3 Homem e obras

Paracelsus. Selected Writings. Ed. Jolande Jacobi. Princeton: Princeton University Press, 1973

1. Todo saber humano remonta, de mestre em mestre, ao primeiro mestre, Deus, que, após a expulsão do paraíso, criou para Adão e Eva a luz da natureza ao ordenar-lhes o trabalho e a maternidade, nascendo então o homem interior da segunda criação.

2. Embora criado completo quanto ao corpo, o homem não recebeu prontas as artes, que lhe foram dadas ocultas e devem ser descobertas pelo aprendizado como sementes que precisam ser cultivadas, ainda que algumas, como as ervas que crescem sem semeadura, brotem espontaneamente do jardim interior pela força incessante da luz da natureza.

3. O homem deve estudar em três escolas correspondentes a seus três corpos e às três luzes que nele ardem, a elementar, a sideral e a eterna, pois só as três juntas o tornam perfeito, ainda que as duas primeiras brilhem fracamente diante da terceira.

4. Tudo o que o homem faz deve ser feito à luz da natureza, que não é outra coisa senão a própria razão.

5. Só é inimigo da natureza quem se julga mais sábio que ela, a maior escola de todos.

6. O homem deve abordar as coisas não apenas pelo lado terreno e transitório, mas também do ponto de vista da eternidade, ainda que com recursos mortais, pois quem pode aprender de Deus pode também aprender da natureza.

7. Aprender sem fazer é pouco, e só aprender e fazer é grande e completo.

8. Os homens não devem ser julgados por sua constituição física, pois todos possuem o mesmo que os outros e trazem inatas todas as aptidões, cabendo à educação despertar na criança a potencialidade que fará dela sapateiro, canteiro ou erudito, enquanto as demais permanecem adormecidas.

9. O homem nasceu para estar desperto e não para dormir.

10. Aprender e perguntar sem vergonha é o caminho para um nome que ressoe em todos os países e jamais seja esquecido.

11. O legado dos antepassados deve ser acolhido seletivamente segundo as necessidades do presente, devendo-se aperfeiçoá-lo e ir além dele, pois o mandamento de aprender vale até o fim dos tempos.

12. Assim como a árvore precisa ser podada e muitos livros são escritos antes que surjam alguns imortais, os ensaios imperfeitos devem ser abandonados em favor do que foi bem realizado.

13. O tempo do aprendizado não pode ser abreviado, pois aprender é a própria vida, da juventude à beira da morte.

14. Quem se guia pelos caminhos da natureza domina as duas filosofias, a do céu e a da terra, e nada lhe fica oculto da vida, da morte, da saúde e da doença.

Escola da Natureza

1. Só a vontade unida à ação conduz à realização perfeita.

2. Todas as coisas da terra foram entregues ao homem para que as leve ao mais alto desenvolvimento, devendo esse ponto máximo ser para ele apenas um começo, uma semente a ser transformada em algo maior.

3. Nada criado escapa à investigação humana, e tudo existe para que o homem caminhe nas obras de Deus e não nos vícios, sendo mais bem-aventurado ocupar-se das maravilhas da natureza, como ninfas, gigantes e mineiros, do que das hierarquias, etiquetas e cavalarias mundanas.

4. As virtudes invisíveis das ervas e os segredos dos animais podem ser descobertos, pois Deus quer que nada da natureza, criada para o homem, permaneça desconhecido a quem caminha em sua luz.

5. Deus não quer que seus segredos sejam visíveis, mas que se manifestem por meio das obras do homem, criado para revelá-los, assim como a divindade de Cristo permanecia oculta, devendo o homem trabalhar continuamente para descobrir e manifestar o que Deus nele pôs.

6. Deus plantou no homem segredos maravilhosos como sementes na terra, que devem florescer e frutificar no tempo devido para louvor do Criador, cabendo ao homem, como a terra que nada retém, fazer prosperar esses dons e tornar-se santo, buscando seu verão para não viver sempre no inverno.

