RIFFARD, Pierre. L’ésotérisme: qu’est-ce que l’ésotérisme? Anthologie de l’ésotérisme occidental. Paris: Robert Laffont, 1990.
A pergunta sobre a natureza do esoterismo é tipicamente respondida pelo esoterista não com uma explicação direta, mas com um ato que remete o questionador de volta à sua própria interrogação, indicando que a resposta reside na própria curiosidade.
A resposta do esoterista pode ser um gesto não verbal, como apresentar um espelho ou apontar para o longínquo, em vez de um discurso.
Ao devolver a pergunta, o esoterista faz com que o questionador se encontre diante de sua própria busca, o que representa um progresso.
A abordagem proposta para compreender o esoterismo não é o confronto direto com o esoterista, mas uma aproximação indireta e gradual, que permite regular a distância e evita os perigos de um ataque frontal ou de uma fuga.
A técnica consiste em dar uma grande volta, aproximando-se por círculos concêntricos, o que é uma característica distintamente humana, conforme observado por Platão ao valorizar “a estrada mais longa”.
O rodeio evita a tentação da fuga e a insensatez do ataque, sendo o caminho mais curto em um labirinto algo que geralmente leva a um perigo.
A investigação deve partir do reconhecimento de que o esoterismo se encontra em uma posição de distância e afastamento, o que impõe uma questão fundamental e inevitável sobre a própria possibilidade de se falar sobre ele.
A situação de distância sugere que o esoterismo está à parte, suscitando uma terrível suposição.
O problema central a ser enfrentado antes de tudo é se é possível discorrer sobre o esoterismo.
A questão fundamental sobre a exposição do esoterismo aplica-se tanto à perspectiva de quem o pratica quanto à de quem o estuda, exigindo que se considere a proibição intrínseca ao seu objeto de estudo: as doutrinas secretas e as práticas iniciáticas.
Para quem pratica (o esoterista), trata-se do primeiro problema; para quem estuda (o esoterólogo), trata-se do último problema.
Falar de esoterismo implica necessariamente confrontar a proibição de divulgar o que é secreto, contado ou mencionado.
A questão do esoterismo se desdobra em três perguntas distintas, que abordam, respectivamente, a validade da noção, a permissão para tratá-la em relação ao seu complementar exotérico e a possibilidade real de se construir um discurso sobre o que é, por definição, secreto.
A primeira pergunta indaga se é válido falar *de* esoterismo, questionando se a própria noção tem razão de ser ou se é uma ideia a ser rejeitada.
A segunda pergunta investiga se é permitido falar *do* esoterismo, considerando a possível repressão e a relação contraditória com o exoterismo.
A terceira pergunta explora a possibilidade de falar *o* esoterismo, ou seja, em que condições um discurso sobre o secreto não se torna radicalmente impossível.
O problema central é uma questão prévia sobre a própria existência e sentido do esoterismo, anterior a qualquer discussão sobre seus temas ou história, indagando se a noção possui um sentido, e não qual seria esse sentido ou valor.
A controvérsia em torno do esoterismo atinge o seu próprio ser, sua realidade e seu significado.
A questão prévia não é sobre o valor ou sentido do esoterismo, mas sim se ele tem algum sentido, se a noção é válida ou uma farsa, se é metafísica ou uma fábrica de mistificações.
A desconfiança em relação ao esoterismo é radical e se manifesta não como um esforço de discernimento, mas como uma escolha binária entre ser ou não ser, uma atitude de acusação em vez de debate, que visa exterminar a ideia em vez de discuti-la.
A desconfiança não pergunta o que o esoterismo é, mas se ele é ou não é, classificando-o como alucinação ou devaneio.
A deliberação sobre o esoterismo se transforma em acusação, com uma atitude feroz que visa exterminadores e culpados, não adversários em um debate clássico.
O esoterismo é alvo de uma agressividade imediata e essencial que não se verifica em outras disciplinas, onde as críticas se dirigem a aspectos específicos e não à existência ou sanidade da própria área de conhecimento.
Em matemática, política ou teologia, as críticas recaem sobre demonstrações, opiniões ou crenças, sem jamais se suspeitar da invalidade fundamental da disciplina ou da loucura do interlocutor.
A simples menção da palavra “esoterismo” provoca escárnios e recusas ao debate, acusações de charlatanismo e pseudofilosofia, um tratamento que não é dispensado a outras áreas do saber.
O adversário do esoterismo julga a ideia não por sua validade intrínseca, mas por sua conveniência e compatibilidade com seu próprio sistema de representações, o que leva a uma distorção do problema, pois o esoterismo é naturalmente incompatível com os valores da lógica formal.
O adversário, ao aplicar um pensamento lógico a um sistema que opera fora dessa lógica, comete um sofisma, transformando a questão da validade em uma questão de adequação a um universo pré-estabelecido.
Essa astúcia, ainda que ingênua, leva ao desmoronamento da ideia de esoterismo, pois ela é julgada por uma regra que lhe é estranha, onde a incompatibilidade é automaticamente interpretada como ausência de valor.
O esoterismo é caracterizado não como um pensamento falso, mas como um falso pensamento, destituído de estatuto de conhecimento e equiparado a delírios, erros e mentiras, sendo assim desqualificado sumariamente ou por meio de argumentações que visam provar seu suposto ilogismo.
A acusação de divagação implica que as obras de arte esotéricas são fantasmagoria, as práticas iniciáticas são auto-sugestão e os conhecimentos secretos são ilusões ou mistificações.
Exemplos históricos de desqualificação incluem a definição da cabala como aberração (Reinach), o “confusionismo mental” de Guénon (Étiemble), a classificação da alquimia como ocupação de loucos (Fourcroy) e a redução da magia a uma falsa ciência e arte estéril (Frazer).