6 Homem e destino

Paracelsus. Selected Writings. Ed. Jolande Jacobi. Princeton: Princeton University Press, 1973

1. A felicidade consiste na conformidade com a ordem da natureza alcançada pelo conhecimento dela, e a infelicidade na oposição a essa ordem, de modo que quem segue seu curso próprio, na luz ou na escuridão, age bem, e só quem cai a transgride.

2. A roda da fortuna não explica a ascensão nem a queda dos homens, pois a diligência e o cuidado afastam o infortúnio e sua falta o atrai, cabendo a cada um a responsabilidade por seu destino e não tendo direito de queixar-se quem não progride por valer menos que os outros.

3. A sorte não é um mensageiro que chega por si ao preguiçoso que espera junto à lareira, mas nada mais que capacidade, conhecimento e habilidade, sem os quais ninguém obtém o que necessita na terra.

4. A sorte é uma roda movida pelo céu com seus signos e estrelas, cujo curso se opõe ao caminho dos homens na terra, dependendo a fortuna ou o infortúnio do modo como esses dois círculos se encontram.

5. O sol, o verão e o inverno distribuem igualmente a todos sua sorte.

6. A desigualdade da sorte não está no sol, que olha todos igualmente, mas no modo desigual como os homens o olham.

7. Deus redimiu e ama todos os homens igualmente, mas o amor deles por Ele é desigual, de modo que, como herdeiros iguais de um pai, só podem culpar a si mesmos, e não à sorte, quem não conserva sua herança.

8. É Deus quem faz voar o homem e lhe inspira imaginações e juízos, e quem se julga elevado ao terceiro céu sem ter sequer saído da relva destrói o fruto que dele deveria nascer, tornando-se estéril com ele.

9. O livre-arbítrio não é absoluto, pois nada se faz sem que Deus o tenha ordenado, recebendo d'Ele o poder tanto quem pratica o bem quanto quem pratica o mal, e ninguém pode afirmar que depende só de si roubar, matar ou cometer adultério.

10. Deus dá ao homem vida, força e poder, que podem servir a Deus ou ao diabo, ao próximo ou a si mesmo, mas não se pode considerar livre a vontade de quem tem atrás de si o carrasco e diante de si o juiz.

11. Deus destrói o que lhe desagrada e muda o que o homem não pode mudar por si, porque não abandona seus filhos.

12. Nenhuma certeza é acessível ao homem, criado sem presciência e ignorante da hora de sua morte e de sua saúde, sobretudo porque o diabo pode frustrar as intenções divinas, de modo que só as coisas divinas são certas e a certeza plena só surge quando eliminada a parte perecível.

13. O homem nada pode saber sobre a alma, seus sofrimentos e seu destino no Juízo, devendo por isso afastar-se das doutrinas humanas, já que não compreende a si mesmo e só pode julgar as coisas perecíveis.

14. A esperança supõe a incerteza, e a incerteza de todas as coisas funda-se na ignorância do homem sobre si mesmo, sobre sua bondade ou maldade e sobre seu destino no além, conhecidos apenas por Deus, devendo a certeza ser aguardada até o dia da ressurreição.

15. A vida é um tesouro incerto, semelhante a uma caixa de ouro e pérolas à mercê do ladrão que não poupa ninguém, devendo ser protegida e preservada em todas as ações.

16. Como numa ampulheta, a natureza conhece os limites de seu curso e concede a cada criatura a duração de vida que consome suas energias entre o nascimento e o fim predestinado.

17. Deus atribui a cada coisa um tempo de crescimento, do broto ao fruto, exposto a muitos perigos, e o mesmo vale para o homem, cuja colheita é a morte, devendo ele não desperdiçar seu tempo nem pretender colher antes da hora, pois todo fruto vem a seu devido tempo segundo a vontade de Deus.

18. O céu manifesta sua influência no tempo determinado e revela as forças e virtudes inerentes às coisas, que lhe estão sujeitas.

19. As estrelas, surgidas de seus céus no princípio dos tempos e fixas em sua ordem divina, permanecem até o fim do mundo, perecendo uma única vez, ao contrário das árvores e frutos da terra, que passam e renascem.