7. O mandamento de Cristo de buscar para encontrar vale também para a luz da natureza, sendo necessário procurar ativamente a arte e os segredos ocultos do mundo, cuja busca, também oculta, conduz ao conhecimento.

8. As coisas crescem sem ajuda humana, mas só servem ao homem mediante seu trabalho, como o ferro que não se torna arado por si, devendo o homem dominar tanto os produtos da natureza quanto as artes de prepará-los e manter-se sempre ativo de corpo e espírito, afastando assim o diabo.

9. Assim como Deus age por sua palavra, o homem age por seus membros, sendo o único agente pelo qual o firmamento faz se tornarem reais as artes e ciências nele latentes, como a árvore amadurece as peras.

10. Deus criou sucessivamente todas as coisas e nada deixou vazio, enchendo-as de virtudes, como a pedra de suas forças, a vaca de leite e o homem de alma, pela qual deve viver em plenitude e não em esterilidade.

11. Nada foi criado oco ou sem propósito, assim como a terra sem fruto ou o fruto vazio de nada serviriam.

12. As estrelas, lançadas por Deus em órbitas alternadas, jamais ficam ociosas e despertam diariamente a natureza para seu trabalho incessante.

13. O inverno não é verdadeiro repouso, pois as coisas continuam a trabalhar preparando um novo verão, e, se o corpo humano repousa à noite e no sábado, o espírito jamais deve ficar ocioso.

14. A felicidade não está na preguiça, nos prazeres, nas riquezas, na tagarelice ou na gula, mas no uso laborioso dos dons divinos em qualquer ofício.

15. O caminho reto reside no trabalho e na produção, ao passo que o perverso fala muito e nada faz, devendo-se julgar o homem pelo coração e não pelas palavras.

16. O coração só fala pelas palavras quando estas são confirmadas por atos.

17. Todas as coisas devem ser usadas para o bem e apenas para o fim a que se destinam, sem nada acrescentar, retirar, estragar ou alterar.

18. O livro que se traz dentro de si deve nascer no tempo próprio como um filho do ventre materno, pois só o que assim nasce é fecundo, exigindo paciência até que chegue a hora.

19. Os homens são conhecidos por seus frutos, suas obras, que revelam se seguem o caminho de Deus, se são filhos da natureza ou de Deus, do velho ou do novo nascimento, conhecimento indispensável para não errar desde o início.

20. Quando as coisas necessárias amadurecem, a estação envia seu ceifeiro para que cada uma venha à luz em sua hora.

21. Quem supõe que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo que os morangos nada sabe de uvas.

22. A esperança é uma das emoções mais elevadas, própria de quem sabe fazer algo e confia em sua arte, ao passo que quem nada sabe só duvida.

23. A sabedoria e as artes não procedem do próprio homem, mas de um espírito mediador invisível que distribui a cada um, por ordem de Deus, a invenção de algo necessário, podendo depois ser aprendido por todos.

24. As coisas divinas não devem ser objeto de especulação, mas reconhecidas em suas obras, sinais do Mestre celeste como a casa o é do carpinteiro.

25. Todo crente deve ser filósofo para conhecer o que convém à sua vida e saúde, estudando o firmamento, a terra, o mar e o ar para reconhecer o Criador em todas as coisas, pois Deus quer ser conhecido plenamente por suas obras.

26. Pela oração e pela busca em nome de Deus tudo será concedido em abundância, devendo cada um trabalhar com diligência para aperfeiçoar seu ofício em louvor de Deus.

Mundos Interior e Exterior

1. Tudo o que está dentro pode ser conhecido pelo que está fora.

2. Deus não quis que permanecessem ocultas as coisas criadas para o homem e, mesmo escondendo algumas, marcou todas com sinais exteriores visíveis, como quem assinala o lugar de um tesouro enterrado.

3. Por sinais e correspondências exteriores o homem descobre o que está oculto nas montanhas, nas ervas e nas pedras, nada havendo nas profundezas do mar ou nas alturas do firmamento que lhe permaneça inacessível.

