Paracelsus. Selected Writings. Ed. Jolande Jacobi. Princeton: Princeton University Press, 1973
1. A água sobre a qual pairava o Espírito do Senhor foi a matriz da qual emergiram o mundo e todas as criaturas, tornando-se por sua vez matriz do homem, criado por Deus para dar a seu Espírito uma morada na carne.
2. A matriz e sua substância primordial são invisíveis, pois ninguém pode ver o que existiu antes de si.
3. O mundo, o homem e todos os seres vivos procedem da matriz, jamais vista por ninguém por ser anterior ao homem, sendo ela a água na qual, e em nenhuma outra matriz, foram criados o céu e a terra.
4. O Espírito de Deus levado pelas águas é o mesmo que habita o homem e falta às demais criaturas, tendo o homem sido criado para que Deus não vivesse só e para abrigar esse Espírito, que vem de Deus e a Ele retorna.
5. Deus fez do mundo um corpo de quatro elementos fundado na trindade de mercúrio, enxofre e sal, substâncias que contêm em estado informe todas as forças e coisas perecíveis, sendo o primeiro corpo, o Yliaster, um torrão que encerrava todo o caos, águas, minerais, ervas e pedras, cuja liberação e formação só o Mestre supremo podia realizar.
6. Como o oleiro ou o entalhador que extrai formas de sua matéria separando o que não lhes pertence, Deus separou todas as criaturas de uma única massa nos seis dias, completando o número de todos os seres, assim como as cores nascem da terra negra e as pedras preciosas e os metais da água indiferenciada.
Criação do Homem
1. A separação é a geradora de todo nascimento e a maior maravilha das filosofias, pois, iniciada no mysterium magnum, deu a cada criatura sua majestade, poder e livre-arbítrio, que perdurarão até a grande colheita final, maravilhoso termo de todas as coisas.
2. A matéria precedeu todas as coisas e só depois foi dotada do espírito de vida, cumprindo-se assim os dias da criação, ao fim dos quais o homem foi criado à semelhança de Deus e dotado de seu espírito.
3. O homem não nasceu do nada, mas foi formado do limus terrae, substância primordial que, sendo extrato do firmamento e de todos os elementos, faz dele uma criatura do céu e da terra.
4. O limbus, matéria primordial do homem, compreende céu e terra, as esferas superior e inferior e os quatro elementos, de modo que conhecer o limbus é conhecer o homem, justamente identificado ao microcosmo.
5. O céu encerra o macrocosmo para que nada mortal alcance o reino imortal que está além dele, assim como a pele encerra o homem, pequeno mundo, para que ele não se misture ao grande mundo, permanecendo cada um intacto em seu invólucro.
6. Nascido da primeira matriz do grande mundo, o homem recebeu da terra e da água o corpo material de sua vida transitória e animal, ao qual se une inseparavelmente um corpo sideral de fogo e ar que lhe confere o movimento vital, constituindo-se o homem mortal dos quatro elementos.
7. O homem é filho de dois pais, a terra, que lhe dá o corpo material e a forma, e o céu, que dota essa forma do caráter e da luz da natureza, podendo ele realizar o que lhe é inato e dispor dessa herança paterna.
8. O edifício do mundo compõe-se de uma parte tangível, o corpo, formado de enxofre, mercúrio e sal, e de uma parte invisível, os astros, formada de sentimento, sabedoria e arte, constituindo ambas juntas a vida.
9. Os mistérios do grande e do pequeno mundo diferem apenas na forma de manifestação, sendo um único ser, criado do nada, mas composto de mercúrio, enxofre e sal.
10. Os planetas, as estrelas e todos os corpos que delas nascem constituem-se dessas três substâncias primordiais, das quais também o homem, pequeno mundo, é inteiramente composto.
11. Os quatro sabores presentes no corpo, ácido, doce, amargo e salgado, estudáveis apenas no homem, fundam os quatro temperamentos, sendo colérico o predomínio do amargo, melancólico o do ácido, fleumático o do doce e sanguíneo o do salgado.
12. Os astros interiores do homem têm a mesma natureza, propriedades e curso que os astros exteriores, diferindo apenas na forma e na matéria, de modo que o sol, a lua, os planetas e todo o caos estão no homem, que traz em si um “céu jovem”, filho do grande céu.
