REUCHLIN

Johannes Reuchlin (1455-1522)

François Secret. Kabbalistes chrétiens de la Renaissance

Johannes Reuchlin, humanista de Pforzheim que grecizou seu nome para Capnion, interessou-se pela cabala na Itália, onde encontrou Pico della Mirandola entre os humanistas de Florença.

A primeira obra de Reuchlin sobre a cabala foi “De Verbo mirifico” (O verbo admirável, 1494), um diálogo entre um filósofo epicurista (Sidonius), o judeu Baruquias e o cristão Capnion.

Baruquias examina os diferentes nomes de Deus: Ehyeh (essência de Deus separada das criaturas), Hu (Senhor) e Esh (fogo), que são um modo de Trindade e representam a suprema essência de Deus.

Baruquias chega ao nome Elohim, e ao Tetragrama YHWH, que é o nome admirável e impronunciável, o Shem ha-meforash de setenta e duas letras.

O monge beneditino Nicolau Ellenbog, que estudou hebraico e cabala, correspondeu-se com Reuchlin pedindo explicações sobre os 72 signos (selos) tirados dos 72 versículos do saltério.

No “De Verbo mirifico”, Baruquias demonstra que o Tetragrama é a Tetractys imitada por Pitágoras, pois o quaternário engloba toda a filosofia e o universo (quatro elementos, quatro qualidades, quatro princípios geométricos, quatro figuras de Ezequiel).

No terceiro livro, Capnion reúne todos os poderes no nome de Jesus (Yeshua), explicando o sentido do título da obra (“O verbo admirável”).

O De arte cabalistica

O “De arte cabalistica” (A arte cabalística) é um desenvolvimento do “De Verbo mirifico”, ainda em forma de diálogo, com três interlocutores: Philolaus Pitagórico, Shimôn ben Eliezer (descendente de Shimôn ben Yochai) e Marrano, o maometano.

Shimôn, no primeiro livro, explica que a cabala é uma alquimia que transforma as percepções externas em internas, e depois em imagens, opinião, razão, inteligência, espírito e, finalmente, em luz (deificação).

Shimôn faz a história da transmissão da cabala desde Adão (instruído pelo anjo Raziel) até Pico della Mirandola, passando pelos patriarcas (cada um com seu anjo) e profetas.

Após a interrupção do sábado (fim do primeiro livro), o segundo livro trata da origem do pitagorismo, dos números, da ressurreição e da metempsicose.

No terceiro livro, Shimôn retoma a exposição da cabala com o tema do Shabbat, que é o mistério do Deus Vivo, o símbolo do mundo superior, do jubileu eterno, onde cessa todo trabalho.

Além das cinquenta portas, os cabalistas propõem os trinta e dois caminhos da sabedoria, a partir do “Sefer Yetzirah”: “Deus Tetragrammaton Sabaoth esculpiu seu nome mediante os trinta e dois caminhos admiráveis da sabedoria”.

Shimôn explica a litania dos 72 nomes de Deus (Shem ha-meforash) a partir dos versículos 19, 20 e 21 de Êxodo 14.

Shimôn descreve então as dez Sefirot (Keter, Chokhmah, Binah, Chesed, Gevurah, Tiferet, Netzach, Hod, Yesod, Malkhut), que alguns representam sob a forma de árvore, outros sob a forma de homem.

A exposição das Sefirot inspirou o poeta Guy Le Fèvre de La Boderie, que tentou cantá-las em versos (cada Sefirá recebe múltiplos nomes: a décima é o Reino, a Pedra de Safira, a Belíssima Noiva, a Rainha dos pássaros, Águia de dignidade, habitação da Divindade; a nona é a Justiça, a força, o fundamento da profecia de Davi).

Shimôn trata dos diferentes procedimentos da cabala: Gematria (valor numérico das palavras), Notariqon (interpretação das letras de uma palavra como abreviatura de uma frase inteira) e Temurah (substituição de letras segundo regras definidas, como o alfabeto Ath Bash).

O terceiro livro termina com uma exposição dos outros nomes de Deus e dos anjos (bons e maus), com suas virtudes e seus selos.

O “De arte cabalistica” termina com uma carta ao papa Leão X sobre a questão do “Augenspiegel”. O papa, que foi favorável a Reuchlin por muito tempo, condenou o “Augenspiegel” apenas após a revolta de Lutero (1520), o que levou posteriormente à colocação no índice de todas as obras de Reuchlin.