4. Cada fruto é um sinal daquilo de que procede, assim como tudo o que há no homem está marcado em seu exterior, havendo quatro vias para conhecer a natureza do homem e de todos os seres vivos.

5. A quiromancia, a fisiognomia, a forma do corpo e os costumes e gestos fornecem juntos o conhecimento completo do homem interior e das coisas naturais, pois a natureza é uma escultora que molda a forma segundo a essência e o corpo segundo a alma, ensinando a arte dos sinais a dar a cada ser seu verdadeiro nome e sendo indispensável a todo artista que pretenda realizar uma obra acabada.

6. As formas das plantas revelam suas virtudes, como a raiz de satirião, semelhante aos órgãos masculinos, que restaura a virilidade, o cardo espinhoso contra pontadas internas, a raiz envolta como armadura contra armas e a chicória voltada ao sol, eficaz enquanto ele brilha, devendo-se investigar esses sinais sem vergonha de perguntar.

7. Assim como a ideia do carpinteiro se torna visível na casa, a virtude forma o corpo do homem segundo a natureza de sua alma, permitindo reconhecer a alma pela aparência exterior.

8. Pela quiromancia e pela fisiognomia podem-se conhecer as qualidades e virtudes de ervas e raízes apenas por sua forma, figura e cor, pois Deus jamais deu a mesma forma a coisas diferentes.

9. A fisiognomia revela o que está oculto no homem, sua relação com Deus e com o próximo, seu temperamento e sua honestidade, pois olhos, ouvidos e boca exprimem o que enche o coração, assim como a fisiognomia celeste revela a do céu, segundo o princípio de que pelos frutos se conhecem as árvores.

10. Para julgar a natureza de um homem pela fisiognomia é preciso considerar tudo, sobretudo sua conduta na aflição, quando sua natureza se revela, pois a natureza forja os homens de qualidades diversas, como forja a pera, o ouro ou a prata.

11. Há muitas espécies de quiromancia além da das mãos, como a das ervas, das folhas, das madeiras, das rochas, das minas e das paisagens.

12. O médico deve estudar as linhas das ervas para descobrir suas virtudes, o carpinteiro deve avaliar pela quiromancia a qualidade da madeira, o mineiro a das minas e o cosmógrafo a das paisagens, países e rios.

13. Os costumes, inatos e adquiridos pela educação, revelam a natureza do homem conforme sirvam a Deus e ao próximo e sejam firmes ou vacilantes, permitindo discernir sua parte imortal nos sinais visíveis, pois o exterior revela o interior.

As Artes, Dom de Deus

1. Deus não dá nenhuma arte que não traga em si a necessidade de sua realização.

2. A natureza humana, dotada de sabedoria e artes divinas recebidas na concepção, faz dos homens deuses e filhos do Altíssimo, sendo a luz da natureza em nós o próprio Deus, de modo que o conhecimento do futuro não pertence só a Deus, mas também à arte que Ele confiou ao homem e que deve ser aperfeiçoada pelo estudo incessante.

3. O homem não dá a si mesmo as artes, como o asno não se torna alaudista, mas as recebe de quem as sabe, isto é, de Deus, que planta todas as coisas no homem segundo sua vontade.

4. Nas estrelas estão ocultas todas as artes, ofícios, sabedorias e loucuras, e, como tudo o que está no homem procede da luz da natureza sujeita aos astros, as estrelas são a escola onde tudo se aprende.

5. Sem Vênus não haveria música e sem Marte não haveria ofícios, pois as estrelas ensinam todas as artes da terra, que sem sua ação jamais teriam surgido.

6. Assim como o aspecto do céu se renova desde Adão, novas artes, guerras, governos e ideias surgem a cada ano sob a orientação dos astros, mestre que permaneceria e instruiria novos artífices mesmo que todos morressem.

7. Como nem todas as estrelas completaram sua ação, a invenção das artes não terminou, não devendo ser impedidos os que buscam e descobrem novidades, cabendo ao homem decidir o que acolher das novas doutrinas, artes, doenças e remédios trazidos pelo céu.