13. A grandeza da estrutura humana só pode ser compreendida como imagem do macrocosmo, pois o exterior e o interior são uma única constelação e influência, contendo o homem, como o limbus de Adão, o céu, a terra, a água e o ar.
14. Não é o céu que imprime sua marca no homem, mas a mão de Deus que o criou à sua semelhança e lhe conferiu, com a vida, compleições, qualidades e hábitos.
Criação da Mulher
1. Deus criou o homem diretamente da matriz e deu-lhe em seguida uma matriz própria, a mulher, de modo que os dois, embora duas carnes, formem um só ser, incompleto em cada um isoladamente, e que o filho, criado do limbus paterno, seja moldado e dotado de suas compleições na matriz, como o primeiro homem no macrocosmo.
2. Há três matrizes sucessivas, a água em que pairava o Espírito de Deus e foram criados céu e terra, o céu e a terra em que Adão foi formado e a mulher, tirada do homem e matriz de todos os homens até o fim do mundo, cujo corpo, embora semelhante ao masculino na forma e portador da imagem de Deus, difere completamente dele em essência, propriedades e natureza.
3. O corpo materno é um vaso fechado como o céu e a terra, e o homem, filho do cosmo, deve ser gerado sempre de novo por sua mãe, assim como, fora dela, vive no céu e na terra transformados por Deus em matriz exterior, de modo que a vida no mundo é como a vida na matriz.
4. A mulher assemelha-se à terra e aos elementos e é a árvore que deles cresce, cujo fruto é o filho, existindo todos os seus membros, qualidades e natureza em função de sua matriz, como a terra e os elementos existem para sustentar a árvore.
5. Deus quis que a semente do homem fosse semeada não na terra, mas na mulher, campo e húmus em que a criança é plantada e cresce até tornar-se homem.
6. Na mulher deve ver-se o ventre materno do homem e o mundo do qual ele nasce, embora ninguém veja a força pela qual Deus continua a criá-lo hoje como o criou no princípio.
7. Ninguém pode ser inimigo da mulher, seja ela como for, pois o mundo está povoado de seus frutos, razão pela qual Deus a deixa viver tanto tempo.
Mulher: Árvore da Vida
1. A mulher é como a árvore e o homem como o fruto que ela produz, e, assim como a árvore suporta muito mais danos que suas peras e permanece de pé quando elas caem, a mulher é superior ao homem, devendo sofrer e suportar muito em favor de seus frutos.
2. A floração da mulher ocorre na concepção, quando, como a árvore que só floresce pelo fruto que nela deseja amadurecer, ela se transforma e tudo nela se torna verão, prazer e deleite.
3. Assim como a casa e seu construtor são obras visíveis, cabendo à fé tornar visíveis as obras eternas e à luz da natureza as corporais ainda não visíveis, a criança concebida já é homem antes de tornar-se visível.
4. Na concepção, a natureza combina as sementes do homem e da mulher, e a mais forte molda a outra segundo sua natureza, sem jamais torná-la idêntica a si, pois a segunda quebra a força da primeira e produz uma mudança tanto mais manifesta quanto mais diferentes forem suas compleições.
5. A matriz dispõe as sementes de cada membro em seu devido lugar como o carpinteiro constrói uma casa, ainda sem vida nem alma, e Deus quis formar o homem de duas sementes e não de uma, para que a mistura produza diversidade e nenhum indivíduo seja igual a outro, ao contrário das árvores, que se reproduzem idênticas a partir de si mesmas.
6. A semente, que nasce da flor depois da erva e da raiz, é a seiva vital e a quintessência da planta, a parte mais preciosa e nobre de todos os frutos da terra, sem a qual nada cresce, nasce ou se multiplica.
7. Um bom fruto requer tanto uma árvore boa, a mãe sã e fértil, quanto uma boa semente, que a árvore da mulher só recebe do homem a cada nova concepção, não podendo melhorá-la se for má.
8. A semente boa é Deus e a má é o diabo, sendo o homem apenas o campo, nem inteiramente bom nem inteiramente mau, cujo coração e obras crescem segundo a semente que recebe, pois a semente é senhora do campo, que, como a água, toma a cor do que nele cai.
