabólica, este mito é uma história maravilhosa que narra a emergência da realidade, contando como as coisas emergem do nada, onde nebulosas, estrelas, planetas e luas são produtos de uma atividade criativa ex nihilo, ou seja, obras que, sendo do Diabo, manifestam um caráter explosivo e violento.
O caráter catastrófico e infernal dos céus é apenas um aspecto da obra de arte de infância do Diabo (o céu estrelado), o qual é compensado pela harmonia da rotação do pião, com os corpos celestes seguindo círculos, elipses e parábolas de beleza cristalina, consequências perfeitas da rotação primordial.
Esta obra ilustra a primeira tensão dialética do caráter do Diabo: a brutalidade (catástrofe) que torna possível o esteticismo (a beleza das esferas), demonstrando que uma catástrofe brutal viabiliza a beleza das esferas.
Estas esferas, por sua vez, corpos aparentemente bem-comportados, são as condições para uma nova catástrofe: o surgimento violento da vida, confirmando que o Diabo é um criminoso para ser um artista, e é um artista para ser um criminoso, criando leis para quebrá-las e quebrando leis para criar novas.
A tradição ocidental louva a harmonia das esferas como obra Divina, o que deve ser atribuído ao Diabo neste argumento, pois o que se admira no céu estrelado não é sua ordem, mas sua duração gigantesca, confundindo-se esta relativa eternidade com o Divino.
Esta confusão é um mal-entendido, pois os corpos celestes são fenômenos temporais e imperpetua mobilia (móveis não perpétuos), comparáveis às máquinas produzidas pela tecnologia humana, sendo o céu estrelado, se reduzido a dimensões e duração, um exemplo semelhante aos aparatos tecnológicos, com a ressalva de que as máquinas humanas geralmente operam com maior precisão (fato verificado por astrônomos com um leve sorriso).
Seria blasfêmia atribuir esta máquina imperfeita ao Criador Divino, tal como se poderia atribuir a Ele as máquinas humanas destinadas a produzir instrumentos e mortes, concluindo-se que a gigantesca máquina de corpos celestes é obra do Diabo, e o parque industrial humano é sua prole tardia.
Os aparatos humanos são cópias aperfeiçoadas do padrão diabólico que aparece no céu, sendo cópias mais refinadas por serem produto do esforço criativo de um Diabo mais maduro.
Newton, o descobridor provisório da estrutura da máquina celeste (expressável em proposições matemáticas simples), atribuiu a autonomia da máquina a Deus, ao declarar “Deus é um matemático”.
O autor da máquina celeste é um matemático talentoso, mas imperfeito, no qual se reconhece o jovem Diabo brincando com seu pião.
A descoberta de uma estrutura matemática nos fenômenos astronômicos recompensa o espírito de pesquisa humano, permitindo o reconhecimento nas estrelas de um espírito similar ao nosso: o pequeno Diabo que inspira as mentes pesquisadoras, tornando a contemplação do céu estrelado um tipo de autorreconhecimento.
A atração exercida pelas estrelas se explica também pelo fato de que o esboço newtoniano da estrutura celeste está sendo superado, e a humanidade começa a se convencer da capacidade de construir uma máquina celeste mais perfeita.
As tentativas humanas neste sentido (satélites artificiais e mísseis guiados) são os primeiros sintomas de que o pequeno Diabo no interior humano cresceu e busca, através dos humanos, retificar os atos cometidos em sua infância.
Há uma diferença fundamental entre a máquina celeste e os aparatos humanos: as máquinas humanas são produtos da vida, com um propósito, deveres a cumprir e tarefas a executar (caráter intencional e entelequial), o que será tratado no tema da luxúria.
O mundo inorgânico é inconsciente de propósitos, e o termo “propósito” soa falso nele, sendo chamado “inorgânico” por falta de propósito, por ser completamente inútil.
Enquanto no reino da vida os órgãos e seres têm utilidade mútua (o fígado serve para manter o corpo vivo, a mosca para manter a aranha viva, e todos os animais e plantas servem para manter o homem vivo), Marte é inútil para o sol ou para Vênus, não servindo para nada.
A máquina celeste, sendo inteiramente inútil, é um exemplo perfeito de l'art pour l'art, uma obra de “arte abstrata”, e seu criador, o Diabo, é um artista puro.
Uma alternativa é considerar a máquina celeste como condição para a vida, um instrumento concebido para produzir vida na Terra, o que a tornaria um “fraldário gigantesco e desnecessariamente complexo” (a famosa montanha que dá à luz a um rato), transformando o Diabo de artista puro no pai da vida, um ponto que será clarificado em argumentos futuros.