8. Há sete vias pelas quais o homem se torna versado nas artes.

9. A primeira é o ensinamento de um espírito ou anjo que, como um mestre-escola, apenas desperta no homem o que já está nele.

10. A segunda é o conselho eficaz dado por alguém que não o compreende, cujo êxito se deve à luz da natureza, embora o diabo sempre procure misturar sua falsidade.

11. A terceira é a experiência, como a do doente que experimenta um remédio desconhecido conduzido pela luz da natureza.

12. A quarta é a habilidade adquirida pelos feiticeiros nas falsas artes divinatórias, conferida na verdade pela luz da natureza para satisfazer sua cobiça.

13. A quinta é a verdadeira quiromancia das mãos, das ervas e da madeira, que os antigos honravam como meio de aprender as artes e não apenas de adivinhar.

14. A sexta é a fisiognomia, que revela o interior pelo exterior em todas as coisas criadas, e a sétima é a semelhança das formas, pela qual o semelhante cura o semelhante.

15. Outras artes foram ainda dadas pelas descobertas da astronomia, da filosofia e do conhecimento das propriedades das ervas e das coisas naturais.

16. A arte, a ciência e a habilidade existem para promover alegria, paz, unidade e serviço ao próximo, como a música, remédio para os melancólicos e fantasiosos, que os mantém em companhia humana e expulsa os espíritos de bruxas e demônios.

17. A arte é o bem mais durável, riqueza que nenhum ladrão, fogo ou água pode destruir e que ninguém pode tomar, por estar oculta em seu possuidor.

18. A vida funda-se não só no pão, mas nas artes e palavras de sabedoria que vêm da boca de Deus, eternas, ao contrário do ventre cheio, e quem delas vive brilhará como o sol no reino de Deus.

19. Apesar da diversidade de nomes, as artes não estão separadas, pois uma está em todas.

20. As artes que descobrem coisas futuras e ocultas, outrora secretas e prestigiadas porque cultivadas pela contemplação e pela fé, tornaram-se incertas porque o homem moderno, voltado aos desejos da carne e do sangue e incerto de si mesmo, perdeu a capacidade de imaginação e fé, aguardando-se uma nova geração de espírito profético que as desperte.

21. O conhecimento do interior do homem e das coisas por seu exterior deve fundar-se na Cabala, que dá acesso ao oculto e aos mistérios e permite ler cartas seladas e a natureza interior dos homens.

22. Quem deseja adivinhar, descobrir tesouros e ensinar altas artes deve acolher os ensinamentos da Cabala, fundada nas palavras de Cristo e aliada a Deus, que concede saber maior que o de Salomão a quem busca primeiro o reino de Deus, ao passo que quem resvala para a geomancia é guiado por um espírito mentiroso.

Interpretação dos Sonhos

1. A interpretação dos sonhos é uma grande arte, pois os sonhos, venham da fantasia, dos elementos ou de outra inspiração, nunca carecem de sentido e muitas vezes contêm algo sobrenatural, já que o espírito nunca está ocioso.

2. Quem deseja interpretar seus sonhos e guiar-se por eles deve possuir conhecimento sideral e a luz da natureza, evitando fantasias absurdas e arrogância, pois muitos sonhos se realizam.

3. Os pressentimentos aparecem de forma tão modesta que são ignorados, embora sejam verdadeiras profecias, como o sonho em que José soube quem era Maria e de quem estava grávida.

4. O sábio não deve desprezar as coisas discretas, lembrando que também Cristo apareceu de forma invisível e foi ridicularizado, pois só quem julga com sabedoria o que é humilde conhece a Cristo.

5. Os sonhos que revelam o sobrenatural são mensagens diretas de Deus, anjos que aparecem sobretudo nas grandes aflições e podem ser obtidos pela oração feita com fé verdadeira, trazendo advertência, consolo, ensinamento e boas-novas.