9. Durante as quarenta semanas fixadas por Deus, a natureza ordena as sementes em seus lugares, faz que se convertam em carne, ossos, vasos e órgãos, e depois a graça divina infunde a vida e os sentidos, recebendo a criança, quando suficientemente forte para suportar a vida terrena, o espírito e em seguida a alma, até que, não podendo mais prescindir do ar e do alimento do mundo, ocorre o nascimento.
10. O homem nada recebe de seus pais de que possa vangloriar-se além de um estômago faminto, uma inteligência rudimentar e uma imagem nua sujeita à morte, possuindo verdadeiramente apenas o que Deus lhe deu fora desse corpo e que define sua ação e seu ser.
11. Quatro fatores intervêm na concepção e no nascimento, o corpo, que segue a lei de sua espécie, a imaginação, que confere à criança sua razão e a orienta para o alto ou para baixo, a forma, que a faz assemelhar-se a seus ascendentes, e a influência, que determina sua saúde ou doença.
12. A imaginação da gestante é tão forte que pode alterar a semente e moldar profundamente a natureza do fruto, atuando seus astros interiores sobre a criança, entregue à vontade materna como o barro às mãos do oleiro.
13. A criança não precisa de astros nem planetas, pois sua mãe é seu astro e seu planeta.
14. Deus não quis que homem e mulher fossem como a árvore que produz sempre o mesmo fruto, nem que todos se multiplicassem, criando uns com sementes e outros sem, e cada um diferente do outro.
Semente e Fruto
1. Deus deixou ao homem a liberdade de propagar ou não sua espécie, plantando a semente em sua imaginação, onde, havendo vontade, nasce o desejo que gera a semente.
2. O desejo não se acende por si, mas é despertado por um objeto, cabendo ao homem, dotado de razão para compreender seu sentido, decidir livremente se a ele cede ou não, valendo o mesmo para a mulher, de modo que o nascimento da semente depende da vontade de ambos.
Homem e Mulher
1. Assim como o homem procede do grande mundo e permanece ligado a ele, a mulher, criada do homem, não pode separar-se dele, pois, sendo de uma só carne e um só sangue, ambos se buscam pelo desejo.
2. O amor animal, herdado dos animais, tem sua utilidade, mas é mortal, sem fins superiores, e explica as hostilidades, invejas e conflitos humanos e entre nações, assemelhando-se o homem aos cães que brigam por cobiça e disputam uma cadela.
3. Quando se unem um homem e uma mulher criados um para o outro, formam um ser indissolúvel e não há adultério, ao passo que, sem essa correspondência, o amor oscila como junco ao vento, havendo por isso dois casamentos, o feito por Deus, cujo mandamento os cônjuges cumprem espontaneamente, e o feito pelo homem, que devem cumprir por obrigação.
4. A castidade confere pureza de coração e capacidade para estudar as coisas divinas, mas quem não é senhor de si faz melhor em não viver só.
5. O excedente de mulheres em relação aos homens, criado e preservado por Deus, justificaria dar a cada homem várias esposas para evitar a fornicação, já que Deus santificou o casamento e exigiu fidelidade sem fixar o número de esposas, devendo as leis humanas, ao contrário dos mandamentos divinos, adaptar-se às necessidades dos tempos.
6. Se o homem é o pequeno mundo, a mulher é o menor dos mundos, com anatomia, causas e cuidados próprios, formando o cosmo, o homem e a mulher três impérios distintos em seu modo de produzir, mas sujeitos à mesma transitoriedade e sustentados pelo mesmo espírito.
O Homem no Cosmo
1. O mundo inteiro envolve o homem como o círculo envolve o ponto, sendo o homem a semente e o mundo a maçã que a preserva e nutre, e a sabedoria, celeste ou terrena, só se alcança pela força de atração entre o centro e o círculo.
2. A prodigiosa composição humana, unidade formada de imensa diversidade, exige que o homem estude a si mesmo, sua origem e sua identidade, pois só quem se conhece verdadeiramente dirige atenção profunda ao eterno.
3. O que procede da carne é animal e pouco influenciado pelo céu, o que procede dos astros é especificamente humano e sujeito à sua influência, e o que procede do espírito, parte divina formada à semelhança de Deus, escapa à influência da terra e do céu.
4. O homem é parte da natureza cujo fim está no céu e imagem especular dos quatro elementos, de modo que a natureza exterior, mãe da interior, molda sua forma e sua desagregação o destrói, e, como a imagem no espelho nada revela por si, o conhecimento do homem só vem do ser exterior do qual ele é reflexo.
