A mística da merkavah, que ocupa o período do século I a.C. ao século X d.C., gira em torno da história da criação e tem como objeto fundamental a visão do trono de Deus – daí ser também designada mística do trono –, não aprofundando propriamente a natureza insondável de Deus, mas considerando sua manifestação nas supremas expressões da divindade em que estão contidas todas as modalidades da criação.
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O ponto de chegada da viagem mística não é a fusão com o infinito, mas a contemplação da corte divina e do trono de Deus, percorrida em sete etapas através dos palácios celestes e suas salas, mediante técnica própria, práticas mágicas e rituais e condição de dignidade interior.
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O caráter da mística do trono é basiliomórfico – não cosmológico –, ou seja, estrutura-se não pela descrição do universo ou da ordenação dos Céus, mas pela descrição da corte de Deus e suas hierarquias, evocando sob certos aspectos as condições históricas da realeza terrena dos séculos IV e V.
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A suprema majestade de Deus, concebida como rei sentado no trono, coloca-o a tal distância do místico que nem o momento extático a pode eliminar – não se insiste na união mística da alma com Deus, e a alma permanece perante Deus sem se confundir em sua infinitude.
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A forma literária dos textos que documentam essa mística é predominantemente o louvor e a exaltação de Deus em todos os aspectos de sua majestade e glória, com o mesmo cuidado em não omitir títulos honoríficos que manifesta o súdito perante o soberano.
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A mística do trono induz muitas vezes o místico a acentuar uma espécie de corporeidade de Deus de dimensões imensas – a isso se refere a revelação do Shi'ur qoma, a medida do corpo de Deus, ligada à mística da merkavah e destinada provavelmente a fazer sentir a infinita grandeza de Deus em relação à realidade insignificante do homem.