A Luz da Natureza como Princípio de Conhecimento e Revelação
A concepção da luz da natureza não como uma simples revelação através do estudo do céu e da terra, mas como um princípio de conhecimento ativo, um sol cujos raios penetram todas as coisas – fogo, água, pedras, metais – tornando todos os corpos transparentes como cristal.
A descrição deste sol como um olho através do qual a natureza escuta as suas próprias profundezas, reunindo em si todas as artes que a sua visão permitirá exercer.
A Relação do Homem com a Luz da Natureza
A necessidade de o homem se apropriar do olho da natureza, tornando-se o astro que radia na natureza, sem, no entanto, se identificar simplesmente com ela para a conhecer.
A tese de que os adeptos da natureza são superiores a ela, conhecendo-a melhor do que ela própria se conhece, instruindo-se por ela mas superando-a, sendo o homem mais do que a natureza, o céu e a terra.
A distinção fundamental entre o conhecimento natural, acessível pela luz da natureza, e o conhecimento sobrenatural, concedido pela contemplação do Espírito Santo aos que adquiriram o privilégio da segunda nascença.
A Posição de
Paracelso como Filósofo da Natureza
A autoidentificação de
Paracelso como filósofo, e não apóstolo, situando-se no plano do conhecimento natural, e não no sobrenatural.
A constatação de que, não obstante, o filósofo da natureza fala incessantemente de Deus, apresentando a natureza segundo o projeto do seu autor divino e delimitando-a face ao sobrenatural, dentro de um sistema absolutamente teocêntrico.
A Estrutura Antropológica e os Diferentes Planos do Ser
A concepção do homem como um edifício de vários andares, cuja totalidade de altura se encontra no homem, que compreende todos os níveis quando desenvolve plenamente as suas virtualidades.
A projeção, no seio da própria Trindade, de uma rutura de nível, relacionando a natureza com o Père e o sobrenatural com o Filho e o Espírito Santo.
Os Três Graus do Homem: Corpo, Homem Sideral e Homem Interior
A descrição do primeiro grau como o homem visível, animal, de carne e sangue.
A definição do segundo grau como o homem invisível, sideral, que é simultaneamente espírito e um corpo sutil (corpus spirituale), identificado com o pensamento e a imaginação.
A caracterização do terceiro grau como o homem interior segundo o Espírito Santo, possuindo um corpo glorioso revestido da carne celeste de Cristo.
A associação dos dois primeiros níveis à primeira nascença e à natureza, e do terceiro nível à segunda criação ou segunda nascença, no sobrenatural.
Os Três Espíritos e as Três Luzes
A identificação de três espíritos que são três luzes: o espírito que anima o corpo visível, o espírito sideral que reina no corpo sideral e se identifica com o pensamento imaginativo, e o terceiro espírito identificado com o corpo glorioso.
A definição das duas primeiras luzes reunidas como a luz natural, e a terceira como a luz sobrenatural.
O Astrum como Realidade Invisível e Fogo Universal
A concepção do astrum como uma entidade universal, a realidade invisível dos astros, uma alma do mundo que é simultaneamente espírito e corpo, um fogo sutil que habita os quatro elementos.
A distinção entre o céu visível (os astros) e o céu invisível (o astrum).
A descrição do homem como um abreviatura da criação (microcosmo), contendo em si o céu e a terra, com o corpo visível como corpo elementar (terra e água) e o homem sideral como o céu (fogo invisível).
A Luz da Natureza como Emanação do Astrum
A definição da luz da natureza como o fogo que procede do astrum, sendo o próprio astrum a sua emanação.
A paradoxal exterioridade do astrum, que, estando em cada um de nós, só se objetiva na sua totalidade universal, aparecendo como o firmamento exterior.
A necessidade de o homem se abrir às dimensões do universo para comunicar com o astrum universal através do fogo do seu próprio corpo sideral, e não através do espírito de carne e sangue.
A Imaginação como Poder Atraente e Incubador
A concepção da imaginação não como ornamento poético, mas como um poderoso desejo que opera como um ímã, atraindo o fogo celestial iluminador.
A reciprocidade do desejo: o céu projeta a sua imaginação sobre a terra, particularmente no homem, e o homem deseja o céu, nascendo o adepto no momento do encontro destes dois desejos.