20. Tudo o que pertence aos outros elementos é destruído pela morte, pela ferrugem e pelas traças, subsistindo apenas o elemento celeste das estrelas, embora seus frutos venham e passem.

21. Conhecer a predestinação do céu equivaleria a conhecer o destino do homem, mas só Deus conhece seu fim.

22. A duração da vida humana é a mais curta de toda a criação, pois ouro, prata, pedra e sal subsistem até o fogo final, ao passo que o homem ignora a hora de seu fim e está exposto a cada dia a um poder que poupa o resto das criaturas.

23. Deus fixou para cada coisa, santos e pecadores, um termo de existência que ninguém pode ultrapassar, por mais piedoso e útil que seja, e a própria morte, que ignora sua hora, se empenha em não perder o minuto designado, em obediência a seu senhor celeste.

24. O que morreu de morte natural no tempo predestinado só pode ser despertado por Deus ou por sua ordem, podendo o homem reparar apenas o que ele mesmo quebrou, de modo que não há defesa contra o destino e o fim predeterminado.

25. Tudo está nas mãos de Deus, que dá a quem quer, sendo vã toda oposição humana, pois a hora da morte está predeterminada independentemente da força, do poder e dos auxílios, e tudo o que se construiu desce com o homem ao túmulo.

26. A natureza luta contra a morte com todas as forças do céu e da terra, vendo e conhecendo esse inimigo invisível, assim como a alma deve combater o diabo com todo o seu vigor, clamando de suas profundezas pelo auxílio divino.

27. A morte é o oficial de justiça, o carrasco e o arauto que conduz o homem ao Juízo de Deus para prestar contas de sua vida, sendo a terra prisão apenas do corpo, que lá aguarda o juízo enquanto o espírito vai ao Senhor, até que ambos se reúnam num destino conhecido apenas pelo Criador.

28. O que constitui o homem é o que transcende o animal, pois ele tem um Pai eterno para quem deve viver, embora tenha sido criado vivendo na animalidade, que não é sua verdadeira morada.

29. O espírito ligado à carne, nascido da natureza e guia da razão natural, é mortal, ao passo que o espírito dado por Deus, guia do conhecimento divino, é imortal, deixando ambos o homem na morte, mas só o segundo sobrevivendo.

30. A morte do homem é o fim de seu trabalho diário, a extinção de sua força curativa balsâmica e da luz racional da natureza e a separação de corpo, alma e espírito, um retorno ao ventre da terra materna onde se perde a carne natural para renascer no Juízo num corpo celeste e transfigurado.

31. A morte das coisas da natureza é uma inversão e mudança de suas forças e virtudes, destruição da primeira natureza e nascimento de uma segunda, de modo que coisas boas em vida perdem sua virtude ao morrer e coisas más em vida manifestam múltiplas virtudes após a morte.

32. A purificação do ouro pelo fogo e pelo antimônio serve de parábola à prova do corpo ressuscitado, que deverá despojar-se de toda escória terrena e passar por fusão e transformação, não para que o impuro se torne puro, mas para que a pérola nele oculta, que jamais foi impura, seja extraída e transfigurada.

33. O sumo bem só pode ser o que é imortal, eterno e imperecível, acima de todo ouro e bem elemental, pois os bens que alimentam e alegram o corpo abandonam o homem na morte, e só é verdadeiramente supremo o que conduz da morte à ressurreição e à vida eterna.

34. O sumo bem não pode ser reconhecido pelos sentidos nem pelo corpo, mas apenas pelo espírito celeste e pela alma que a ele aspira, ao passo que quem carece da luz da alma toma por sumo bem os prazeres corporais, que morrem com ele.

35. Cada animal tem seu sumo bem no elemento e no alimento que lhe são próprios, o verão para as abelhas, a presa para o lobo, a água para os peixes, mas o sumo bem do homem não é deste mundo e deve ser buscado além desta vida, pois ele está destinado a elevar-se ao Altíssimo.

36. O homem possui dois corpos, um terrestre, elemental, que desce ao túmulo, e outro sideral e sutil, que se dissolve gradualmente e retorna à sua origem, enquanto o espírito de Deus, sua imagem, retorna a Ele, repousando cada parte no meio de que foi criada.

