Ao lado do Deus profundamente escondido e insondável, a divindade se exprime também no contexto de seus atributos, que a tornam cognoscível — e os dez sefirot são exatamente as dez potências ou emanações divinas, os dez atributos fundamentais de Deus nos quais sua vida escondida se exprime e se revela.
Os estudiosos divergem quanto à natureza dos sefirot: segundo uns, são entidades intermediárias entre Deus e o mundo à maneira do neoplatonismo; segundo outros, são momentos internos da própria realidade divina.
O Deus inefável e infinito explica seu poder criativo por meio de dez atributos distintos que articulam a unidade divina sem quebrá-la: por um lado, representam a riqueza dos modos pelos quais Deus se dilata na multiplicidade do universo; por outro, constituem canais pelos quais a alma pode cumprir seu retorno a Deus.
A realidade de Deus encontra plena correspondência na estrutura da Bíblia, que também revela, sob a multiplicidade de suas propostas, uma unidade divina que se alarga infinitamente — a Bíblia, para além dos significados determinados, não pode ser compreendida mas apenas abordada por aproximações, porque na sua raiz propõe uma revelação infinita e inexaurível.
O caráter infinito da revelação não encontra expressão suficiente no sentido literal das Escrituras nem nas significações homiliásticas e alegóricas, sendo ultrapassado pelo significado místico, que constitui o ponto mais elevado da originalidade religiosa que a tradição cabalística quer salvaguardar — para alguns expoentes mais audaciosos, o verdadeiro sentido literal da Escritura deve ser identificado com o significado místico, o que entra em polêmica aberta com o hebraísmo convencional.
Foi essa tensão dialética entre as duas atitudes opostas que permitiu à substância religiosa do hebraísmo desenvolver-se por formas relativamente harmônicas, extraindo o máximo proveito tanto do peso efetivo da tradição quanto dos contributos originais da experiência mística.