Compreender o Egito à luz do pensamento simbólico

SCHWARZ, Fernand. Initiation aux livres des morts égyptiens. Paris: A. Michel, 1988.

É praticamente impossível fazer uma interpretação correta dos textos e rituais trazidos pelas tradições egípcias apenas à luz do pensamento filosófico herdado dos gregos, pois a redação dos textos funerários não obedece às regras literárias a que estamos acostumados. A ordem dos textos parece desconexa: não há, propriamente, uma composição segundo um plano que inclua prólogo, desenvolvimento e epílogo. Essas três partes, embora desenvolvidas nos textos, podem aparecer repentinamente em qualquer momento da narrativa, deixando ao leitor a impressão de nunca conseguir situar-se em relação ao sentido do percurso.

A redação dos textos funerários egípcios é concebida de forma a que seja o leitor (o morto) a estabelecer a ligação entre os textos. Esta forma original de redação apela a cada momento ao discernimento ativo da alma do morto, que se torna assim o verdadeiro arquiteto da sua libertação para a luz. Os textos lembram o caminho certo e fornecem os meios para percorrê-lo, mas a orientação e o uso desses meios são fornecidos pelo próprio falecido, que deve demonstrar conhecimento. A esse estilo deliberadamente “desarticulado” soma-se ainda uma sobreposição de textos que, com o tempo, se justapuseram aos antigos Textos das Pirâmides.

Embora o Egito sempre tenha possuído, desde os tempos mais remotos, meios de expressão que permitiam formular ideias filosóficas, estas permaneceram sempre ligadas à teologia e, sobretudo, a uma concepção mágico-religiosa do mundo. Sob pena de reduzir o pensamento egípcio a uma série de abstrações em perfeita contradição entre si, não podemos separar as ideias filosóficas de seu contexto mágico-ritual, pois os egípcios nunca adotaram o modo de racionalidade grego: para eles, tudo está conectado e interligado, em estado de simpatia; nada é definitivamente isolado e inacessível.

A religião egípcia é, acima de tudo, de tipo ritual. Ao contrário dos textos das religiões do Livro, os textos sagrados egípcios não constituem uma narração, mas uma invocação destinada a tornar presentes e vivos os eventos tal como ocorreram “pela primeira vez”. A leitura dos textos funerários é um ritual de atualização das estruturas e poderes do cosmos, um ato de caráter mágico (como é o caso do Livro dos Mortos tibetano, o Bardo Thödol).

Assim, muito cedo, constatamos a existência de várias escolas teológicas, como a de Mênfis (teologia ctônica baseada no deus Ptah) e a de Heliópolis (teologia solar inspirada na atividade demiúrgica de Atum Rê). Essas diferentes escolas, apesar de suas divergências, sempre souberam encontrar relações complementares, recriando novos textos em que uma se apropria das funções da outra. Se os gregos ou os cristãos modificaram com o tempo a interpretação de um mesmo texto sagrado, os egípcios modificaram os próprios textos, de acordo com as necessidades e as escolas! A teologia egípcia é uma verdadeira teologia da metamorfose. É por isso que consideramos útil apresentar em anexo a evolução cronológica dos textos funerários, desde os mais antigos Textos das Pirâmides até as versões mais recentes do Livro dos Mortos; pois, para compreender o Livro dos Mortos, é indispensável possuir o esclarecimento dos textos arcaicos, frequentemente retomados e reintegrados nas versões mais recentes. O estudo cronológico dos textos funerários confirma o esquecimento progressivo da doutrina da integração cósmica — sem, no entanto, abandoná-la — em favor de uma visão mais “humana” da morte.