A alquimia afirmou-se no Ocidente por mais de meio milênio, do século XI ao XVII, cultivada especialmente no seio das cortes em disputa pela riqueza, mas conservando constantemente seu caráter soteriológico – como atesta a definição falsamente atribuída a Lúlio, que a reconhece simultaneamente como filosofia natural oculta, ciência, obra de purificação espiritual e busca da saúde ótima, a despeito de Rogério Bacon insistir nos aspectos do conhecimento natural que ela privilegia.
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Na Renascença a alquimia conheceu grande florescimento, destacando-se a figura misteriosa do frade Basílio Valentim e, sobretudo, Paracelso (1493-1541), cujos escritos o apresentam como médico que cura almas e corpos, conhecedor dos laços secretos que ligam o mundo dos astros à realidade da Terra e mediador ativo entre a natureza, os homens e Deus.
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Embora o pensamento renascentista em alguns aspectos polêmicos se distanciasse da tradição dogmática para dar relevo à livre investigação da natureza e do homem, não procedeu a uma separação brusca da tradição ontológico-místico-religiosa precedente, conservando o relevo cosmológico e místico do naturalismo e a importância do patrimônio clássico.
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A tradição aristotélica teve influência predominante na formação do espírito da Renascença, com reapparecimento dos temas do averroísmo e cultivo de uma visão que distingue o âmbito religioso do filosófico; ao mesmo tempo, a tradição platônica transmitiu à cultura renascentista uma tensão unitária capaz de ligar macrocosmos e microcosmos, homem e universo e visão de conjunto do universo à tradição religiosa.
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Na Renascença, o alquimista se apresenta como personagem de poderes superiores capaz de remontar às origens do mundo e da vida para promover a reconstrução do homem e da natureza decaídos pelo pecado original – uma nova redenção em que participam a igual título o mundo do homem e a realidade da natureza –, sendo a transmutação dos metais em ouro e a descoberta do remédio universal manifestações aparentes de um processo mais vasto em que se afirma a unidade do mundo com Deus e de ambos com o destino do homem.
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Foi na Renascença e nos decênios que precederam o nascimento da ciência moderna que a alquimia conheceu seu máximo desenvolvimento, mas cessou praticamente de existir com o advento da química científica pela obra de Boyle, Lavoisier e Dalton, sobrevivendo apenas em estruturas isoladas como a École hermétique de Paris e a Société alchimique de France.
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Na desaparição da alquimia deve ver-se o resultado não apenas da emergência da química moderna, mas também da mentalidade do cientismo e do racionalismo modernos.
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Não é lícito interpretar, como fez o iluminismo seguido pelo positivismo e pelo cientismo contemporâneo, todo o fenômeno histórico da alquimia como simples antecedente precursor da química moderna – essa interpretação levou muitos estudiosos a investigar nos desenvolvimentos da alquimia apenas os antecedentes remotos das descobertas subsequentes, concedendo significado puramente negativo a todo o contexto do magistério que não podia ser assimilado aos aspectos artesanais.
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A visão simplista segundo a qual a humanidade teria passado de um longo período de trevas à claridade definitiva da razão levou muitos a explicar a longa presença da alquimia durante mais de um milênio, em civilizações diversas, como simples incidência psicológica de uma ilusão ou resultado de um engano, atribuindo a uma grosseira mentalidade mágica o que servia para encobrir a aspiração concreta ao fabrico do ouro e ao domínio da vida econômica.
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A psicologia das profundezas, representada por Jung (1944), considerou ter descoberto no mundo das imagens alquímicas uma confirmação da doutrina do inconsciente coletivo, interpretando o alquimista como alguém que, na aspiração de fabricar ouro, daria forma às forças instintivas do inconsciente habitante no seio da coletividade – mas essa interpretação, ao atribuir a um fundo psíquico informe o que o alquimista concebia como expressão mais elevada de sua vida espiritual, converte em instrumentos passivos de impulsos psíquicos inconscientes aqueles que se consideravam operadores responsáveis de uma síntese cultural plenamente explícita e significativa.
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Só a perspectiva criticamente mais avisada da recente antropologia cultural, ligada a uma compreensão mais adequada da realidade histórica, está à altura de nos indicar, de modo mais completo, o significado da alquimia na história do homem. De um modo geral, a alquimia deu forma a uma visão do universo e da sua relação com a vida humana que a ciência moderna, na sua crescente especialização e na preocupação de aderir, de modo cada vez mais completo, à variedade da experimentação, abandonou e que hoje, a seguir ao recuo crítico das pretensões ao absoluto da própria ciência, o homem contemporâneo volta a considerar, embora em termos profundamente mudados.