Os nomes mais habituais dos dez sefirot — a coroa suprema, a sabedoria ou ideia primordial, a inteligência, o amor ou graça, a potência que julga e pune, a misericórdia mediadora, a duração estável ou eternidade, a majestade, o fundamento das forças genesíacas e o reino de Deus como arquétipo místico da comunidade hebraica — formam em conjunto o universo unificado da vida divina, oferecendo ao místico um esquema de referência que garante simultaneamente a unidade divina e a inexaurível multiplicidade dos símbolos de sua criatividade especulativa.
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Na visão cabalística do mundo, o homem ocupa lugar central no universo e toda a natureza está subordinada à sua criação; antes da queda, a imagem de Deus refletia-se nele, mas depois da queda e do pecado o abandonou.
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O Zohar considera o nascimento como uma descida da alma do jardim do Éden até a Terra e reconhece a dependência do homem em relação aos influxos cósmicos — os planetas exercem ação misteriosa sobre vários órgãos do corpo.
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Os cabalistas da Provença admitem a transmigração da alma de corpo para corpo, embora Scholem pense que nesse ponto sofreram a influência dos Cátaros.
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O místico cabalista insiste com igual firmeza tanto na imanência de Deus ao homem e à realidade quanto em sua exata configuração pessoal, mantendo os dois extremos do dilema entre panteísmo e personalidade de Deus sem o perceber como tal — e o Zohar afirma que, em meditação mística, cada coisa se revela como una, estando todas as coisas da criação ligadas entre si.
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Cordovero, no século XVI, esforçou-se por conciliar teísmo e panteísmo na explicação da doutrina hermética do Zohar, afirmando que Deus é a realidade, ainda que a realidade não seja Deus.
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Os estudiosos costumam recordar a posição doutrinal de Espinosa, afirmada um século mais tarde e que indubitavelmente recebeu da mística cabalística uma inspiração de fundo, ainda que elaborada com instrumentos racionais novos.
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A doutrina do zimzum de Yishaq Luria, no século XVI, opõe ao critério tradicional da emanação — pelo qual o processo cosmológico se entendia como Deus projetando sua potência criadora para fora de si mesmo no espaço — a doutrina da concentração ou contração, segundo a qual o en-sof age por um movimento para o interior, por uma espécie de regresso a si mesmo, como se Deus houvesse sido constrangido a dar lugar ao mundo abandonando uma região de si próprio.
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Perante tal explicação, os cabalistas mais próximos da piedade hebraica reagiram com escândalo, embora outros tenham considerado o paradoxo de Luria um importante contributo para explicar a relação entre Deus e a criação.
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Não é difícil aproximar as observações de Hegel acerca do ser e do nada, ou da passagem do indeterminado ao mundo das determinações, das intuições de certos textos essenciais da tradição cabalística — embora nestes falte o desenvolvimento da especulação racional, substituído por uma avassaladora intuição mística.
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O mesmo pode dizer-se da aspiração à totalidade que guia o místico e o faz considerar Deus como tudo em tudo, embora nos desenvolvimentos da reflexão filosófica essa totalidade perca frequentemente a conotação religiosa e seja traduzida em sentido naturalista.
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Os elementos profundos da experiência sexual não ficaram totalmente estranhos à organização da intuição mística cabalística, mas a linguagem do sexo é usada pela cabala não para aprofundar as relações do homem com Deus, mas para descrever a íntima relação que Deus tem consigo mesmo e que nele determina a força geradora da criação.
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O princípio sexual introduz na unidade da divindade uma antítese e uma divisão que o místico não hesita em manter afirmando simultaneamente o monoteísmo, articulando mais finamente a vida interna da divindade na referência à dualidade.
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O motivo do pecado introduz igualmente uma espécie de divisão interna tanto da divindade quanto do mundo, mas sem negar a queda e seu caráter original, a cabala tende muitas vezes a diminuir-lhe o relevo ou a não colocar a questão em termos excessivamente drásticos, dado o perigo que aí corre a noção da unidade da vida divina.