6. Desde sempre os artistas receberam em sonhos revelações de sua arte e instruções de filósofos, muitas vezes esquecidas ao despertar, devendo quem as tiver permanecer só, sóbrio e em silêncio até recordá-las.

Santos e Magos

1. A magia é a mais secreta das artes e a mais alta sabedoria sobre o sobrenatural na terra.

2. A magia, grande sabedoria secreta diante da razão como grande loucura pública, alcança o que a razão não atinge, devendo os teólogos conhecê-la em vez de confundi-la injustamente com feitiçaria.

3. Deus permitiu a magia como sinal do que o homem é, mas não como convite a praticá-la, pois a falsa magia tenta a Deus e condena a alma.

4. Todas as artes vêm de Deus e nenhuma deve ser difamada, pois nem o homem nem o diabo inventam nada por si, limitando-se o diabo a falsificar e caluniar os dons acesos pela luz da natureza e a seduzir os fracos na fé para falsas artes que os fazem morrer sem a verdade.

5. É indispensável examinar e provar os milagres para distinguir o sagrado do profano e saber se procedem do espírito da natureza ou do espírito de Deus, isto é, da divinatio ou da divinitas.

6. As Escrituras chamam feiticeiros todos os versados no sobrenatural que não eram santos, mas não se deve tomar por feiticeiros todos os assim designados, como mostram os três Reis Magos, chamados magos por não terem abusado de sua sabedoria oculta, pois a magia revela seu poder pela fé e só se torna feitiçaria quando mal utilizada.

7. Assim como há santos de Deus que servem à vida bem-aventurada, há santos naturais, os magos, que servem às forças da natureza e têm poder sobre elas, manifestando Deus seus milagres por ambos.

Alquimia, Arte da Transformação

1. A alquimia não tem culpa, cabendo esta a quem não a conhece ou a aplica mal.

2. É um grande mistério da luz da natureza que uma coisa possa perder inteiramente sua forma e ressurgir do nada com potência e virtude muito mais nobres que as originais.

3. Nada foi criado em sua matéria última, mas tudo em sua matéria-prima, cabendo a Vulcano, pela alquimia, conduzi-lo à sua substância final, sendo a alquimia a arte de tornar puro o impuro pelo fogo e separar o útil do inútil.

4. A transmutação dos metais é um grande mistério que não contraria a natureza nem a ordem divina, mas os metais vis só se transformam em ouro e prata por meio da tintura ou da pedra filosofal.

5. A filosofia sempre buscou separar o bem do mal e o puro do impuro, o que equivale a reconhecer que o corpo apodrece enquanto a alma, essência boa, subsiste, como a semente que deve apodrecer para frutificar, sendo essa compreensão a pérola que contém todas as virtudes.

6. A decomposição é o princípio de todo nascimento, parteira de grandes coisas que destrói a essência original para fazer renascer formas mil vezes melhoradas, constituindo o mais profundo mistério revelado por Deus ao homem.

7. As virtudes ocultas da natureza jamais seriam reveladas sem a alquimia, que as manifesta como o verão revela as flores e frutos da árvore, sendo essas virtudes diversas em cada coisa e múltiplas numa mesma unidade, como as cores de uma flor.

8. A alquimia é uma arte indispensável, cujo artista é Vulcano, pois Deus criou do nada sementes inacabadas cujo fim está inscrito nelas desde o início, cabendo a Vulcano levá-las à perfeição, como a madeira que não se torna tábua por si ou o barro que não se faz pote.

9. A quinta essência é a natureza, virtude e eficácia curativa de uma coisa extraída de sua matéria e purificada de toda impureza e mistura, espírito semelhante ao espírito vital, capaz de purificar e alterar maravilhosamente o corpo, exigindo cada doença sua própria quinta essência.