37. Além do corpo material derivado do limbus, o homem possui um corpo imaterial e etéreo, nascido do sopro de Deus e adquirido por Adão e Eva ao comer a maçã, que lhes deu o conhecimento do bem e do mal e é a sede das faltas que ultrapassam a medida da natureza, devendo ambos os corpos, unidos como num matrimônio, ressuscitar e prestar contas, de modo que todo excesso que sobrecarrega o corpo natural constitui um adultério contra esse vínculo sagrado.

38. A primeira separação começa no homem, microcosmo para o qual foi criado o macrocosmo e que estabelece separações dentro dele, e a separação final do microcosmo ocorre na morte, quando o corpo eterno sobe ao céu como um anjo e o corpo elemental desce à terra como chumbo.

39. O corpo terreno, infértil e sem valor, é fecundado por Deus para que dele nasça o corpo da ressurreição, que não é a carne terrestre, consumida no fogo final, mas a nova criatura nascida do outro Adão e de Deus.

40. Há duas espécies de carne, a de Adão, grosseira, tangível e sólida como a terra, própria do homem mortal, que não atravessa obstáculos, e a que não procede de Adão, etérea e intangível, que atravessa paredes sem nada quebrar.

41. Na vida bem-aventurada o alimento não é buscado na terra como fazem os animais, mas na eternidade, como o dos anjos, pois o homem, criado à imagem de Deus e senhor dos animais, deve nutrir-se das coisas eternas, embora tenha perdido, ao ser expulso do paraíso, parte de sua essência imortal.

42. O saber adquirido na terra determina a morada de cada um na casa de Deus após a ressurreição, pois a investigação das coisas conduz a Deus e afasta dos vícios mundanos, como a servilidade aos príncipes e as maneiras cortesãs, devendo o homem, em vez de mera obediência, amar o próximo, da qual a obediência brota naturalmente.

43. É ingênua a filosofia que coloca toda bem-aventurança nos elementos terrestres e tola a opinião que faz do homem a mais nobre das criaturas, havendo outros mundos além deste, e no fim todas as coisas, inclusive as pequenas flores que murcham, serão reunidas em seu aspecto eterno, pois nada criado no mysterium magnum deixará de estar representado na eternidade.

44. No fim do mundo todas as coisas serão reveladas em sua natureza, causa e sentido, distinguindo-se os verdadeiros sábios dos charlatães e os que escreveram a verdade dos que traficaram mentiras, retribuindo-se a cada um segundo sua diligência e veracidade e expondo-se à luz os corações e as faltas de todos.

45. Como descendentes de Adão os homens são pó e cinza numa vida de discórdia, miséria e sofrimento, devendo renunciar a buscar no corpo o que nele não se encontra e dirigir pela paciência seus pensamentos ao paraíso, onde os aguardam uma nova vida, uma nova ordem e um novo pai.

46. O homem é a criatura mais amada por Deus, mais que os anjos, como prova a morte de Cristo por ele e não por Lúcifer, pois o homem é a ovelha perdida e reencontrada que traz em si a eternidade e pela qual Deus morreu na cruz para que a carne não o levasse à danação eterna.

47. Cristo, ao entregar sua vida na cruz, não perdeu, mas venceu a batalha, ressuscitando e subindo ao céu, pois só o vencido e abatido conquista verdadeiramente a vitória.

48. O relâmpago, cuja força e natureza maravilhosa mal se podem conceber e ao qual Cristo comparou sua segunda vinda, deve servir de advertência para não pecar nem desviar-se do caminho de Deus.

49. Na terra não há alegria sem suor, angústia e sofrimento, ao passo que no corpo eterno, após deixar este mundo, encontram-se repouso e alegria infinitos.

50. Cada homem carrega sua cruz como cada dia traz seus cuidados, e é sob a cruz, ela mesma celeste, que se entra no Reino dos Céus.

51. O mundo inteiro, com seus elementos, firmamento, pedras e metais, será consumido pelo fogo sem que nada possa resistir-lhe, retornando todas as coisas ao estado original em que o espírito de Deus pairava sobre as águas, sem que subsista nada de perecível.