Etimologicamente, a expressão “história do Diabo” possui raízes profundas, pois o termo “história” relaciona-se com camadas (Schichte em alemão) que se sucedem, e o termo “Diabo” evoca a confusão e, de forma perturbadora, o conceito de “Deus”.
Estes acordos etimológicos, que evocam a expressão “história do Diabo”, são aceitos de forma ingênua e acrítica, mas é necessário registrar que, enquanto a Divindade se apresenta de múltiplos aspectos, tornando-se inatingível pelo “embaraço de escolha”, o mesmo ocorre na tentativa de capturar o Diabo.
Em contraste com a Divindade, que é atemporal e simplesmente é, com a corrente dos acontecimentos fluindo alhures, o Diabo é possivelmente imortal, mas certamente emergiu em um dado momento, nadando e, talvez, conduzindo a corrente do tempo, sendo, portanto, histórico no sentido estrito do termo.
É possível afirmar que o tempo começou com o Diabo, e que sua emergência ou sua queda representa o início do drama do tempo, e que “Diabo” e “história” são dois aspectos do mesmo processo.
A tentativa humana de escapar do Diabo é outro aspecto da tentativa de emergir da temporalidade e entrar no reino das Mães imutáveis, mas tal afirmação demonstraria uma atitude negativa em relação ao Diabo, voltando-se contra a investigação os preconceitos nutridos.
Para fazer justiça ao Diabo, que encheu tantos de entusiasmo ao longo da história, e em cujo nome tantos mártires, bruxas e feiticeiros confrontaram as chamas com ardente dedicação, é necessário que a mente esteja livre de preconceitos ao tentar conhecê-lo, ao menos em parte.
A tradição oficial ocidental, da qual somos produto, pinta o Diabo com cores negativas, como o oponente de Deus, mas esta tradição parece estar em declínio, com poucos ocidentais dedicando-se a pintá-lo e as religiões parecendo não ter mais o Diabo encarnado, instalando-se um silêncio no Ocidente em relação ao Diabo, fingindo tê-lo esquecido sob a regra de “não pensar sobre ele”.
Esta atitude questionável contrasta com períodos históricos, como os séculos XIII e XVI, onde o tema do Diabo era pública e apaixonadamente discutido, tempos que eram desconfortáveis para o domínio do Diabo, e uma breve consideração dos tempos atuais e da história recente parece demonstrar como este domínio se consolidou, sendo este um dos motivos deste livro.
A tradição oficial concebe o Diabo negativamente, como espírito sedutor, enganador e aniquilador de almas, atributos que, embora não precisem ser avaliados negativamente (pois permitem a pergunta sobre a “justificação do Diabo” em seu procedimento), predispõem inegavelmente a mente contra ele, e não marcam o ponto de partida para as investigações do caráter diabólico pretendidas por este livro.
Para conhecer seus motivos, métodos e feitos, é necessário buscar outros aspectos mais positivos de seu caráter, o que não deve ser difícil, já que seus efeitos e manifestações são tantos no mundo externo e em nós, que indicações de seus aspectos positivos abundam.
A sinfonia da civilização inteira, cada um dos avanços da humanidade contra os limites impostos pelo Divino, a luta prometeica pelo fogo da liberdade, tudo isto, da perspectiva do Diabo, não passa de sua majestosa obra, ou, da perspectiva oposta, mera ilusão criada por ele.
Ciência, arte e filosofia são os exemplos mais nobres desta obra, e a consideração de como estas atividades se desenvolveram ao longo da história, distanciando-se do pecado original e ingênuo, oferecerá uma primeira visão dos múltiplos aspectos positivos do caráter do Diabo.
Haverá dificuldade em distinguir a influência diabólica da Divina no vasto rio de fenômenos, o que constitui o tema da consciência e da vida humanas, mas o livro propõe simplificar o problema para torná-lo óbvio, chamando “influência Divina” tudo aquilo que tende à superação do tempo, e “influência diabólica” tudo aquilo que tende a manter o mundo no tempo.
Esta simplificação, que se justifica pela tradição milenar do Ocidente, concebe o “Divino” (se puder ser concebido) como aquilo que age no mundo fenomênico para dissolvê-lo e salvá-lo, transformando-o em Puro Ser, ou seja, em atemporalidade, e o Diabo como aquilo que age no mundo fenomênico para mantê-lo, impedindo que seja dissolvido e salvo.
Do ponto de vista do Puro Ser, o “Divino” é o agente criador e o “Diabo”, a aniquilação, mas do ponto de vista do nosso mundo, o “Diabo” é o princípio conservador, e o “Divino” é, eufemisticamente, o fogo purificador do ferreiro.
Estas considerações confundem os conceitos tradicionais de Céu e Inferno, sendo o dever do Diabo manter o mundo no tempo, de modo que uma derrota definitiva do Diabo (por mais inconcebível que seja) seria uma catástrofe cósmica irremissível que dissolveria o mundo, em contradição com a tradição que ensina que Deus o criou.