10. O arcano, imortal, incorpóreo e insondável, é a virtude inteira de uma coisa multiplicada mil vezes, com poder de renovar e restaurar o homem, conhecendo-se até agora quatro arcanos, a matéria-prima, que consome a velhice e restitui a juventude, a pedra filosofal, que purifica e rejuvenesce o corpo, o mercúrio da vida, que o renova como a ave na muda, e a tintura, que transforma o corpo num ser puro, nobre e indestrutível.

11. O ouro é fogo celeste congelado na terra, que o fogo terrestre só pode dissolver como o sol derrete a neve, pertencendo às coisas indestrutíveis, livres do tempo, capazes de realizar o que parece impossível ou desesperado.

12. Revelar mais sobre esse mistério é proibido e reservado ao poder divino, pois essa arte é dom de Deus que Ele concede a quem quer para ser honrado e louvado por ela.

Sabedoria e Astros

1. O filósofo tem poder sobre os astros e não os astros sobre ele.

2. A astronomia é arte indispensável que deve ser estudada seriamente, pois revela a disposição da alma, do coração e dos pensamentos de cada homem e a influência da concepção e sobretudo do nascimento sobre seu destino.

3. O astrônomo deve orientar-se no firmamento pela razão natural, sem atribuir à sua arte mais confiança do que convém, pois o firmamento está preso nas mãos do Motor Supremo, cujos desígnios lhe são ocultos e podem impedir, favorecer ou alterar suas previsões.

4. Há duas espécies de estrelas, as celestes e as terrestres, as da loucura e as da sabedoria, e, assim como o pequeno mundo governa o grande, as estrelas do microcosmo governam as do céu, criadas para obedecer a Deus e não para reger o homem.

5. Razão, sabedoria, astúcia e discórdia habitam as estrelas como habitam os homens, que as receberam delas como de pais, tornando-se nelas materiais e visíveis o que nos astros é sutil e espiritual, mas essa sabedoria é apenas reflexo do macrocosmo, estando acima dela, e mais forte que os astros, a sabedoria que vem diretamente de Deus.

6. A astronomia revela as disposições inatas do coração e as qualidades boas e más dadas pela natureza ao homem, filho do grande mundo, distinguindo a opinião da ciência e ensinando o que pertence à esfera mortal, ao passo que o que pertence aos caminhos de Deus deve ser aprendido de Deus.

7. O firmamento não exerce ação coercitiva sobre o homem, que antes age sobre o mundo, influenciando apenas as emoções e a razão sensual e pagã, ao passo que os cristãos devem atender às palavras de Cristo, único que decreta os sinais dos tempos, mais que às da astrologia.

8. Os astros estão sujeitos ao filósofo, governando apenas o homem ainda animal, que, ignorando a si mesmo e as forças que traz em si como microcosmo portador de todo o firmamento, vive escravizado ao terreno e ao mortal.

9. Cristo e os apóstolos profetizam os tempos dos povos, cujo cumprimento é infalível, ao passo que o astrônomo prevê os tempos dos fenômenos naturais, que podem ou não ocorrer, procedendo a profecia e a astronomia de fontes distintas e só se alcançando o verdadeiro conhecimento do homem a partir de sua eternidade.

10. Com Cristo veio ao mundo a sabedoria eterna, diante da qual as sabedorias inferiores perderam valor, devendo o profeta e o apóstolo ser mais estimados que o astrônomo e o médico, sem que a astronomia seja abolida, pois cada um tem seu papel e os cristãos devem usá-la cristãmente, conhecendo tanto a luz da natureza, dada pelo Pai, quanto a luz eterna, dada pelo Filho.

Liberdade do Homem

1. A sabedoria humana não está sujeita a ninguém e conserva sua liberdade, devendo os astros obedecer ao homem, que, mesmo nascido sob Saturno, pode dominar sua influência e tornar-se filho do sol.

2. O sábio vive segundo a sabedoria divina e à imagem de seu Criador, governa os corpos sideral e elementar servindo a ambos para cumprir a lei do Senhor e viver em harmonia com a natureza e com o espírito divino, sem antepor o corpo mortal à imagem eterna, e quem imita a imagem de Deus vence os astros.