Música, imagem da produção universal ds coisas

TANNER, André. Gnostiques de la Révolution. Paris: Engloff, 1946

DOS ERROS E DA VERDADE

Não basta termos visto na perfeita harmonia a representação de todas as coisas em geral e em particular, podemos ainda ver nela, através de novas observações, a fonte dessas mesmas coisas e a origem dessa distinção que se fez antes do tempo entre os dois princípios e que se manifesta todos os dias no tempo.

Para esse efeito, não percamos de vista a beleza e a perfeição dessa perfeita harmonia que tira de si mesma todas as suas vantagens; julgaremos facilmente que, se ele tivesse permanecido sempre em sua natureza, a ordem e a harmonia justa teriam subsistido perpetuamente, e o mal seria desconhecido, porque não teria nascido, ou seja, nunca teria havido senão a ação das faculdades do princípio bom, que se teria manifestado, porque ele é o único real e o único verdadeiro.

Como é que o segundo princípio pôde tornar-se mau? Como é que o mal pôde nascer e aparecer? Não foi quando o som superior e dominante da corda perfeita, a oitava, foi suprimido e outro som foi introduzido em seu lugar? Ora, qual é esse som que foi introduzido no lugar da oitava? É aquele que a precede imediatamente, e sabemos que o novo acorde resultante dessa mudança se chama acorde de sétima. Sabemos também que esse acorde de sétima cansa o ouvido, mantém-no em suspense e pede para ser “salvo”, em termos artísticos.

É, portanto, pela oposição desse acorde dissonante e de todos aqueles que dele derivam ao acorde perfeito que nascem todas as produções musicais, que nada mais são do que um jogo contínuo, para não dizer uma luta entre o acorde perfeito ou consonante e o acorde de sétima, ou geralmente todos os acordes dissonantes.

Por que essa Lei, assim indicada pela Natureza, não seria para nós a imagem da produção universal das coisas? Por que não encontraríamos aqui o princípio, como encontramos acima a montagem e a constituição na ordem dos intervalos do acorde perfeito? Por que, digo eu, não tocaríamos com os dedos e os olhos a corrida, o nascimento e as consequências da confusão universal temporal, já que sabemos que nesta Natureza corpórea, existem dois princípios que estão incessantemente opostos, e uma vez que ela só pode se sustentar com a ajuda de duas ações contrárias, de onde provêm o combate e a violência que nela percebemos: mistura de regularidade e desordem que a harmonia nos representa fielmente pela combinação de consonâncias e dissonâncias, que constitui todas as produções musicais? […]

Voltemos novamente à sétima e observemos que, se é ela que diverge do acorde perfeito, é também por ela que se dá a crise e a revolução, de onde deve surgir a ordem e renascer a tranquilidade do ouvido, já que, após essa sétima, somos inevitavelmente obrigados a retornar ao acorde perfeito. Não considero contrário a esse princípio o que se chama em música de sucessão de sétimas, que nada mais é do que uma continuidade de dissonâncias, e que não se pode absolutamente dispensar de terminar sempre com o acorde perfeito ou seus derivados.

Será, portanto, essa mesma dissonância que nos repetirá o que acontece na Natureza corpórea, cujo curso não é senão uma sucessão de perturbações e reabilitações. Ora, se essa mesma observação nos indicou anteriormente a verdadeira origem das coisas corporais, se ela nos faz ver hoje que todos os seres da Natureza estão sujeitos a essa lei violenta que preside à sua origem, à sua existência e ao seu fim, por que não poderíamos aplicar a mesma lei ao universo inteiro e reconhecer que, se foi a violência que o fez nascer e o mantém, deve ser também a violência que opera sua destruição?

É assim que vemos que, no momento de terminar uma peça musical, geralmente ocorre uma batida confusa, um trinado, entre uma das notas do acorde perfeito e a segunda ou a sétima do acorde dissonante, o qual é indicado pelo baixo que geralmente mantém a nota fundamental, para depois trazer o total de volta ao acorde perfeito ou à unidade.

Devemos ver ainda que, uma vez que após essa cadência musical se retorna necessariamente ao acorde perfeito, que restaura a paz e a ordem, é certo que após a crise dos elementos, os princípios que são combatidos também devem recuperar sua tranquilidade, de onde, fazendo a mesma aplicação ao homem, devemos aprender o quanto o verdadeiro conhecimento da música poderia preservá-lo do medo da morte, uma vez que essa morte não é mais do que o trilo que termina seu estado de confusão e o traz de volta às suas quatro consonâncias.