DA DIGNIDADE DO HOMEM – MAGIA

Giovanni Pico della Mirandola, De la dignité de l'homme (1487, 1- ed. póstuma 1496), trad. do latim: P.M. Cordier, Nouvelles Éditions Debresse, bilíngue, 1957 p. 171-177. Trad. Yara Azeredo Marino

Propus também teoremas de magia, nos quais demonstrei existir uma dupla magia: a que depende inteiramente da obra e do poder dos demônios, coisa execrável e monstruosa na verdade; e a que não é, após ser examinada detidamente, nada mais do que o resultado absoluto da filosofía natural. Os gregos, quando as mencionam, recusam à primeira o nome de magia e a denominam goeteia. Eles designam a segunda sob o nome próprio e particular de magheia, como a perfeita e suprema sabedoria. Porfírio disse de fato que na língua dos persas mage significa para nós o mesmo que “intérprete e sacerdote das coisas divinas”. Existe realmente uma disparidade e diferença muito gtande, ó Pais, entte essas duas artes. Não somente a religião cristã, mas todas as leis e todo estado bem ordenado condenam e execram a primeira. Todos os sábios, todos os povos ciosos das coisas celestes e divinas aprovam e seguem a segunda. A primeira é a arte mais enganadora: a segunda, a filosofia mais elevada e mais santa. A primeira é nula e vã; a segunda, firme, digna e sólida. Quem quer que tenha praticado a primeira sempre a disfarçou, pois ela se torna a vergonha e o vitupério daquele que se entrega a ela. Quanto à outra, obteve-se, desde a Antiguidade e quase sempre depois, a glória e o renome mais elevados no campo do saber. Nenhum filósofo célebre e desejoso de aprender as boas artes estudou a primeira; para estudar a segunda, Pitágoras, Empédocles, Demócrito e Platão percorreram os mares e no seu retorno a pregaram e a consideraram a principal entre as coisas ocultas. A primeira é muito contestada pelos auto-tes confiáveis; a segunda, como ilusttada por célebres pais, tem principalmente dois autores: Zalmoxis, que imitou Abaris Hiperbóreo, e Zoroastro, talvez não aquele em quem pensais, mas o filho de Otomasius. Se perguntarmos a Platão qual é a magia desses dois últimos, ele responderá no Alcibíades que a magia de Zoroastro é a ciência das coisas divinas, que os reis da Pérsia ensinavam a seus filhos, para que eles aprendessem a governar seu estado, por imitação à república do mundo. Em Carmides ele nos responderá que a magia de Zalmoxis é a medicina da alma, pela qual a temperança é concedida à alma, assim como, por ela, a saúde é restituída ao corpo. Sobre suas pegadas marcham Carandas, Damigeron, Apolônio, Ostanès e Dardanos. Homero nela persistiu: provaremos um dia em nossa teologia poética que ele simbolizou, como todos os outros conhecimentos, igualmente esta, nas viagens de seu Ulisses. Eudoxo, Hermipo e quase todos os que estudaram os mistérios de Pitágoras e de Platão fizeram o mesmo.

Mais recentemente, entre os que demonstraram interesse por essa magia menciono três: o árabe Alchindus, Roger Bacon e Guilherme de Paris. Plotino também lhe fez menção quando demonstrou que o mago é o ministro e não o artesão da natureza: esse homem muito sábio aprova e sustenta a verdadeira magia e detesta de tal modo a falsa que, convidado ao culto dos maus espíritos, respondeu ser preferível que os maus espíritos viessem a ele, em vez de ele próprio ir até eles. De fato, da mesma forma que a falsa magia torna o homem escravo e o consagra aos poderes malévolos, também a verdadeira magia o torna mestre e senhor desses poderes. Enfim, a primeira não pode reivindicar a designação de arte nem de ciência; a segunda, repleta de poderosos mistérios, abraça a contemplação mais profunda das coisas mais secretas e por fim o conhecimento de toda a natureza: faz surgir como de seus esconderijos, em plena luz, as forças difundidas e semeadas no mundo pelo benefício de Deus; ela certamente não faz milagres, mas serve com assiduidade a natureza que os realiza. Tendo perscrutado profundamente a harmonia do universo, que os gregos denominam de maneira expressiva sumpatheia, possuindo a fundo o conhecimento das relações dos elementos naturais, aplicando a cada coisa seus encantos naturais e os seus próprios, designados entre os magos iugghés, encantamento, ela revela publicamente, como se não fosse a autora, as maravilhas ocultas nos lugares mais afastados do mundo, no seio da natureza, nas reservas e nos segredos de Deus. E como o agricultor une os olmos às vinhas, o mago une a terra ao céu, isto é, o mundo inferior às virtudes e às forças do mundo superior. É por isso que tanto a primeira magia parece monstruosa e nociva quanto a segunda parece divina e salutar. E por isso que a primeira, entregando o homem aos inimigos de Deus, afasta-o de Deus; a segunda faz com que admire as obras de Deus, que a caridade vigilante, a fé e a esperança perseguem. Nada de fato conduz mais ao culto de Deus do que a contemplação assídua das Suas maravilhas. Quando, graças a essa magia natural da qual falamos, tivermos explorado bem essas maravilhas, mais ardentemente para honrar e amar o Criador, seremos forçados a cantar: “Os céus, assim como toda a terra, estão repletos da majestade de tua glória”. Falei bastante sobre a magia: falei porque sei que há muitos que, qual cães que sempre ladram contra desconhecidos, condenam e abominam o que não compreendem.