A analogia entre o corpo terrestre, que atrai o alimento, e o corpo sideral, que atrai como um ímã a luz do firmamento.
Os Três Graus de Geração e a Nutrição como Conhecimento
A descrição dos três graus de geração correspondentes à tripartição do homem: geração pelo céu e terra (corpo elementar), geração apenas pelo céu (corpo sideral), e geração pelo Espírito Santo (corpo glorioso).
A equiparação entre nutrição e conhecimento: o homem conhece de acordo com o que é e com o que come, ingerindo a terra e o céu ao nível natural, e o corpo de Cristo ao nível sobrenatural.
A identificação da ciência do homem com o seu corpo, sendo a luz da natureza, ao nível do corpo sideral, a ciência do médico.
A Dualidade na Natureza e a Relação com a Divindade
A delimitação da natureza, que inclui o céu sideral (mesmo invisível), face ao céu eterno, infinitamente superior, que é sobrenatural.
A caracterização da luz da natureza como uma sabedoria transitória, lunar, aplicável à vida mortal, em contraste com a luz solar do Espírito Santo.
A projeção da rutura entre natureza e sobrenatural no seio da Trindade, associando a primeira criação ao Père e a segunda ao Filho, sendo as criaturas do Filho que vão para o céu.
Deus Pai como Princípio da Natureza e da Ciência Natural
A tendência para identificar Deus Pai com a natureza ou com o macrocosmo, sendo Ele o autor da natureza e o dispensador das ciências e artes naturais, incluindo a medicina e a magia natural.
A instituição, por Deus Pai, de uma “religião natural”, com os seus próprios santos, profetas e fé, distinta da religião do Filho, mas igualmente legítima no seu domínio.
A concepção de uma fé natural, inata, que confere poderes sobre o mundo visível (como a fé que move montanhas), distinta da fé salvífica em Jesus.
O Poder da Imaginação e a Ética do Adepto
A identificação entre pensamento, imaginação e o espírito sideral (astrum), dotado de um poder real sobre o mundo natural.
A afirmação de que o homem, através da sua imaginação-fé, poderia operar prodígios e curar-se a si mesmo, mas a interdição ética de o fazer, para não tentar a Deus.
A exortação para que o homem interiorize este poder e o coloque ao serviço da sua vocação específica, submetendo-se à natureza e à vontade do Pai, em vez de a pretender dominar.
A Medicina e o Problema do Mal na Natureza
A compreensão do mal físico como inerente à criação desde a origem, coexistindo com o bem numa ambivalência universal.
A visão de Deus Pai como autor do bem e do mal na natureza, mas também como o reparador, através do médico interior (archaeus) e do médico exterior (o adepto).
A integração paradoxal do diabo na economia divina natural, sendo ele um conhecedor das ciências naturais e podendo, por permissão divina, instruir o médico.
A Alquimia como Arte da Revelação e da Perfeição da Natureza
A concepção da luz da natureza não como mero esclarecimento, mas como um fogo que purifica e torna visível a realidade invisível das coisas.
A missão do homem-adepto de revelar plenamente as maravilhas divinas na criação, fazendo “eclodir” os mistérios que Deus semeou na natureza, através de um processo alquímico de morte e regeneração.
A ideia de que a criação não está acabada, cabendo ao homem, através dos seus artes (especialmente a alquimia), aperfeiçoá-la e acabá-la, sublimando-a até à sua plena manifestação.
A Superioridade do Homem e a Dinâmica do Tempo
A tese de que o homem, por seus pensamentos, supera a luz da natureza (o astrum) e cria um novo céu, sendo, portanto, mais do que o céu e a terra.
A noção de um progresso do conhecimento humano ao longo do tempo, onde os pósteros superam os antigos, e os nascidos duas vezes (em Cristo) podem atingir uma perfeição superior no conhecimento natural.
A projeção desta dinâmica na própria Trindade, onde o Filho é maior do que o Pai.
A Conjunção Final das Duas Luzes
A possibilidade de as duas luzes – a natural e a do Espírito Santo – se unirem harmoniosamente na alma humana regenerada, sem contradição.
A perspectiva de uma natureza transfigurada no fim dos tempos, tornando-se perfeitamente diáfana e integrada no reino de Deus, realizando assim o seu desejo original de transparência e perfeição.