1.1.8 Anúbis

A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.

1. Anúbis, que segundo as tradições egípcias recolhidas por Diodoro da Sicília acompanhou Osíris na expedição às Índias vestido com pele de cão, não foi confundido pelos transmissores gregos da mitologia egípcia, como Museu, Orfeu, Melampo, Eumolpo e Homero, com Mercúrio Trismegisto, mas com outro Mercúrio pouco conhecido, e o equívoco de mitólogos como o abade Banier e o padre Kircher, induzidos pelas interpretações de Horapolo sobre o cão como símbolo de ministro e sábio e pelo nome de Herm-Anúbis dado por Plutarco, poderia ter sido evitado pela descrição de Apuleio, que o apresenta como intérprete dos deuses celestes e infernais, de face ora negra ora dourada, com cabeça de cão, caduceu e palma verde, e sobretudo pelo monumento antigo dedicado pelo sumo sacerdote Isias aos deuses irmãos Serápis ou Osíris, Ápis e Anúbis, chamados sintronos do Egito, cuja fraternidade, aparentemente contrária às versões de Plutarco, que o faz filho de Néftis, e de Diodoro, que o faz filho de Osíris, revela que todas essas tradições se referem a um único sujeito, conhecido em seus mistérios por Isias e apenas repetido sem compreensão pelos historiadores gregos.

2. Havia no Egito dois Mercúrios, Trismegisto, inventor dos hieróglifos dos deuses fabricados pelos homens e objeto da arte sacerdotal, e Anúbis, um desses próprios deuses, ambos dados como conselheiros a Ísis, o primeiro para o governo exterior e o segundo para o governo interior, o que permite conciliar a aparente contradição de Anúbis ter acompanhado Osíris e ser ao mesmo tempo seu filho e seu irmão.

3. Sendo Osíris, idêntico a Serápis ou Amon e representado com cabeça ou chifres de carneiro por sua natureza quente e úmida, o fogo da Natureza, princípio ígneo, gerador e masculino, e Ísis, figurada com cabeça de touro por sua relação com a Lua e por seu caráter pesado e terrestre, a umidade radical, a terra e a matriz passiva desse fogo, ambos compondo um só sujeito, Anúbis, colocado entre Serápis e Ápis no monumento de Isias, é o Mercúrio filosófico, a água mercurial nascida da dissolução dessa matéria no vaso, filho real de Osíris e Ísis por geração e filho de Tífon e Néftis apenas como causas ocasionais da destruição e da putrefação, motivo pelo qual, ainda muito jovem, anuncia a Ísis a morte de Osíris, que figura essa putrefação, conforme Raimundo Lúlio ao afirmar que o filho filosófico tem dois pais e duas mães, sendo essa água chamada água da sabedoria por conter todo ouro e prata e o espírito da quintessência, e sendo o fogo, a terra e a água dessa matéria irmãos como os elementos e deuses sintronos por constituírem, sob nomes diversos, uma só coisa, unidade de três princípios manifestada pelo triângulo gravado no monumento.

4. O Mercúrio filosófico acompanha Osíris em sua viagem porque permanece sempre no vaso e atravessa o negro ou a Etiópia, o branco e as demais etapas, e todos os seus atributos confirmam essa natureza, pois a cabeça de cão o designa como ministro que conduz todo o interior da obra, o caduceu o identifica como Mercúrio, a face ora negra ora dourada indica as cores da obra, o crocodilo anfíbio sobre o qual está de pé, acompanhado do presericulum e da pátera, mostra que nasce da terra e da água, e o fardo representa o comércio realizado por meio do ouro simbolizado pelo globo em sua mão, globo frequente nos hieróglifos egípcios por remeter à arte sacerdotal, significando com a cruz o ouro composto dos quatro elementos harmoniosamente combinados, alado o ouro a ser volatilizado para adquirir virtude transmutativa e envolto por uma serpente a putrefação que precede a volatilização, entendendo-se sempre o ouro filosófico ou Sol hermético e não o ouro comum, que nenhum assoprador deve pretender destilar com águas-fortes ou dissolventes semelhantes na ilusão de alcançar a meta.