5. O céu é o homem e o homem é o céu, mas cada homem traz em si, desde a concepção, um céu próprio e completo segundo o momento de seu nascimento, o que explica a desigual distribuição de doenças, mortes e destinos, imprimindo-se a abóbada estrelada no céu interior de cada um.
6. O homem é em si mesmo um firmamento livre e poderoso que, como o firmamento celeste, não é regido por nenhuma criatura, podendo aplicar-se ao corpo tudo o que a astronomia descobriu sobre os astros.
7. Duas influências atuam no homem, a da luz firmamental, da qual procedem sabedoria, arte e razão, e a da matéria, da qual procedem a concupiscência, o comer e o beber, não devendo atribuir-se aos astros o que nasce da carne e do sangue.
8. Os corpos visível e invisível, unidos como um casal numa só carne mas de natureza dupla, geram no homem uma contradição, pois o corpo material deseja luxo e luxúria e o etéreo deseja estudo e artes, e cada um, tendendo a ultrapassar sua medida e expulsar o outro, faz nascer entre eles uma inimizade destrutiva.
9. Tudo o que o homem faz, ensina ou aprende deve guardar sua justa proporção e permanecer dentro de seu círculo para preservar o equilíbrio.
10. Bem-aventurado é quem observa a justa medida e segue o caminho prescrito por Deus sem precisar dos auxílios inventados pelos homens.
11. Deus, podendo criar o homem do nada, preferiu tirá-lo da natureza, colocá-lo nela e submetê-lo a ela como filho, submetendo-lhe ao mesmo tempo a natureza como a um pai, de modo que ela lhe pertence como a alguém de seu sangue.
12. Há na natureza uma luz mais esclarecedora que o sol e a lua, pela qual se descobre que os sentidos só veem metade do homem e das criaturas e que o homem possui, além da carne e do sangue, um corpo invisível aos olhos grosseiros.
13. Assim como a luz do sol revela as cores que a da lua não distingue, a luz da natureza supera em muito o poder dos olhos e torna visíveis todas as coisas invisíveis.
14. O mundo visível e tangível constitui apenas metade do cosmo, sendo a outra metade invisível igual a ele em peso, medida e natureza, e operando numa metade invisível do homem, de modo que só as duas juntas constituem o homem inteiro.
15. Como o sol que brilha através do vidro sem atravessá-lo ou o fogo que aquece através das paredes do fogão, o corpo humano pode agir à distância permanecendo imóvel, devendo-se atribuir a ação não ao corpo, mas às forças que dele emanam.
16. Além da luz da natureza, há no homem uma luz própria pela qual ele conhece o sobrenatural, pois o homem é mais que natureza, sendo também espírito e anjo, servindo àquilo segundo o qual caminha e possuindo a primeira luz no corpo e as demais na alma, como sua joia.
Dignidade do Homem
1. O homem é o livro escrito pelo dedo de Deus em que todos os mistérios estão inscritos de modo visível e legível, diante do qual todos os demais livros são letra morta, devendo esse livro ser buscado unicamente no homem e sendo interpretado por Deus.
2. A compreensão do tesouro contido nas letras deve ser buscada não no papel, mas n'Aquele que ensinou o homem a compô-las e as colocou no papel.
3. Nascido da terra, o homem possui a natureza terrestre e é iluminado pela luz sideral para conhecer a natureza, mas no novo nascimento recebe de Deus a natureza divina e a iluminação do Espírito Santo para conhecer a Deus, pois cada um só conhece aquilo de cuja natureza participa.
4. A luz da natureza é administradora da Luz Santa, e ambas, longe de se prejudicarem, foram dadas para habitar juntas no homem, como homem e mulher que concorrem para gerar um filho.
5. Nada existe no céu ou na terra que não esteja também no homem, no qual habitam Deus e todas as forças celestes, sendo o homem o céu belo e nobre que Deus fez para si e seu templo, razão pela qual Deus conhece a oração antes de ser proferida.
6. Os pensamentos são livres e fundam a liberdade humana, elevando-se acima da luz da natureza e gerando uma força criadora nem elemental nem sideral, que estabelece um novo céu e um novo firmamento dos quais fluem novas artes, demonstrando que o homem é maior que o céu e a terra.