A partir desta intuição, esboça-se a primeira simpatia pelo Diabo no mais íntimo do ser, pois ele é muito mais próximo do ser humano do que o Senhor, e segui-lo é mais confortável e simples do que seguir obscuros caminhos Divinos, reconhecendo nele um espírito aparentado, talvez tão infeliz quanto o nosso.
A semelhança não deve ser exagerada, pois o Diabo (nesta concepção) conhece o seu dever, e seu projeto é claro, sendo realizado com sucesso admirável especialmente hoje, enquanto os humanos são “livres”, podendo seguir o Diabo ou a Divindade, e, portanto, erram em círculos mal traçados.
O progresso retilíneo é a coisa do Diabo, e a humanidade progrediu graças a ele, mas em termos de estágios, os seres humanos como “seres livres” estão apenas no primeiro dia, enquanto o Diabo segue seu caminho e a história canta a glória de seus feitos.
A humanidade está tão perto, ou tão longe, de seu objetivo, quanto Adão e Eva, e embora alguns pareçam ter alcançado Deus ou o caminho para o Inferno, a grande maioria continua a errar no meio.
A história do Diabo é a história do progresso, e embora o livro devesse ser intitulado “evolução”, o termo causaria mal-entendidos, de modo que evolução, como história do progresso, é a história do Diabo.
Esta evolução se processa em várias camadas, onde o Diabo age de forma diferente, e seu progresso provoca admiração e susto, o que pode ser esboçado, por exemplo, na contemplação do progresso do elixir do amor até a vitamina E, ou da vassoura da bruxa até o “sputnik”.
A tentativa de descrever o caminho do Diabo em múltiplas camadas é uma tarefa empolgante, mas não será o método empregado neste livro, que se limitará a apontar várias fases do progresso diabólico de passagem, focando em uma visão abrangente do Diabo.
O problema será a escolha de uma torre de observação para descrever a paisagem, e duas se oferecem de imediato:
A torre chamada “história”: Comanda uma paisagem de metamorfose de aspectos diabólicos que se sucedem, onde se veria a grande serpente mãe, Arimã, Prometeu, e como estes se transformaram progressivamente no filósofo científico e culto que representa o Diabo hoje.
Esta torre desdobra uma paisagem enganosa, pois as formas aparentemente superadas continuam ativas, e a “psicologia profunda” demonstra sua vitalidade, já que o Diabo continua a agir arquetipicamente nas regiões quentes e obscuras do subconsciente, onde se sente à vontade, sofrendo metamorfose apenas sob a luz mais ou menos clara da consciência desperta.
A evolução do Diabo e a da vida são pelo menos paralelas, sendo o réptil perfeitamente identificável no Diabo sofisticado da idade elegante, e uma das teses do livro será que a evolução da vida não é nada mais do que a encarnação da evolução do Diabo.
Questiona-se quem é mais possuído pelo Diabo: o protoplasma quase inerte dos tempos imemoriais com sua humilde paciência, ou uma formiga devoradora e uma humanidade especulativa?
A torre da história desdobra, portanto, uma paisagem cada vez mais superficial para servir como ponto de observação para este livro.
A torre chamada “introspecção”: Desta o Diabo se revelaria como a força motivadora da maioria das ações e desejos humanos.
Esta torre é altamente sedutora, mas teme-se que, ao subir e descrever sua paisagem, o presente livro não seria publicável.
Ambas as possibilidades devem ser recusadas, e uma terceira deve ser buscada, que é felizmente oferecida pela Igreja Católica através de uma antiga sabedoria, que será usada como método para o desenvolvimento do argumento.
Esta sabedoria ensina que o Diabo apela aos chamados “sete pecados capitais” para seduzir e aniquilar almas.
A Igreja, em sua propaganda antidiabólica, apela a nomenclaturas um tanto enviesadas para denominar estes pecados: “orgulho,” “avareza,” “luxúria,” “inveja,” “gula,” “ira,” e “tristeza ou preguiça”.
Estes termos arcaicos são inócuos e facilmente trocáveis por termos neutros e modernos:
Orgulho: autoconsciência.
Avareza: economia.
Luxúria: instinto (ou a afirmação da vida).
Gula: melhoria do padrão de vida.
Inveja: luta por justiça social e liberdade política.
Ira: recusa em aceitar as limitações impostas à Vontade humana, sendo, portanto, dignidade.
Tristeza ou preguiça: o estágio alcançado pela calma meditação filosófica.
O livro seguirá obedientemente a classificação dos pecados, mantendo seus nomes tradicionais por respeito à sua idade, mas, em sua disposição inicial de evitar preconceitos, não os considerará pejorativos.
O livro tentará descrever a evolução das armas e instrumentos diabólicos nos campos dos sete pecados, sendo sua tarefa histórica, embora este seja um sentido raramente aplicado ao termo “história”.
Desta forma, espera-se esboçar uma visão da situação atual que não é tão óbvia quanto as visões habituais lidas em livros e revistas em voga.
Os sete pecados emergem de diferentes camadas ontológicas e abrangem vários planos distintos:
Economia, política e tecnologia são pecados da camada social da realidade.
Autoconsciência, dignidade e calma filosófica são pecados da realidade psicológica.
