Para além da gramática especulativa e da combinatória, as letras possuem uma realidade mais profunda que só a exegese cabalística pode descobrir, colocando-se para além de qualquer lógica racional e de qualquer simples mecânica combinatória — e é nessa profundidade que se situa o estágio mais avançado da penetração mística.
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Na ascese cabalística distinguem-se duas vias: a via dos sefirot, também chamada via rabínica, que tem precedência na meditação, e a via dos nomes ou via profética, que sucede à primeira e representa um estágio mais avançado.
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A via ordinária tem início com o afastamento da alma de todas as formas naturais e imagens do mundo familiar; a reflexão filosófica pode ajudar nessa direção ao fornecer o conhecimento das várias ciências, mas pode constituir também um impedimento, pois quem se abandona à doçura do saber não encontra portas nem saídas que lhe consintam sair dos conhecimentos já adquiridos, segundo o Sha'areh zedeq citado por Scholem.
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A cabala indica uma direção contrária à das ciências da natureza: ensina o método da permutação e combinação das letras e a mística dos números, mas ao fim exige apagar também tudo isso, pois é preciso separar-se de toda forma finita, mesmo a do mais alto grau.
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A via dos nomes em sua mais alta expressão, segundo Scholem, é esta: quanto mais os nomes são incompreensíveis, tanto mais alto é seu nível, até que se chegue a sentir o efeito de uma força que não está sob o domínio do místico, por ser ela própria a ter sob seu domínio o intelecto e o pensamento.