Instinto e afirmação da vida pecam na realidade da biologia.
A questão das camadas é complexa, apesar das ontologias da filosofia tradicional, pois as camadas se entrecruzam e não permitem ser organizadas ou separadas.
Essencialmente, todos os sete pecados são um único, sendo pecados da mesma atitude, onde cada pecado inclui os outros, e a Igreja está certa em evitar criar uma hierarquia.
O livro, no entanto, é forçado, por razões metodológicas, a criar uma hierarquia de pecados para servir de estágios da atividade diabólica a ser descrita, embora todos os pecados se refiram ao homem e a Igreja se interesse exclusivamente pelas almas humanas.
A honestidade intelectual (que também pode ser chamada de “senso estético”) exige a consideração da atividade diabólica em campos inumanos, o que levou o primeiro capítulo a apresentar um Diabo pré-humano, isto é, pré-histórico do ponto de vista humano.
O primeiro capítulo apresenta a vantagem de o Diabo aparecer como um agente eticamente neutro, desinteressado pelo homem, permitindo uma contemplação isenta de preconceitos.
Os capítulos restantes serão dedicados aos pecados sensu stricto, ordenados em uma “pseudo-hierarquia histórica”, copiada da imagem da história oferecida pelas ciências naturais:
Luxúria será considerada o primeiro e mais antigo dos pecados, pois é graças a ela que o Diabo se encarnou na matéria morta para eliminar a Divindade.
A distância filosófica, o que a Igreja chama de “tristeza ou preguiça” (ou dégagement, para usar um tom moderno), será considerada o último e mais grave de todos os pecados, pois denota um estágio de evolução já quase supra-humano, onde o homem se supera para se fundir quase inteiramente com o Diabo.
A gradação hierárquica dos outros pecados intermédios será designada de forma mais casual:
Ira será considerada uma consequência da impotência da luxúria ininterrupta.
Gula é outra forma de luxúria, uma luxúria sublimada, transferida para outra camada de realidade.
Inveja será concebida como a antítese dialética da avareza, e ambos como consequências da gula.
Orgulho, como um deslocamento para novas camadas, será considerado um giro reflexivo dos pecados sociais, ou seja, “ensimesmamento”.
Tristeza, ou preguiça, é uma reversão completa, uma luxúria negativa, a negação da vida.
Luxúria e preguiça são os dois polos do campo magnético dos pecados, sendo, portanto, antitéticos em um sentido mais fundamental do que inveja e avareza.
O círculo mágico dos pecados se fecha nesta tensão dialética e pode ser penetrado de qualquer ponto, levando sempre, infalivelmente, ao Inferno, mesmo que gire.
A hierarquia proposta é puramente acidental, repousando levemente na “historicidade” da natureza e informada por preconceitos freudianos, com a luxúria como ponto de partida por ser considerada pelos freudianos a própria fonte da realidade.
Uma construção do círculo a partir da avareza (vista pelos marxistas como a mola mestra da história e da realidade) resultaria em um curso do livro ligeiramente diferente, mas com um resultado muito similar.
O capítulo sobre a luxúria observará as atividades diabólicas da produção da vida, sendo cheio de suco vital.
A Ira, campo da ciência, é um pouco mais seco, mas não menos diabólico.
Segue-se um salto ontológico para a gula, no campo da tecnologia e do paraíso na Terra.
Após os prazeres deste tipo de inferno, o caminho segue para os campos dos Dióscuros inveja-avareza, ou seja, a luta política e social.
O avanço se dará para o orgulho, o capítulo das artes, no qual se espera que surjam os contornos da quintessência do Diabo: a beleza.
“Orgulho” e “tristeza”, os dois últimos capítulos (arte e filosofia), soam diferentes dos anteriores, exercendo um poder diabólico que atrai e forma o objetivo do livro em mais de um sentido.
“Orgulho” e “tristeza” são pecados do espírito, e neste sentido, talvez sejam o objetivo do Diabo e da história da humanidade.
O programa do livro deve ser chamado “diabólico” não apenas por seu tema, mas pela confusão ética da qual brota, característica do momento presente.
O autor está ciente do pecado que comete ao escrevê-lo, e igualmente do pecado que teria cometido se não o tivesse escrito.
O motivo é o de esboçar o cenário atual, no qual o Diabo parece dominar de forma inédita o mundo externo e o íntimo (ou o que antes se chamava a “alma”).
A intenção do livro não é objetiva, embora a objetividade seja um ideal a ser perseguido nas partes das considerações.
Fundamentalmente, é necessário temer o Diabo, e o medo significa render-se ou fugir com força total, sendo a luta uma terceira possibilidade cuja viabilidade existencial será conhecida no final do livro.
A intenção subjetiva deste livro é, pelo menos, a capacidade de fugir (em sentido individual e coletivo), e as perguntas existenciais que o livro propõe são: “Por que temer o Diabo? Por que fugir dele?”
O leitor é convidado a arriscar a jornada ao Inferno, que promete não ser dantesca, mas oferecer prazeres talvez maiores que os do Céu, servindo esta promessa como um engodo, não menos diabólico por ter sido confessado.